Share This Article
Artigo discute como o rótulo de narcoterrorismo reempacota a guerra às drogas e abre caminho para intervenções dos EUA sobre a soberania latino-americana

2026 começou intenso para o mundo, mas este não é um texto sobre como Donald Trump – também conhecido como Cheetos – sequestrou um chefe de Estado – e aqui não estamos avaliando a condução da Venezuela durante os anos Maduro – e o levou para ser julgado em outro país. Isto está bem coberto por quem está fazendo bom jornalismo – e não, não é toda imprensa.
Vamos conversar aqui sobre um papo que tivemos com o Dudu Ribeiro, que além de ser historiador é co-fundador da Iniciativa Negra por uma Nova Política de Drogas. Quando pensamos nessa pauta, nos interessou um termo muito citado ao longo de 2025 e nesse inicio de 2026: narcoterrorismo e sua aplicação para intervenções estrangeiras.
Na entrevista, conduzida pelo meu colega, o repórter Paulo Batistella, Ribeiro aponta que esta é “uma categoria alheia aos principais paradigmas do direito internacional e a várias legislações domésticas. É muito mais um instrumento de propaganda”.
Tanto é que vale lembrar que o tal do “Cartel de los Soles” que Maduro foi acusado de fazer parte nem existe – assim como o chupa-cabra. Vivemos na época de narrativas como verdades absolutas e Trump sabe bem aproveitar isso, sobretudo se aproveitando com fervor de todo arcabouço imperialista estadunidense. Dois foram destacados pelo nosso entrevistado: a doutrina Monroe e a guerra às drogas.
Leia também: Prisão de Maduro expõe uso de ‘narcoterrorismo’ por Trump para intervir na AL, diz historiador
Articulando essas duas premissas com a roupagem nova do narcoterrorismo, Trump apenas usou do absolutismo imperial, o direito divino americano, e fez o que fez. Mesmo que seu governo e a Unodc [Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime] tenham reconhecido que a região não tem um expressivo escoamento de drogas. E veja, algo que Dudu apontou para a Ponte: Bolívia e Paraguai, grandes produtores de drogas e com governos aliados de Trump, estão deitados eternamente em berço esplêndido, tranquilinhos. Coincidência, né?
E o que o Brasil tem a ver com isso? Bem, em 2025, o debate sobre narcoterrorismo veio a público, pelo menos, em dois momentos: como possível ameaça de Trump ao julgamento de Bolsonaro e depois do Massacre na Penha e no Alemão.
Um grupo de capachos de Trump – que provavelmente os deportaria se os visse diante de si – levou a questão ao parlamento brasileiro. Caso fosse aprovada, eles abririam nossa casa para uma intervenção estadunidense, pois, como bem acompanhamos nos últimos dias, o presidente dos EUA não pode invadir ou declarar guerra em solo estrangeiro sem autorização do Congresso. Há uma brecha que liberaria a ação em caso de terrorismo.
Leia também: Guerra às drogas, guerra aos negros
Você já vislumbrou o futuro, não? O paladino laranja da guerra às drogas declarando invasão ao Brasil e resolvendo ficar com o rio Amazonas, a nossa parte da floresta Amazônica e as ricas terras que temos por aqui. O crime organizado? Se organizaria e as periferias continuariam a ser criminalizadas.
Da guerra às drogas ao “narcoterrorismo”: como a periferia vira alvo na América Latina
Ao longo desses quase 12 anos, a Ponte vem visibilizando estudos e trazendo reflexões sobre como a guerra às drogas é uma guerra às pessoas e territórios. É uma guerra ao Alemão e a Penha e não uma batalha na Faria Lima, o coração financeiro.
Em décadas de guerras às drogas, cresceram e se popularizaram os “tipos” de substâncias, sobretudo sintéticas; os grupos, cartéis, pandillas e facções se tornaram grandes indústrias com intenso fluxo de capital e diversificação de investimentos. E, obviamente, ela matou gente preta, gente indígena, gente pobre, gente favelada, gente palenquera. Aqueles corpos invisibilizados desde quando éramos colônias dos povos brancos ditos civilizados.
Assine a Newsletter da Ponte! É de graça
Quem ainda acha que os EUA são o salvador divino branco a livrar o mundo do mal, ou é ignorante, ou é mau-caráter ou ambos. As reações da extrema-direita pouco pareceu ligar para o futuro de uma Venezuela como um “protetorado” americano. Eles sacrificariam nossa soberania no altar da ideologia paranóide a que servem apenas para se “livrar” de tudo aquilo que defende a vida do pobre, da mulher, do preto e da própria democracia.
Mesmo que isso lhes custasse as mansões na Barra da Tijuca ou nos Jardins, afinal, míssil estadunidense não sabe a diferença entre bairro nobre e bairro rico. Somos todos latinos, brancos, negros, indigenas, mas latinos – alguns, como eu, sentimos orgulho dessa cidadania continental. Mas na lógica americana, somos a subraça incivilizada do continente.

