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Justiça concedeu liberdade provisória para Junior César Rodrigues e Leonardo Machado Prudêncio em dezembro, desde que não façam atividades externas. Eles respondem pela morte de Gabriel Junior Oliveira Alves da Silva, de 22 anos

A Justiça de São Paulo mandou soltar da prisão os dois policiais militares acusados pela morte de Gabriel Junior Oliveira Alves da Silva, um jovem de 22 anos baleado por trás em Piracicaba (SP) quando tentava proteger a esposa grávida de uma abordagem violenta, em abril de 2025. Eles também puderam retomar agora o trabalho na Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) em atividades internas.
O alvará concedendo a liberdade provisória para Junior César Rodrigues e Leonardo Machado Prudêncio, do 10ª Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM/I), foi expedido no último dia 17 de dezembro, revertendo uma prisão no Presídio Militar Romão Gomes, em São Paulo, que perdurava desde junho do ano passado. Apenas na última terça-feira (20/1) a família de Gabriel, que já foi intimidada por policiais no decorrer do caso, soube da soltura dos dois.
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Na ocasião, deveria ocorrer uma audiência judicial para tratar da eventual ida dos acusados para júri popular, o que acabou suspenso a pedido de um deles. Ambos terão de cumprir medidas cautelares, incluindo se abster de exercer funções em atividades externas e operacionais da PMESP.
Atirador atingiu vítima na nuca, e colega agrediu grávida
Junior César foi o autor do disparo que matou Gabriel. Conforme revelou a Ponte, o tiro entrou entre a nuca e a orelha direita e saiu um pouco acima, por trás da cabeça do jovem.
Já Leonardo acompanhou o colega na ocorrência e manteve a esposa da vítima, Rebeca Alves Braga, de 20 anos e à época com oito meses de gestação, dentro do camburão de uma viatura enquanto o marido dela sangrava no chão. Ele também puxou ela pelos cabelos, o que foi filmado (conforme vídeo acima), e a ameaçou.
À época em que eles foram presos, a princípio temporariamente, o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) alegou que a medida era necessária para que a investigação do caso pudesse avançar. Quando foram cumpridos os mandados contra eles ainda naquela ocasião, Leonardo foi pego em casa com um celular roubado, razão pela qual ele passou a responder também por receptação.
PM intimidou vizinhança e abordou advogado
Conforme mostrou a Ponte, após a morte de Gabriel, ocorrida em 1º de abril do ano passado, viaturas da PM, incluindo da Força Tática e do 10º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), passaram a circular com maior frequência pelo bairro Vila Sônia, onde o jovem foi baleado, no que a vizinhança viu como uma tentativa de intimidação.
No dia 6 de abril, familiares e vizinhos do bairro fizeram um protesto em Piracicaba pedindo por justiça. Eles também penduraram faixas na esquina em que o jovem foi morto. Na ocasião, policiais foram filmados circulando com viaturas em meio ao ato. Os moradores relataram que os agentes teriam retirado parte das faixas colocadas no local. Teriam dito ainda que, se fossem recolocadas, voltariam a retirá-las.
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No dia 10 de abril, o advogado Gustavo Pires, presidente da Comissão de Direitos Humanos da subseção de Piracicaba da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), e um estagiário de seu escritório, o estudante de Direito Brunno Barbosa, foram vítimas de uma abordagem truculenta da PM-SP na cidade. Os policiais insistiram para que os dois entregassem seus celulares e chegaram a intimidá-los com um fuzil. Eles vinham prestando apoio à família de Gabriel e a outras testemunhas do episódio.
Já no dia 20 de maio, conforme noticiou a Ponte, viaturas da PM-SP circularam novamente pela vizinhança, ocasião em que comerciantes tiveram de baixar portas de seus estabelecimentos. Mais uma vez, os policiais também retiraram de um muro cartazes que cobravam justiça por Gabriel.
Jovem viu esposa ter cabelo puxado por PM
Na ocasião em que Gabriel foi morto, a vítima e a esposa voltavam para casa, por volta das 19h30, após terem ido a um comércio na vizinhança comprar refrigerante. O jovem caminhava um pouco à frente na Rua Cosmorama, próximo à esquina com a Rua Raul Ataíde, quando foi abordado por dois policiais que chegaram ao local a bordo de uma viatura — a mulher de Gabriel ainda tentava alcançar o marido também a pé, após ter parado para comprar milho cozido com um ambulante.
Além do jovem, os PMs abordaram um outro rapaz que passava pelo local, alheio ao casal. Os dois homens foram colocados de frente para um muro e revistados, sob a alegação de que teriam um “volume suspeito”. Em dado momento, o policial Junior César passou a agredir Gabriel.
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A esposa dele, já mais perto da cena, repreendeu o agente e afirmou que aquilo não era necessário. O segundo PM da ocorrência, Leonardo, que até ali cercava o outro homem abordado, veio então em direção à mulher grávida e passou a agredi-la, com empurrões e puxões nos cabelos.
Foi quando Gabriel tentou interceder pela esposa e acabou baleado: “O policial me deu um empurrão que eu bati as costas na parede. Nisso, o meu marido tentou se soltar do outro policial para vir me ajudar. Ele conseguiu e correu. Quando ele correu e virou, eu escutei o tiro”, contou Rebeca à Ponte em abril. À época, ela e Gabriel tinham também uma bebê com 11 meses de vida e um menino de seis anos.
Demora no socorro
A vítima chegou a ser levada ao Hospital dos Fornecedores de Cana, mas não resistiu. Rebeca diz que o socorro demorou cerca de 40 minutos e só veio por insistência dos vizinhos que presenciaram a cena — eles chegaram a filmar em parte a ocorrência. Já os policiais tiveram reforço em cinco minutos e isolaram o local para que ninguém se aproximasse de Gabriel.
A mulher grávida foi levada após a ocorrência a uma unidade de pronto-atendimento (UPA) na Vila Rezende, a sete quilômetros do local da morte de Gabriel, apesar de haver uma outra UPA a menos de um quilômetro, no próprio bairro em que ela mora — a distância impediu que familiares, também moradores da Vila Sônia, fossem acudi-la enquanto recebia atendimento médico. Em seguida, ela foi levada para a sede do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) em Piracicaba.
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Os PMs alegam ter agido em legítima defesa. Segundo eles, Gabriel teria pego uma pedra para atacá-los durante a abordagem, o que vizinhos negam. A Polícia Civil não havia pedido a prisão preventiva deles.
A Ponte tentou contato com a defesa de Leonardo, conduzida pela escritório Oliveira Campanini Advogados Associados, mas não obteve retorno. A reportagem não conseguiu localizar a defesa de Junior César. O espaço segue aberto para caso queiram se manifestar.


