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Felipe Petta, o “Pôde”, foi morto dentro de casa. Moradores relataram à Ponte que ele havia sido jurado de morte por PMs na segunda (15/12). Formado em educação física, jovem era usuário de drogas e não dispunha de armas, segundo vizinhos
A Polícia Militar de São Paulo (PM-SP) matou a tiros um morador na favela do Moinho, na região central de São Paulo, na tarde desta sexta-feira (19/12), durante uma operação conjunta com o Ministério Público paulista (MP-SP). Os agentes alegaram que ele teria sido atingido durante um suposto confronto, o que vizinhos ouvidos pela Ponte negam — segundo eles, tratou-se de uma execução.
A vítima é Felipe Petta. Formado em educação física, ele vivia na comunidade há dez anos, onde era conhecido como “Pôde”. O jovem foi morto dentro de casa, no segundo andar de um imóvel no Moinho. À Ponte, uma testemunha relatou ter ouvido três disparos em sequência, os que tiraram a vida dele.
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A Secretaria da Segurança Pública do estado de São Paulo (SSP-SP) comunicou, em nota, que ele teria sido baleado em meio a uma troca de tiros com policiais. Entre as pessoas ouvidas pela reportagem, no entanto, essa versão é inconcebível. Felipe era usuário de drogas e não dispunha de armas de fogo. Além disso, o espaço no qual ele vivia era pequeno, sem condições de que houvesse ali um confronto.
Jovem havia sido jurado de morte por PMs, afirmam vizinhos
Os vizinhos relataram que, na madrugada da última segunda-feira (15/12), Felipe havia sido agredido por policiais militares dentro da comunidade, quando teria sido jurado de morte. Ainda na ocasião, os agentes teriam cortado o cabelo dele com uma faca.
A PM-SP foi à comunidade desta vez para uma operação com o objetivo de cumprir mandados de busca e apreensão. Segundo publicou o g1, os alvos foram dois endereços que seriam usados por traficantes de drogas ligados a Leonardo Moja, o Leo do Moinho — ele é apontado pelo MP-SP como liderança do Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo e está preso desde agosto de 2024.
Um dos imóveis que passou por buscas fica próximo a uma quadra poliesportiva da comunidade, o chamado “campinho”. A casa na qual Felipe foi morto fica distante dali, nos fundos da favela.

Moradores temem novas incursões policiais e mortes na favela
Estiveram no Moinho dezenas de viaturas e de policiais, incluindo agentes das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), do Batalhão de Choque, do Canil e da Cavalaria. Vários deles tinham o rosto coberto por balaclavas. A Ponte verificou que ao menos parte dos PMs não tinha identificação na farda. A PM-SP também manteve um helicóptero em sobrevoo.
As famílias ouvidas pela Ponte relataram ter medo de permanecer no local e de serem as próximas a morrer. Enquanto a casa onde Felipe foi baleado permanecia isolada, à espera da chegada da perícia, os vizinhos mais próximos se perguntavam sobre o que fariam, temendo uma nova incursão policial.
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O temor se estende aos próximos dias, quando a cidade tende a ficar esvaziada em razão do Natal e do Ano-Novo. Os poucos moradores que ainda aguardam um desfecho por parte da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), empresa estatal sob gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) e que conduz o reassentamento da favela, afirmam querer sair do local em segurança.
Em 18 de abril deste ano, quando a cidade também esteve vazia, em razão do feriado de Sexta-Feira Santa, a PM-SP chegou a montar uma operação na favela. À época, moradores relataram ao UOL que os agentes chegaram pela manhã e jogaram bombas de gás lacrimogêneo contra um grupo em um bar.

Moinho passa por processo de remoção sob truculência da PM-SP
A favela do Moinho passa por um processo de reassentamento iniciado pela CDHU em setembro do ano passado. Os moradores começaram a sair em abril de 2025, pressionados pela violência policial no local. Naquele mesmo mês, tiveram início os protestos contra a remoção sem uma reparação. As manifestações de maior projeção ocorreram em maio, ocasião que a Polícia Militar paulista (PM-SP) montou um cerco à comunidade para apoiar a CDHU em demolições de casas.
O Censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou que 1.827 pessoas viviam na favela do Moinho naquela altura. A CDHU afirma ter identificado 931 moradias no local no ano passado e ter tido a adesão de 880 famílias ao plano de reassentamento.
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Na terça (16/12), chegou a 702 o número de moradores contemplados pelo acordo anunciado em maio pelos governos Lula (PT) e Tarcísio para a compra de imóveis gratuitos a cada um. Conforme mostrou a Ponte, ainda há famílias, contudo, que seguem sem o benefício — a elas, a CDHU passou a oferecer um auxílio-aluguel de R$ 1,2 mil mensais por 12 meses para que deixem o local, sem outras contrapartidas.
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Ainda permanecem na favela centenas de famílias, muitas delas de mãos atadas: elas não têm para onde se mudar, ao mesmo tempo em que a CDHU tem feito da comunidade um espaço cada vez mais hostil. A Ponte também já mostrou que os destroços tornaram o local um aparente cenário de guerra.
O que diz a SSP
A Polícia Militar realiza uma ação para cumprimento de mandado de busca e apreensão na tarde desta sexta-feira (19), na comunidade do Moinho. Durante a operação, houve troca de tiros e um suspeito foi atingido, sendo socorrido pela equipe do Corpo de Bombeiros. A ocorrência está em andamento.


