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Marcelo Flor Sabino de Souza, o “Marcelinho”, desapareceu na manhã de terça-feira (27/1) e só foi encontrado pela família às 22h — preso no 2º Distrito Policial do Bom Retiro. Vídeos nas redes sociais mostram o morador sendo imobilizado por dois homens enquanto diz ter problemas de saúde
Um morador da favela do Moinho, na região central de São Paulo, foi agredido e depois dado como desaparecido por cerca de 12 horas nesta terça-feira (27/1), até ser achado por familiares em uma delegacia na capital paulista. Vizinhos da comunidade denunciaram que ele tenha sido torturado e detido por policiais à paisana, sem qualquer identificação.
O sumiço de Marcelo Flor Sabino de Souza, de 37 anos, se deu às 8h30 da manhã, após ele ter sido filmado sendo agredido por dois homens na comunidade. Um dos agressores, aparentemente armado, incentiva o comparsa a “apagar” a vítima, que recebe um mata-leão. Marcelinho, como é conhecido o morador, tenta reagir e diz que tem problemas de saúde.
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Mais de 24 horas após a ação policial e depois de informar à Ponte que não havia registro sobre o caso, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) admitiu que a Polícia Civil realizou uma operação na comunidade e prendeu duas pessoas.
Uma familiar de Marcelo disse à Ponte que ele foi localizado apenas por volta das 22h de terça, depois que ela foi até a Corregedoria da Polícia. No local, ela não recebeu informações sobre quem o levou ao 2º DP (Bom Retiro), onde permanece até agora, nem sobre seu estado de saúde. A Ponte procurou a SSP-SP ainda na tarde de terça (27/1) para questionar a suspeita de participação de policiais nas agressões e na condução de Marcelo. Naquele momento, a reportagem ainda não tinha informação sobre a prisão de Marcelo no 2º DP.
Em nota encaminhada às 10h desta quarta-feira (28/1), a SSP-SP informou que a Polícia Civil não havia localizado registros relacionados ao ocorrido nem identificado denúncias na Corregedoria (leia a íntegra abaixo). Às 13h, a SSP enviou uma nova nota confirmando uma ação da Polícia Civil dentro da comunidade na terça-feira. Segundo a pasta, a operação teve como objetivo combater o tráfico de drogas e identificar imóveis usados para armazenamento de entorpecentes. Duas pessoas foram presas. Com uma delas, a polícia afirma ter apreendido uma mochila com centenas de porções de drogas, dinheiro e um celular “de origem ilícita”.
A Polícia Civil também afirmou ter localizado um compartimento subterrâneo em um imóvel da comunidade, onde teriam sido encontrados mais de 8 mil entorpecentes.
A familiar de Marcelo, que não será identificada pela reportagem, contou à Ponte que, no 2º DP, foi informada de que teriam sido encontradas com ele uma grande quantidade de drogas. Contudo, segundo ela, Marcelinho afirmou a uma advogada que acompanhava a família que é dependente químico e que portava um quantitativo para consumo próprio.
Família buscou em delegacias e hospitais
À reportagem, outra familiar contou ter iniciado buscas por hospitais e delegacias após perderem contato com ele. Segundo ela, familiares estiveram na Santa Casa e em outras unidades de saúde, sem localizá-lo. “Estamos na procura dele. Já vimos na Santa Casa, não está nos hospitais. Já viemos três vezes aqui e nada. A gente está sem saber o que fazer. Não tem notícia”, afirmou. Familiares suspeitam que os dois homens que aparecem nas imagens sejam policiais.
De acordo com o relato, delegacias da região central informaram que não havia registro no sistema indicando que Marcelinho tenha dado entrada em alguma unidade policial. A família recebeu a informação de que ele foi abordado, imobilizado e agredido por homens à paisana, sem identificação, por volta das 8h30. Segundo ela, os homens estariam armados e teriam agido de forma agressiva.
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“Levantaram ele, porém não o encontramos ainda. Já fomos em várias delegacias, porém sem sucesso. Nas delegacias nem consta a entrada dele. Já fomos em hospital nas proximidades e também sem notícias”, disse. Ainda segundo a familiar, Marcelinho teria sido colocado em um carro sem identificação.
A família morava anteriormente no Moinho, mas deixou a área após o início do processo de reassentamento da comunidade, ação que faz parte dos planos do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) de levar parte da sede administrativa para aquela região. Segundo ela, Marcelinho foi até o local porque recolhia materiais recicláveis de casas que estão sendo demolidas no território.
Outro vídeo publicado pela associação afirma que, ainda na terça, homens que seriam policiais à paisana, segundo denúncia da página, teriam agredido outro morador que estava de mudança da comunidade. A postagem indica que seriam os mesmos agentes que aparecem nas imagens em que Marcelo é imobilizado.
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Em dezembro, Felipe de Petta, 38, foi morto por policiais militares durante uma ação dentro da comunidade. Ele foi baleado dentro de um imóvel onde morava e, segundo registou o boletim de ocorrência, os policias que participaram da ação admitiram que ele não atirou.
Leia a íntegra das notas da SSP:
Primeira nota enviada às 10h
A Secretaria da Segurança Pública informa que, até o momento, a Polícia Civil não localizou registros relacionados aos fatos citados, tampouco identificou denúncias junto à sua Corregedoria. A SSP esclarece que a Corregedoria da Polícia Civil permanece à disposição para receber eventuais denúncias, apurar os fatos e adotar as medidas cabíveis, inclusive com a responsabilização dos envolvidos, caso as irregularidades mencionadas sejam confirmadas.
Segundo nota enviada às 13h
A Polícia Civil realizou uma operação de combate ao tráfico de drogas na Comunidade do Moinho, na terça-feira (27), como parte de ações voltadas à repressão da criminalidade e à identificação de imóveis utilizados para o armazenamento e a distribuição de entorpecentes. Durante as diligências, policiais flagraram a atuação de traficantes. Dois homens foram detidos em flagrante, um deles portando uma mochila com centenas de porções de drogas, além de dinheiro e um telefone celular de origem ilícita.
Na continuidade da operação, os agentes localizaram um compartimento subterrâneo em um imóvel da comunidade, onde foram apreendidas grandes quantidades de entorpecentes. Com o apoio de um cão farejador, as equipes localizaram mais de 8 mil porções de maconha, cocaína e crack, além de materiais utilizados para o acondicionamento das drogas. A ocorrência foi registrada e os detidos permaneceram à disposição da Justiça.


