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Policiais fizeram cerco com diversas viaturas e fuzis. Uma moradora foi baleada. Prefeitura local, sob gestão Topázio Neto (PSD), diz que demoliu sete casas e que convocou cerco policial “para garantir a segurança de fiscais e do entorno”
A Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) montou um aparente cenário de guerra na comunidade do Siri, no Norte de Florianópolis, na manhã desta quinta-feira (29/1). Diversas viaturas ocuparam as ruas do local e policiais circularam portando fuzis, mantendo o espaço sitiado, enquanto funcionários da prefeitura, sob gestão Topázio Neto (PSD), demoliram moradias e cortaram fiações de energia elétrica.
Moradores relataram que a circulação no território foi restringida e mesmo o acesso da imprensa foi limitado. Ao menos uma moradora foi baleada pela PMSC com um tiro de borracha. “Parece cena de guerra. Nunca passei por isso antes”, relatou à Ponte uma pessoa que vive na comunidade.
Leia também: ‘Ninguém sabe para onde ir’: prefeitura derruba ocupação e expulsa famílias no centro de SP
A operação montada pela PMSC, sob as ordens do governador Jorginho Mello (PL), teve início por volta das 8h, com a chegada de diversas viaturas sem aviso prévio da prefeitura de que faria a demolição de casas. O efetivo policial no local contou, inclusive, com agentes do Batalhão de Choque e da Cavalaria. Houve também integrantes da Guarda Municipal de Florianópolis (GCM) no cerco à comunidade.
A favela do Siri está incrustada nas dunas dos Ingleses, uma longa extensão de areia e vegetação nativa que atravessa o Norte de Florianópolis. O único acesso de carro à comunidade, com moradores de baixa renda e casas de perfil simples, é pela Rua Ruth Pereira, bloqueada pelo cerco da PMSC — na outra ponta, a mesma via desemboca na badalada praia dos Ingleses, com imóveis de alto padrão.
Prefeitura diz que convocou cerco para derrubar sete casas
A Ponte questionou a gestão Topázio sobre por qual razão houve a necessidade de convocar tamanho efetivo policial e se em alguma ocasião anterior a prefeitura de Florianópolis teve o seu trabalho impedido na comunidade. Perguntou também sobre o que motivou as demolições e quais políticas públicas de acolhimento serão dedicadas às famílias da favela do Siri que eventualmente ficarem desabrigadas.
Em resposta, a prefeitura afirmou ter derrubado sete casas inabitadas e que convocou o cerco policial para “garantir a segurança de fiscais urbanísticos e ambientais e também da população do entorno”.
A reportagem também buscou a PMSC, questionando as razões para ter sido empenhado tal efetivo policial na comunidade. Ainda perguntou sobre as circunstâncias em que disparou balas de borracha contra moradores da favela. Não houve resposta do órgão até esta publicação.

Favela do Siri é alvo recorrente de abusos da PMSC
Conforme mostrou a Ponte, a comunidade do Siri tem sido alvo crescente de abusos da PMSC nos últimos anos. Entre 2022 e 2025, três jovens foram mortos por policiais na favela, em episódios que os moradores afirmam terem se tratado de execuções — a versão policial narra supostos confrontos.
São comuns batidas policiais abusivas na favela do Siri, com agressões em revistas e invasões a casas sem mandados judiciais. Aos mais jovens, conforme moradores já relataram à Ponte, a PM costuma ordenar que desbloqueiem o próprio celular para que seja vasculhado. Quem é mãe na comunidade relata ter medo de que os filhos saiam à noite ou até mesmo corram no meio da rua, pelo risco de serem vistos como suspeitos pela PM e acabarem mortos. Durante as incursões policiais a tiros, mesmo quem está abrigado fica em pânico, já que várias das casas do local são de madeira.
A favela do Siri ainda convive com restrições de serviços básicos, como fornecimento de água e energia elétrica, por ser considerada uma ocupação irregular — a realidade ali destoa da vizinhança da região Norte de Florianópolis, que também abriga bairros de classe alta e média alta entremeados em áreas de preservação e vários pontos turísticos, como as praias de Jurerê Internacional e de Canasvieiras.
Além da PMSC e da prefeitura, a Ponte procurou o Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC), que tem o dever constitucional de exercer o controle externo da atividade policial no estado. A reportagem questionou se o órgão acompanha o episódio e se tomará alguma providência. Não houve retorno.
Leia a íntegra do que diz a prefeitura de Florianópolis
A Prefeitura de Florianópolis realizou na manhã desta quinta-feira mais uma fase da Operação Solo Legal, que combate ocupações irregulares e visa proteger áreas de preservação ambiental, na Comunidade do Siri, no bairro Ingleses. Foram demolidas 7 unidades inabitadas que estavam em área de preservação permanente. Todas as fases da operação contam com apoio de forças de segurança como a Guarda Municipal, Polícia Militar e Polícia Civil para garantir a segurança de fiscais urbanísticos e ambientais e também da população do entorno.
Colaboraram Rodrigo Barbosa e Gabriele Oliveira, do Desterro – Observatório de Violência em Florianópolis.


