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Jean Carlos Franco, de 19 anos, foi encontrado morto com um tiro de fuzil em março de 2022 em um quartel em Barueri (SP). Exército concluiu que o jovem tirou a própria vida, o que a família contesta, e negou à Ponte dados recentes sobre mortes na corporação

Atenção: esta reportagem trata de saúde mental e suicídio — o que pode gerar gatilhos. Caso você não esteja bem e precise conversar com alguém, a Ponte recomenda entrar em contato com o Centro de Valorização à Vida (CVV), que funciona 24 horas e pode ser acionado através do telefone 188 (ligação gratuita) ou a partir deste site. Você ainda pode buscar uma unidade de saúde mais próxima da sua casa por meio do Mapa da Saúde Mental.
Adriana Franco Alves Martins, de 51 anos, diz que a morte do filho caçula lhe exigiu um longo processo de silêncio e luto. Aos 19 anos, Jean Carlos Franco Alves Martins foi encontrado morto na guarita de um quartel do Exército em Barueri, na região metropolitana de São Paulo, em 26 de março de 2022.
Uma investigação do próprio Exército concluiu ter se tratado de suicídio. A mãe do jovem, no entanto, carrega desde então uma desconfiança nessa versão e uma sensação de abandono pela corporação, o que só agora tem conseguido colocar para fora. “Na hora, a gente não pensa em nada, em fazer isso ou aquilo. Eu me destruí. Agora, beirando quatro anos, que eu fui ter um pouquinho mais de força para fazer algo. Eu não tinha essa força”, conta Adriana à Ponte.
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Jean entrou no Exército em 2021 para prestar serviço militar obrigatório. Após o primeiro ano como recruta, quis permanecer e já fazia planos de ingressar na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) ou na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). Em outros momentos, se dizia cansado com a rotina. “Ele falava que tinha gente que pegava no pé dele. O primeiro ano foi bem difícil: era muito humilhado, perseguido. Eles judiam mesmo”, diz a mãe.
Inquérito ouviu colegas de farda e requisitou perícias
Jean foi encontrado morto no Quartel do Arsenal de Guerra de São Paulo, unidade onde são guardadas armas. Na ocasião, uma manhã de sábado, ele cumpria sozinho expediente de sentinela no posto 6, uma guarita com dois metros quadrados. Colegas de farda que estavam em um alojamento ao lado se deram conta de que alguma coisa havia acontecido ao ouvirem um barulho de tiro.
Um deles se deslocou ao posto, o P6, gritando por Jean, que não respondeu. Ao subir a escada que dá acesso à guarita, ele se deparou com o colega caído, conforme registrou um inquérito policial militar (IPM) instaurado pelo Exército e obtido em parte pela Ponte.
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O jovem tinha um ferimento na cabeça e um fuzil calibre 7,62 mm, de alto impacto, sobre o colo. Naquela altura, ele já estava morto, o que foi confirmado por uma equipe médica acionada para prestar socorro. O IPM afastou a hipótese de um acidente, sob o argumento de que Jean tinha treinamento para usar a arma e havia passado por uma checagem do fuzil ao iniciar o expediente.
Um laudo da Polícia Científica, vinculada à Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP) e acionada pelo Exército para colaborar na apuração, rejeitou a possibilidade de homicídio ao analisar o corpo da vítima e a guarita. “Não há elementos de ordem material que contrariam a hipótese de que houve suicídio”, aponta o documento.
Mãe cogita hipótese diferente de conclusão do Exército
A investigação também quebrou o sigilo dos dados do celular de Jean e ouviu ao menos 22 pessoas, incluindo militares do quartel e os pais do soldado. Os familiares relataram que ele não tinha histórico de depressão. Colegas de farda disseram que o jovem era tranquilo e não guardava inimizades.
Alguns deles ponderaram, contudo, que a vítima parecia triste nos dias anteriores, o que atribuíram ao término de um relacionamento. “Eles [do Exército] não quiseram debater muito. Falaram que era a família, que ele [Jean] estava brigado com a namorada, que ele estava muito triste. E eu me questiono: se ele estava tão triste, por que deixaram ele com armamento?”, afirma a mãe.
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Adriana diz que, além da conclusão do caso, o tratamento dado pelo Exército deixou uma sensação de injustiça. “Foi bem seco. Foi uma coisa assim: eu não tenho nada a ver com isso, aconteceu e acabou. Foi como se fosse, Deus me livre, um lixo. E acabou”, diz. “Depois disso, o Exército desapareceu. Não fizeram contato nenhum, fizeram pouco caso. A gente que precisou fazer contato.”
Ela cogita que o filho, metódico e disciplinado, possa ter sido morto ao testemunhar algo indevido no quartel, embora não tenha evidências disso. “Eu não acredito no que aconteceu. Eu peço a Deus por justiça, mas a gente vê que isso sempre volta a acontecer”, diz Adriana, que, em seu processo de luto, conheceu outras pessoas que perderam entes no Exército — é o caso de Juliana Korosi Paiva, de 40 anos, que também contesta a versão da instituição de que o filho, o soldado Christian Paiva Korosi, de 19 anos, morreu por suicídio em um batalhão em São Paulo, conforme mostrou a Ponte.
Estudos indicam preocupação crescente com suicídios no Exército
O Exército não divulga ativamente números sobre suicídios na tropa, mas estudos sobre o tema têm dado conta de que esse é um problema crescente. De 2010 a outubro de 2016, houve 107 casos, conforme identificou um artigo publicado na Revista Interdisciplinar de Ciências Aplicadas à Atividade Militar, da Escola de Formação Complementar do Exército e Colégio Militar de Salvador (EsFCEx/CM), a partir de dados cedidos pelo Gabinete do Comandante do Exército.
Um outro artigo publicado na Revista Eletrônica Saúde Mental Álcool e Drogas (SMAD), da Universidade de São Paulo (SP), estimou em 25,7% a prevalência de transtornos mentais comuns (TMC), como ansiedade e estresse, em um grupo de militares brasileiros selecionados para a pesquisa. O índice foi considerado elevado se comparado até com a condição de agentes em guerra.
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“Eles [os militares] constituem uma população mais vulnerável e suscetível à apresentação de sofrimentos psíquicos, mesmo em tempos de não guerra, visto que seu processo de trabalho diário exige alto grau de disciplina, exposição a um cenário de constante risco, pressão, tensão, disponibilidade 24 horas e cobrança institucional”, escreveram as autoras da pesquisa amostral.
Já um estudo mais recente, de 2025, elaborado na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), identificou que, apenas na 1ª Região Militar, a maior entre as 12 divisões territoriais do Exército, houve sete casos de suicídio e outras 40 tentativas entre 2023 e 2024. A mesma publicação reconheceu um patamar elevado de afastamentos por transtorno de adaptação a cada ano — o problema foi mais recorrente entre cabos e soldados, geralmente jovens e em início de carreira.
Ocorrências no Exército se assemelham a problema nas polícias
A Ponte tenta obter, desde novembro do ano passado, dados mais recentes sobre suicídios na corporação, por meio de um pedido via Lei de Acesso à Informação (LAI). Em resposta, o Serviço de Informações ao Cidadão do Exército alegou não registrar a causa das mortes envolvendo militares em sua Base de Dados Corporativa de Pessoal (BDCP) — a reportagem ainda recorre da negativa.
Também a partir de trabalhos acadêmicos, é possível ao menos saber que o interesse sobre o tema dentro do Exército tem sido crescente. Uma pesquisa feita na Escola de Saúde do Exército identificou um aumento do número de publicações sobre o assunto a partir de 2016, ano em que a corporação lançou um Programa de Valorização da Vida (PVV), voltado para prevenção de suicídios. A maioria dos autores dos estudos guarda vínculo com a própria instituição, conforme mostrou ainda o levantamento.
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Coordenadora-adjunta da área de ensino e pesquisa do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (Ippes), a socióloga Fernanda Novaes Cruz diz que a ocorrência de suicídios no Exército se assemelha em certa medida à realidade das polícias militares. O Ippes tem produzido desde 2016 estudos sobre o comportamento suicida entre agentes de segurança pública.
“Um primeiro parâmetro de semelhança é o fácil acesso ao meio que esses profissionais têm [armas de fogo]. Na Polícia Militar, a maior parte das vítimas também é de jovens de baixa patente. E há uma série de questões organizacionais: a própria estrutura militarizada é um fator de risco no caso dos policiais militares, e isso pode acontecer também nas Forças Armadas. Nos casos que acompanhei das Forças Armadas, aparecem ali esses ciclos de treinamento extenuantes e práticas de humilhação. Então, esses aspectos são muitos semelhantes [com o que ocorre nas polícias]”, afirma.
Entidade defende ações de posvenção e transparência ao acolher famílias
Fernanda diz ainda que o Ippes reconheceu, a partir de estudos sobre suicídios de policiais no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, a necessidade não só de políticas públicas de prevenção, mas também de “posvenção” — práticas que acolham familiares e colegas das pessoas mortas após o ocorrido. Uma diretriz fundamental nesse sentido é a transparência na investigação das causas desses óbitos.
“A morte por suicídio é cheia de tabus, e esses tabus se reproduzem de várias formas, como em questionamentos de pessoas próximas: o que aconteceu? Por que aconteceu? A narrativa de fato é essa? Nesse estudo no Rio, tivemos casos em que um familiar de uma vítima acreditava ter sido suicídio enquanto outro achava ter sido homicídio. Isso mostra para gente que existe uma demanda pelo esclarecimento dessas mortes, e, ao mesmo tempo, nem sempre essas instituições têm o ímpeto de investigar esses casos e também de comunicar as famílias sobre os desdobramentos”, diz.
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“As instituições ainda falham muito nas ações de posvenção para as pessoas que foram afetadas por aquela morte. Isso é muito importante inclusive para evitar novos casos, porque a ocorrência de um suicídio é um fator de risco para outros, tanto de um familiar, quanto de colegas. Isso ainda é algo muito tímido dentro das instituições. Elas fazem campanhas de prevenção, mas vemos menos isso no caso da posvenção e no que tange os familiares. É uma morte que muda a dinâmica da família, então a transparência e a comunicação adequada com os familiares faz muita diferença.”
Família pede reabertura do caso
Para a mãe de Jean, mesmo quase quatro anos depois, a vontade é de que a investigação sobre a morte do filho seja reaberta. “Sinceramente, é o que eu gostaria, mas não sei se é possível pelo tempo que passou. Hoje, eu me sinto mais forte para lutar e saber realmente o que aconteceu”, diz Adriana.
E ainda que isso não seja possível, ela diz acreditar que preservar a memória de Jean pode ajudar a evitar que casos desse tipo se repitam no Exército. “Eu não quero que isso aconteça com outros rapazes. Alguém tem que fazer alguma coisa, parar com isso. É um lugar que a gente pensa que a pessoa vai entrar para sair alguém melhor e ter um futuro, mas ela sai de lá em um caixão. Não pode acontecer isso.”
A Ponte questionou o Exército e o Ministério da Defesa sobre em quais circunstâncias o caso poderia ser reaberto. Perguntou também o que a instituição faz para prevenir ocorrências deste tipo e acolher familiares de vítimas após episódios de suicídio. Ainda não houve retorno.


