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Conjunto de pequenos barracos no bairro Bom Retiro abriga cerca de 100 pessoas sob condição de vulnerabilidade, incluindo idosos e crianças. Espaço já sofria repressão policial crescente e teve um morador morto a tiros no ano passado

Uma força-tarefa da prefeitura de São Paulo, sob gestão Ricardo Nunes (MDB), com agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e operários com marretas, passou a demolir barracos de uma ocupação no bairro Bom Retiro, na região central da capital paulista, nesta segunda-feira (19/1). O local abriga cerca de 100 pessoas, incluindo crianças e idosos — os moradores afirmam não ter agora para onde ir.
A ocupação fica na quadra final da Rua Prates, onde ela se torna sem saída, e está de frente para o Complexo da Prates, um conjunto de equipamentos públicos destinados à assistência social e à saúde de pessoas em situação de vulnerabilidade, em especial dependentes químicos.
Também chamada de favelinha da Prates, a ocupação era cercada por muros e acessada por um portão de lata, agora levados abaixo. Ela tinha pequenos cômodos feitos de madeira, alguma alvenaria e restos de recicláveis, entremeados por corredores estreitos e pouco iluminados. Cerca de um terço dos barracos foram agora demolidos pela prefeitura, deixando um espaço aberto de escombros.
‘As pessoas estão desesperadas’, diz vizinha
O primeiro dia da força-tarefa derrubou cômodos que estavam desocupados. Já nesta terça (20/1), os operários passaram a demolir barracos com moradores. “As pessoas estão desesperadas tirando as coisas para fora. Ninguém sabe o que fazer, para onde ir. Estão derrubando tudo”, disse, à Ponte, Kelly Almeida, que mora no mesmo bairro da ocupação e integra a Associação Amigos do Bom Retiro.
Ela afirmou ainda que não foi dada nenhuma contrapartida até aqui para acolhimento das pessoas expulsas. “A prefeitura tem que dar algum apoio para essas família, ter para onde levar elas, até mesmo fazer um cadastro e dar bolsa-aluguel. Ninguém está se negando a sair, mas desse jeito não tem como.”
Questionada pela Ponte sobre os motivos da desocupação e a falta de assistência apontada pelos moradores, a prefeitura de São Paulo alegou que tem, sim, oferecido apoio. “Equipes de abordagem social realizaram ações no local para orientação das pessoas presentes e ofertas de serviços de acolhimento. Até o momento, não há registro de aceite de acolhimento por parte dos ocupantes.”
A gestão Nunes comunicou ainda que somente descaracterizou “habitações abandonadas” na ocupação. “A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), informa que a área é de propriedade municipal e passou por ação de desocupação em razão da necessidade de reintegração do terreno e eliminar o risco de incêndio ou desabamento”, escreveu.
Ocupação já teve morador morto pela PM-SP
A Ponte já havia visitado a ocupação em abril do ano passado, ocasião em que a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PM-SP) matou a tiros Amarildo Aparecido da Silva, um homem negro de 36 anos. Vizinhos relataram à época que ele foi executado, contrariando a versão da corporação de que teria tido um confronto com a vítima em um cômodo de oito metros quadrados. Ainda naquela ocasião, moradores disseram que a repressão da polícia ao local vinha escalonando desde 2023. Eles alegavam que alguns agentes já os teriam submetido a episódios de extorsão, flagrante forjado e ameaças.
A reportagem também mostrou à época que a maioria das pessoas que vivem na ocupação está sob condições precárias: são usuários de drogas, têm problemas com familiares ou estão fora do mercado de trabalho formal. Havia muitas crianças aos cuidados dos pais no espaço compartilhado, o que se mantém ainda hoje. No Complexo da Prates, do outro lado da rua, também há abrigo gratuito, mas quem não se adapta às condições e regras do aparato público busca moradia em outros espaços.
Tarcísio já cogitou levar Cracolândia para trecho da Rua Prates
Em 2023, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), cogitou forçar a transferência da Cracolândia para esse trecho da Rua Prates — um maior fluxo de usuários de crack da região central de São Paulo se concentrava até então não tão longe dali, a cerca de 1,4 quilômetro, na Rua dos Protestantes. Ele voltou atrás da ideia ainda naquele ano, no entanto, pressionado pela vizinhança, e o Centro da capital tem agora espalhadas diversas cenas abertas de uso de drogas.
A ocupação sob demolição na Rua Prates fica também próxima à Praça Princesa Isabel, a cerca de dois quilômetros dali, para onde Tarcísio pretende levar parte da sede administrativa do governo estadual em meio à alegada revitalização da região central. Nesse processo, outras áreas ocupadas por famílias sob vulnerabilidade social sofreram expulsões conduzidas pelo poder público, como ocorreu, por exemplo, na favela do Moinho — na comunidade, contudo, ao menos parte dos moradores teve alguma reparação.
Leia a íntegra do que diz a prefeitura de São Paulo
A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), informa que a área é de propriedade municipal e passou por ação de desocupação em razão da necessidade de reintegração do terreno e eliminar o risco de incêndio ou desabamento. Equipes de abordagem social realizaram ações no local para orientação das pessoas presentes e ofertas de serviços de acolhimento. Até o momento, não há registro de aceite de acolhimento por parte dos ocupantes. A Subprefeitura atuou no local com equipes de desfazimento para realizar a descaracterização das habitações abandonadas de uma ocupação irregular. A Secretaria Municipal de Segurança Urbana prestou apoio.


