Share This Article
O quinto episódio do podcast “O Luto e a Luta: os 10 anos da chacina de Osasco e Barueri” conta a segunda parte da história de Zilda Maria de Paula, mãe do Fernando e principal figura da Associação 13 de Agosto. Ouça aqui

Na última semana, começamos a conhecer a vida de dona Zilda Maria de Paula, mãe do Fernando Luís de Paula e idealizadora da Associação 13 de Agosto — que reúne familiares e amigos das vítimas da chacina de Osasco e Barueri. No episódio Dona Zilda e o saber de esquiva ouvimos algumas das principais passagens da sua infância e adolescência, vivida nos quartos de empregada e garagens dos patrões da sua mãe em um primeiro momento e, em seguida, nas ruas de São Paulo e na porta do Teatro Record, onde a Jovem Guarda se apresentava na década de 1960.
Zilda adorava o contato com os artistas. Adora música. Durante entrevista com as pesquisadoras do LASInTec-Unifesp ela mostrou os discos dos Racionais MCs que orgulhosamente comprou para o filho e falou sobre artistas que admira: “Não gostava do Zeca Pagodinho, comecei a gostar por causa do Fernando”, diz.
Leia também: O Luto e a Luta: Dona Zilda e o saber de esquiva
A música acompanha a vida de Zilda. Funciona como um fio conector entre seus diferentes momentos: a porta do Teatro Record na adolescência; a escola de samba Rosas de Ouro na juventude; os discos dos Racionais comprados para o Fernando na fase adulta.
Apesar de desde cedo ter desenvolvido seu saber de esquiva para lidar com a violência, a exclusão social e outros problemas, a vida de Zilda também é música. Foi a música que a fez suportar uma das suas fases mais duras, quando morou na rua ainda adolescente. Ela se lembra com carinho dessa época e das amigas que fez através da música.
Mas, assim como uma canção que vai terminando em fade — quando o volume vai sendo abaixado —, essa fase foi acabando aos poucos, quase sem perceber. O som foi diminuindo, diminuindo, hipnoticamente… e quando ela se deu conta de que parou de tocar, começava a fase adulta, que veremos neste episódio.
Moradia, deslocamentos, famílias
Agora Zilda tinha um objetivo: reunir a família. Para isso, precisava de uma casa. Arrumou empregos, trabalhou, alugou um pequeno espaço na Brasilândia onde tinha raízes familiares e levou a mãe e o irmão para morar com ela. Não deu certo. Mas o período no bairro foi o suficiente para ela começar a frequentar a Rosas de Ouro, conhecer o pai do seu futuro filho e decidir que, se a velha família não ficou junta, então faria uma nova.
As coisas iam bem até que ela passou a sofrer agressões do companheiro, inicialmente enciumado com a possibilidade de Zilda tornar-se passista da Rosas de Ouro. Fernando nasceu no meio disso. E foi uma luta enorme entre ela se separar definitivamente e comprar a casa em Osasco onde criou o filho e vive até hoje. Anos e mais anos de luta.
Leia também: O que foi a Chacina de Osasco e Barueri
No meio tempo dividiu moradia com a mãe de santo, morou de favor na casa de parentes do ex-companheiro que lhe davam razão na separação, passou algum tempo na casa de patrões. Foram muitas idas e vindas até chegar no Jardim Munhoz Júnior. Vencida essa etapa, ela só tinha uma preocupação: o filho.
“Eu acho que a vida da Zilda é emblemática desse crescimento da cidade e do crescimento da urbanização. A partir da sua história é possível perceber que não existe urbanização sem violência. Sua vida mostra justamente como a urbanização e a produção de um aparato de segurança, de regulação urbana, são faces do mesmo processo. Estão ali o tempo inteiro, um dialogando com o outro, um retroalimentando o outro, não como o ponto fora da curva, mas como o processo em si”, analisa Joana Barros, vice-coordenadora do LASInTec-Unifesp que entrevistou dona Zilda.
“Não dá pra entender os processos de metropolização e urbanização de São Paulo se a gente não entende também a produção de aparatos de segurança pra essa cidade, de policiamento e de normas de urbanização, de modo a tornar ilegítima, e sobretudo ilegal, a permanência de pessoas como a Zilda que transitavam pela cidade. Quando ela vai contando pra gente todos os deslocamentos dela da cidade, a gente vai acompanhando as muitas frentes de urbanização da cidade”, completa a coordenadora do LASInTec-Unifesp.
Educar, para proteger das estatísticas
Quando Zilda se mudou para a casa própria no início dos anos 1990, Fernando estava próximo de atingir a primeira década de vida. Ainda era uma criança. Cresceu ali e apresentava “problemas” típicos da idade: era levado. E muito inteligente — o que é positivo na maioria dos casos, menos nas horas em que estava “aprontando”.
Dona Zilda correu pela criação do Fernando. Pegava pesado com a escola. Afinal de contas, tudo o que ele tinha de fazer era estudar e aprender uma profissão. Vira e mexe ela conseguia uma vaga para ele nas escolas bacanas dos patrões. Depois dos anos escolares, concluída a educação básica com sucesso, Fernando faria 18 anos. E ainda precisaria de “disciplina”, segundo Zilda. Foi por isso que ela o mandou para o Exército. O jovem Fernando saía a pé de casa, todos os dias, para servir no quartel de Quitaúna, em Osasco.
O tempo passou. Fernando ficou um ano no quartel e depois foi dispensado. Era um bom homem. Trabalhador, ajudava a mãe com a reforma da casa. Alto e atlético, jogava basquete e era goleiro do Bola+1, o time de futebol de várzea da quebrada. Em 13 de agosto de 2015, ele havia acabado de pintar a parte interna da casa, recém reformada por ele mesmo, quando saiu para cortar o cabelo e nunca voltou.
Leia também: O Luto e a Luta: A máquina de matar
“Na trajetória dela não há ponto de apoio, é uma vida o tempo inteiro que vai se estabilizando e desestabilizando, estabilizando e desestabilizando, e o ponto de maior estabilidade que supostamente era a casa dela em Osasco, o filho crescido e trabalhando, dentro dos parâmetros e sem relação com crime… de repente isso é desestabilizado por uma dessas formas absolutamente brutais de violência contra as quais ela se debateu a vida inteira. Se você ouve a fala da Zilda, ela basicamente tentou a vida inteira proteger o Fernando da estatística. Conseguiu salvar ele até ali e nem o Exército foi capaz de salvá-lo da chacina”, conclui Joana Barros.
O quinto episódio do podcast “O Luto e a Luta: os 10 anos da chacina de Osasco e Barueri” conta em detalhes a segunda parte da história de Zilda Maria de Paula, mãe do Fernando e principal figura por trás da Associação 13 de Agosto.
Ouça “Zilda Maria de Paula, mãe de Osasco” na sua plataforma de preferência:
Apoie o podcast O Luto e a Luta. A partir de R$ 9,90 por mês na Orelo, você contribui com esse projeto. Toda a renda deste podcast será revertida para a Associação 13 de Agosto por meio da Dona Zilda Maria de Paula.
Referências e pesquisa para o episódio
Esse episódio é baseado nos áudios das diversas sessões de entrevistas gravadas entre 2021 e 2024 com dona Zilda Maria de Paula pelas pesquisadoras Joana Barros, Gabriella de Biaggi e Lúcia Soares, todas ligadas ao LASInTec-Unifesp. As entrevistas foram feitas no âmbito de um projeto de extensão do laboratório.
Ficha técnica:
- O Luto e a Luta é apresentado por Raphael Sanz e Gil Luiz Mendes.
- O podcast é fruto de parceria entre a Central 3, a Ponte Jornalismo, o LASInTec-Unifesp e a Associação 13 de Agosto (de mães e familiares de vítimas da chacina de Osasco e Barueri).
- O roteiro é de Raphael Sanz.
- A identidade visual é de Lucas Richardson e Carlos Ghiraldelli da Seppia Conteúdo.
- Domenica Mendes fez a revisão dos roteiros e episódios.
- A edição é de Gil Luiz Mendes.
Gil Luiz Mendes é jornalista, repórter na Ponte Jornalismo e apresentador na rádio Central 3. Raphael Sanz é jornalista, pesquisador ligado ao LASInTec-Unifesp e acompanha movimentos sociais há 20 anos.


