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Imagens das câmeras corporais e investigação indicam que Evandro foi baleado dentro de um banheiro e não portava arma

A investigação contra o motoboy Evandro Alves da Silva, de 44 anos, pelos crimes de resistência e porte ilegal de arma de fogo foi arquivada nesta quarta-feira (17/12). Evandro havia sido indiciado após ser baleado por policiais militares do 5º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), em agosto de 2023, em Santos, durante a Operação Escudo. À Ponte, ele afirmou ter sido atingido ao sair de um banheiro.
Para o promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) Fabio Perez Fernandez, a versão apresentada pelos policiais militares — de que Evandro estaria armado com uma pistola e teria desobedecido à ordem de largar o objeto — não é verdadeira.
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Fernandez citou outro inquérito policial que resultou na denúncia contra os PMs Daniel Pereira Noda, Carlos Vinicius Batista Bruno e Thiago Freitas da Silva por tentativa de homicídio qualificado, com agravante de abuso da função pública, praticado em conjunto. Segundo a acusação, os policiais teriam fraudado a cena para justificar a ação.
De acordo com a denúncia, os PMs plantaram uma pistola no sobrado onde funcionava a cooperativa de mototáxi criada por Evandro para incriminá-lo. Em agosto deste ano, o g1 e a GloboNews obtiveram imagens das câmeras corporais dos agentes envolvidos no caso. Em um trecho do vídeo tornado público, é possível ver que, durante a varredura do imóvel, um policial filma uma cama onde havia apenas um casaco. Dois minutos depois, a pistola é encontrada no mesmo local por outro agente.
As imagens também mostram o pânico vivido por Evandro que, mesmo baleado, pulou a janela do banheiro após quebrar o vidro e cair de uma altura de sete metros. Os registros indicam que o motoboy estava no banheiro no momento em que foi atingido pelos disparos.
A versão registrada nas imagens diverge do relato dos policiais, que afirmaram em depoimento que patrulhavam a região do Morro José Menino, em Santos, quando avistaram pessoas correndo ao perceberem a viatura. Segundo eles, os agentes correram em direção a um imóvel onde Evandro supostamente estaria armado.
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“Assim, diante da análise conjunta dos procedimentos investigatórios acima mencionados, conclui-se que Evandro não estava armado, nem resistiu de qualquer forma, apenas fugiu da abordagem policial”, escreveu o promotor. O pedido de arquivamento foi acolhido pela juíza Andrea Aparecida Nogueira Amaral Roman.
Em entrevista à Ponte em julho do ano passado, Evandro relatou o pavor provocado pelo episódio. “Eu vejo uma viatura, já me bate um apavoro, vem tudo aquilo de novo na mente. De vez em quando me dá umas crises de pânico, me dá um pouco de falta de ar, me dá aquela congelada”, disse.
Após os disparos, ele foi levado para a Santa Casa de Santos, onde permaneceu internado por 45 dias. A ação deixou marcas permanentes: uma grande cicatriz no tronco, a retirada do baço, um projétil alojado no pulmão e cicatrizes em torno das oito costelas que foram quebradas.
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Evandro é um dos três sobreviventes da Operação Escudo. A ação, descrita como uma ofensiva de vingança, foi desencadeada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e pelo então secretário da Segurança Pública Guilherme Derrite (PP), após a morte do soldado Patrick Bastos Reis, 30, da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), tropa de elite da PM paulista. Ao todo, 28 pessoas foram mortas nos 40 dias da operação.
O que dizem as autoridades
A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública (SSP) sobre o arquivamento da investigação contra Evandro Alves da Silva e sobre a situação funcional dos policiais militares Daniel Pereira Noda, Carlos Vinicius Batista Bruno e Thiago Freitas da Silva.
A reportagem também perguntou se foi instaurado procedimento administrativo para apurar o caso e se eventual apuração interna já foi concluída. Até a publicação, não houve resposta. Caso haja retorno, o texto será atualizado.


