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No terceiro episódio do podcast “O Luto e a Luta: os 10 anos da chacina de Osasco e Barueri” — parceria da Central 3 com a Ponte Jornalismo — contamos a história das polícias e relembramos os principais massacres em SP. Ouça aqui

Na semana passada, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) saiu das mãos de Guilherme Derrite, youtuber e PM expulso da Rota por “matar demais”, para o delegado Osvaldo Nico Gonçalves, da Polícia Civil. Ambos possuem afinidade com os meios de comunicação expressa ao longo das suas trajetórias. Derrite aproveitou a fama de matador em um país onde chacina funciona como showbizz eleitoral para surfar na onda do bolsonarismo nas redes sociais e se alçar na política.
Filiado ao Progressistas (PP), elegeu-se para o cargo de deputado federal em 2018 e em 2022, antes de ir para a SSP-SP a convite de Tarcísio de Freitas. Primeiro militar a ocupar a pasta desde os tempos de ditadura civil-militar, preferiu o Congresso neste final de 2025 ao ser escalado para relatar o projeto de Lei 5582/25, proposto pelo Governo Lula e conhecido como PL Antifacção.
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Desde janeiro de 2023, quando Derrite assumiu, o Estado de São Paulo executou 1973 pessoas. Dos 1034 dias em que esteve diante da pasta, em 821 deles a máquina de matar paulista atuou de forma letal contra a população de territórios periféricos. Segundo levantamento divulgado pela Ponte Jornalismo, o Estado matou em quatro de cada cinco dias em que Derrite esteve no comando da SSP-SP. Seus dois anos e 10 meses à frente da pasta foram marcados não apenas pela continuidade de uma histórica brutalidade policial, mas sobretudo pela sua atualização e sofisticação desse terror de Estado.
Delegado das estrelas
O delegado Nico, que agora substitui o deputado Derrite na SSP-SP tem uma carreira bastante midiática, assim como a do seu antecessor. Conforme a Ponte Jornalismo relembrou, ele começou sua carreira policial como investigador da Polícia Civil ainda durante a ditadura civil-militar, em 1979.
Em 1992, passou no concurso para delegado da instituição, onde fez parte da criação do Grupo de Operações Especiais (GOE), unidade de elite da polícia treinada para situações de alto risco, e do Departamento de Operações Policiais Estratégicas (DOPE), responsável por operações envolvendo crimes complexos. Em 2022, se tornou Delegado Geral da Polícia Civil. No governo Tarcísio passou a atuar como Secretário Executivo da Segurança Pública, número dois da pasta.
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“Sua carreira policial foi marcada por casos midiáticos. Em 2001, ele participou das operações que encerraram o sequestro de Silvio Santos e sua filha, Patrícia Abravanel. No ano seguinte, esteve envolvido na prisão do mentor do sequestro de Washington Olivetto. Em 2005, Nico prendeu um jogador de futebol argentino [Desábato, do Quilmes] ainda em campo, após o apito final, por injúria racial contra o então jogador do São Paulo Futebol Clube, Grafite. O esportista ficou dois dias sob custódia da Polícia Civil de São Paulo”, diz trecho da matéria de Paulo Victor Ribeiro.
Nico também ganhou os holofotes da mídia ao prender o médico Roger Abdelmassih, acusado por centenas de estupros. Preso em Tremembé, Abdelmassih hoje figura no panteão das “estrelas criminosas”, alçado ao patamar de celebridade mórbida pelos meios de comunicação que exploram os “crimes famosos” e se esquecem dos crimes de Estado.
Democracia securitária
Fica cada vez mais claro para os olhos atentos, o tamanho da autonomia que as polícias vêm construindo no Estado (e em todo o Brasil) a partir da atuação de Derrite. Se figuras oriundas da polícia que entraram na política em gerações anteriores faziam uma espécie de defesa de interesses imediatos das corporações — mais verbas para benefícios sociais, equipamentos, leis favoráveis etc —, agora não é difícil notar que a atuação policial na política extrapola esses limites e começa a propor sua própria ideia de sociedade. Uma sociedade policial.
Não por acaso, dizemos no LASInTec que nossas democracias são “democracias securitárias”. Não se trata de um conceito abstrato ou sofisticado. Mas de um adjetivo que sinaliza o quanto as nossas democracias estão colonizadas pela questão da segurança ao mesmo tempo em que produzem a insegurança que abre tal brecha.
A troca de um PM por um civil não muda essa lógica. Afinal de contas, Derrite foi o único policial militar a ocupar a pasta desde a redemocratização e, como apontado, não inventou nada. Atuou na sofisticação e no aprofundamento das políticas policiais que já estavam em curso.
A máquina de matar
Pontuamos a mudança na pasta por duas razões. A primeira, e mais óbvia, é que os episódios de O Luto e a Luta foram redigidos e gravados antes de Derrite deixar a SSP-SP. Assim, por uma questão jornalística, achamos conveniente utilizar o espaço desse artigo para atualizar a informação.
A outra razão também é simples de ser entendida. A mudança mostra que pouco importa o CPF que está operando a máquina de matar — composta por um construto de forças de segurança, forças armadas, sistema de justiça, sistema prisional, imprensa e outros atores. A máquina funciona com qualquer operador. E nesse terceiro episódio do podcast “O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri” fazemos uma pausa na maior chacina de São Paulo para voltar um pouco no tempo e contar a história dessa máquina de matar.
Das guardas de caça dos tempos coloniais e imperiais, às criações da polícias e seus inimigos internos ao longo do período republicano. Da lei da vadiagem e da perseguição aos sindicatos na primeira metade do século passado, passando pela guerra interna contra os subversivos durante a ditadura civil-militar de 1964, até a construção da imagem do “criminoso urbano” no papel de inimigo interno a partir da redemocratização nos anos 1980 e a consequente proliferação de massacres policiais nas periferias.
O episódio também resgata informações dos massacres e das chacinas ocorridas em São Paulo que ganharam maior destaque nos meios de comunicação. A foto a seguir, tirada em 16 de agosto de 2025 durante o ato de 10 anos da chacina de Osasco e Barueri, dá um spoiler acerca do levantamento que fizemos desses acontecimentos. A faixa fotografada foi produzida pelo LASInTec-Unifesp e mostra uma linha do tempo com esses casos.

Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo
Ouça o episódio 3: A máquina de matar – e siga o podcast “O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri” na sua plataforma de preferência:
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Referências e pesquisa para o episódio
LASInTec – Boletim (Anti) Segurança #38 – 9 anos da maior chacina de SP: nem perdão, nem esquecimento. 16/08/2024.
LASInTec – Boletim (Anti) Segurança #25 – Ato em memória dos executados pela Chacina de Osasco e Barueri em 2015. 12/08/2022.
LASInTec – Boletim (Anti) Segurança #21 – Estado = Milícia: Fluxos de extermínios na democracia securitária e a incontrolável abolição da polícia. 25/03/2022.
Acácio Augusto. Política e polícia: cuidados, controles e penalizações de jovens. Rio de Janeiro: Lamparina, 2013, 1ª ed., 221p.
FELITTE, Almir. História da Polícia no Brasil: Estado de exceção permanente? (Autonomia Literária, 2023)
Marques, Adalton José. Humanizar e expandir : uma genealogia da segurança pública em São Paulo. Universidade Federal de São Carlos, 2017.
Ponte Jornalismo: O caminho das balas que liga a morte de Marielle à maior chacina de SP. Por Arthur Stabile em 16 de março de 2018
Revista Fórum. Os “casos isolados” e a Comissão dos Mortos e Desaparecidos que ainda não foi (re)implementada. Por Raphael Sanz, com entrevista ao antropólogo Orlando Calheiros, em abril de 2024.
Ponte Jornalismo: Dez maiores chacinas de São Paulo tiveram participação de PMs. Por Josmar Jozino em 10 de março de 2018.
Desinformémonos (México): El estado de São Paulo y su máquina de matar. Coluna Brasil Visceral, por Raphael Sanz, em 01/07/2025.
Revista Fórum: Massacre do Carandiru completa 30 anos no dia das eleições: “Que democracia queremos?”. Por Raphael Sanz 01/10/2022
Ponte Jornalismo: Crimes de Maio de 2006: o massacre que o Brasil ignora. Por Beatriz Drague Ramos em 17/05/2021
G1: Ex-PM é condenado a 149 anos de reclusão por chacina na sede da torcida Pavilhão 9. Assinado pela redação do G1 em 28/06/2019
Le Monde Diplomatique Brasil: “É descabido sentar diante de um juiz e ouvir policiais repetirem mentiras já desmascaradas”. Por Raphael Sanz em 30/04/2025
Le Monde Diplomatique. Massacre de Paraisópolis: “As famílias querem entender por que a polícia fez isso”. Por Raphael Sanz em 16/05/2025
Conectas: Operação Escudo/Verão: Um ano de violência e letalidade. (26/07/2024)
Revista Fórum: Entidades de Direitos Humanos detalham crimes da PM de Tarcísio na Baixada Santista. Por Raphael Sanz em fevereiro de 2024.
Iconografia da História. Assassinato e tortura na polícia: O Caso da Favela Naval
Agora São Paulo: Quatro jovens são mortos em chacina no ABC. Por Gio Mendes em 23/04/2011
Folha de São Paulo: Oito morrem em chacina no litoral de SP. Por Fausto Siqueira em 19 de novembro de 1999.
Folha de S Paulo: Testemunha liga quatro policiais à megachacina. Por Crispim Alves em 04/07/1998
Ponte Jornalismo: Arquivos Massacre da Sé.
Também foi utilizado o áudio da coletiva de José Aguiar, sobrevivente do Carandiru, publicado em 6 de outubro de 2015 no canal Caravana 43 Sudamérica. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NGtMiSmDbiI
Fazemos um agradecimento especial à Jéssica Santos, editora de relacionamento da Ponte Jornalismo, por gravar o trecho da matéria de Arthur Stabile que utilizamos para resgatar a informação sobre o lote de balas usado em Osasco e Barueri que também matou Marielle Franco três anos depois.
Ficha técnica:
- O Luto e a Luta é apresentado por Raphael Sanz e Gil Luiz Mendes.
- O podcast é fruto de parceria entre a Central 3, a Ponte Jornalismo, o LASInTec-Unifesp e a Associação 13 de Agosto (de mães e familiares de vítimas da chacina de Osasco e Barueri).
- O roteiro é de Raphael Sanz.
- A identidade visual é de Lucas Richardson e Carlos Ghiraldelli da Seppia Conteúdo.
- Domenica Mendes fez a revisão dos roteiros e episódios.
- A edição é de Gil Luiz Mendes.
Gil Luiz Mendes é jornalista, repórter na Ponte Jornalismo e apresentador na rádio Central 3. Raphael Sanz é jornalista, pesquisador ligado ao LASInTec-Unifesp e acompanha movimentos sociais há 20 anos.


