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Neste 2025 em que a Ponte Jornalismo celebrou 11 anos de existência, vale a pena revisitar as histórias que contamos, as parcerias que fizemos e as causas que ajudamos a mobilizar. Somos uma equipe pequena mas de coração grande para enfrentar — com seu apoio — as dificuldades financeiras e as pressões políticas

O tema da segurança pública, que Ponte Jornalismo elegeu como prioritário há mais de uma década no Brasil, tornou-se nos últimos anos uma das preocupações centrais do eleitor brasileiro — mobilizando marqueteiros, autoridades, políticos de oposição e uma cada vez mais histriônica cobertura da grande imprensa. Enxergando a segurança pela ótica dos direitos humanos, e em combate ao viés racista e classista que ela sempre assumiu no país, a Ponte em seus primeiros anos de existência teve o mérito de dar visibilidade inédita a violações históricas, centenárias, por aqui.
Nas palavras do nosso diretor de sustentabilidade e projetos especiais Antônio Junião, por ocasião do “Festival 11 Anos da Ponte Jornalismo” dia 29 de março no Sesc Vila Mariana, “a Ponte tem atuado como pauteira de veículos da imprensa tradicional, que passaram a ter uma cobertura mais humana na área de segurança pública e direitos humanos”.
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Junião ressaltava ali as mudanças significativas no panorama da mídia brasileira trazidas também pela nossa contribuição: “Esses veículos vêm entendendo cada vez mais que violações de raça, gênero e classe são estruturas presentes na violência de estado. E, hoje em dia, é possível ler no noticiário tradicional manchetes como ‘Homem negro é assassinado pela polícia’ ou ‘Pessoas negras são presas injustamente’. Isso, em grande parte, é mérito da Ponte.“
Hoje, neste conturbado final de ano de 2025, podemos dizer que demos um passo à frente nessa caminhada. Ao nosso já reconhecido trabalho de denunciar violações cometidas por agentes do Estado, reverter prisões injustas e combater o preconceito em suas diversas manifestações, adicionamos um caráter propositivo a esse olhar sobre a segurança pública em um país tão marcado pela desigualdade.

Contra a necropolítica, pelo “bem viver”
Em uma das parcerias mais importantes firmadas pela Ponte este ano, com a Fundação Friedrich Ebert Stiftung – Brasil (FES), trouxemos a público em junho, na série de reportagens “Segurança é Pública”, o trabalho desenvolvido por movimentos sociais e grupos periféricos de todo o país nos Fóruns Populares de Segurança Pública — em que as comunidades mais afetadas pela questão propõem soluções que vão além da violência e do confronto de sempre, pautadas pelo conceito de “bem viver”.
Iniciativas como essas ajudam a amadurecer no país, na quadra crítica que vivemos, de riscos existenciais à própria democracia ainda visíveis, a ideia de que a segurança não é “uma questão de polícia”, como políticos de extrema-direita querem fazer crer. Mas um debate que deve ser feito de maneira ampla, transversal, articulando políticas públicas e iniciativas da sociedade civil.
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Na mesma direção, em parceria com o Instituto Procomum, acompanhamos de perto o Seminário Internacional “Salve! Cuidado, Convivência e Tecnologias para a Segurança Pública”, realizado no mês de agosto em Santos (SP) — na mesma Baixada Santista traumatizada pela Operação Verão, que deixou 56 mortos na passagem de 2023 para 2024, em uma ação de vingança da polícia paulista sob a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e de seu então secretário da segurança, Guilherme Derrite (Progressistas).
Em uma das reportagens publicadas na Ponte sobre o evento, a repórter Catarina Duarte trouxe alguns dos protótipos desenvolvidos no seminário: uma cartilha ilustrada, tecnologias sociais como rodas de conversa e redes de apoio e até um fórum infantojuvenil, dentro da proposta de se discutir a segurança pública com base na escuta em diferentes bairros periféricos.

Polícia contra os povos originários
A mesma Catarina viajou em maio para o sul da Bahia, com o apoio do IDEAS Assessoria Popular — organização da sociedade civil que promove assessoria para ocupantes e trabalhadores de territórios negros e indígenas em conflito fundiário, além de grupos, coletivos, associações ou movimentos sociais — para denunciar a recente matança de Pataxós na região, por fazendeiros e posseiros não raro auxiliados pela Polícia Militar baiana, num evidente processo de criminalização de lideranças e questionamento da legitimidade dos povos originários, chamados de “supostos índios” pelas autoridades.
Parceiro da jornalista neste enxuto time de dois repórteres, um fotojornalista e um editor (somos, ao todo, uma equipe de 8 pessoas, apurando, fechando e divulgando matérias nas redes sociais, sem tempo de sobra nem margem jurídica para cometer erros), Paulo Batistella também trouxe, em seu primeiro ano de Ponte, especiais que foram muito além do hard news de cada dia. Em junho, expôs em uma série de reportagens o “Bônus do Tarcísio”, com que o atual governador agracia policiais militares — sua base político-eleitoral — muito acima de outros servidores públicos.
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O leitor ficou sabendo na Ponte, antes dos outros veículos, que os PMs receberam 30,5% da chamada “bonificação por resultados” paga pelo governador, embora correspondam a só 15,8% do funcionalismo: um total de R$ 827 milhões de pagamento adicional, sem critérios claros de desempenho e deixando à míngua, para citar apenas um exemplo, os servidores da área da Saúde que se expuseram a todos os riscos no enfrentamento da pandemia da Covid-19.
Em agosto, nos dez anos da maior chacina das ruas de São Paulo, Batistella relembrou a Chacina de Osasco e Barueri, que deixou ao menos 29 mortos: 6 na chamada pré-chacina, 21 na chacina (somando 17 vítimas identificadas, 1 não identificada e 3 sobreviventes que faleceram posteriormente), além dos 2 agentes de segurança cujas mortes teriam motivado a realização dos ataques.
O caso também motivou outra parceria relevante firmada pela Ponte em 2025, com a Central 3, que lançou em novembro o podcast O Luto e a Luta — os 10 anos da chacina de Osasco e Barueri. O programa remonta, em nove episódios concebidos com o apoio do LASInTec-Unifesp (Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de Monitoramento) e a Associação 13 de Agosto, que reúne mães e familiares das vítimas da chacina, os acontecimentos que culminaram na tragédia, em 2015.

A vida é um Moinho
E não foram só essas peças de fôlego que ajudaram a amplificar as vozes de vítimas e trazer o olhar da sociedade brasileira para histórias e pessoas que muitos gostariam de ver cair no esquecimento, mas nosso trabalho no dia-a-dia, cobrindo do jeito que a Ponte sabe casos como o processo de reassentamento da favela do Moinho — a última no centro da capital paulista — iniciado pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) em setembro do ano passado.
O que vinha sendo tratado por quase toda a imprensa como mero projeto urbanístico visando a construção de um parque e uma estação de metrô pelo governo paulista e a prefeitura paulistana em um terreno cedido pela União, revelou, nas histórias garimpadas dia após dia pela nossa redação, toda a violência de um plano de gentrificação afinado com interesses do mercado imobiliário e em desrespeito à vida e aos direitos dos moradores da comunidade.
Operações policiais violentas expondo ao risco crianças e idosos, prisões pouco explicadas de lideranças comunitárias locais, critérios nada claros de indenização e reparação aos proprietários ficaram evidentes nas reportagens publicadas pela Ponte — logo acompanhadas pelos jornais e TVs da grande mídia.
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Em um dos maiores desafios do ano, acompanhamos a “megaoperação policial” em 29 de outubro que deixou 121 mortos nos complexos de favelas da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro — desde já inscrita entre as maiores matanças do Brasil republicano, superando o Massacre do Carandiru, há 33 anos, quando 111 pessoas foram mortas pela Polícia Militar de São Paulo (PM-SP).
Mesmo sem equipe de correspondentes nem verba para enviar uma equipe ao Rio, lançando mão da tenacidade dos nossos repórteres em São Paulo e da colaboração de organizações e movimentos sociais no território, conseguimos pôr de pé uma cobertura forte, com o olhar afinado e informações inéditas sobre o que até agora apenas a Ponte teve a coragem de chamar pelo verdadeiro nome: Massacre da Penha e do Alemão.

Gente que faz, gente que luta
Cabe aqui agradecer aos muitos colaboradores que compuseram, juntamente com a nossa redação, o panorama deste ano tão intenso e trágico, mas também de esperanças que despontam na resiliência e nas proposições de organizações populares: Rafael Costa, Uendell Vinicius, Guilherme Matos, Adriana Amâncio, Mariana Rosetti, Paola Churchill, Raphael Sanz e nossos quase interinos Gil Luiz Mendes e Paulo Victor Ribeiro. Valeu demais, gente.
Sem falar no já tradicional “Festival Fala!”, evento itinerante criado pelo Instituto FALA! e realizado pela Ponte, Alma Preta e Marco Zero no mês de outubro em Brasília, e no laboratório de inteligência artificial de que participamos em dezembro e resultou na assistente de IA Elisa — desenvolvida este ano pela editora de relacionamento Jessica Santos para agilizar, a partir de agora e com toda a responsabilidade jornalística e trabalhista, as postagens do nosso conteúdo nas redes sociais.
Muita coisa ficou de fora desta breve retrospectiva, mas já deu para sentir que, mesmo com o orçamento cada ano mais apertado, fizemos bastante — com o coração grande desta equipe diminuta e com a sua ajuda de sempre, caro leitor e apoiador da Ponte. Contamos com ela para continuar escrevendo as histórias de 2026. Feliz ano de luta a todos!


