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A Ponte explica, com base em dados, por que nomear a raça das vítimas da violência de Estado é essencial na denúncia do racismo estrutural no Brasil: em 2024, 82% das pessoas mortas pelas forças de segurança no país eram negras

“Jovem negro morre após abordagem da PM em São José do Rio Pardo”. Esta é uma frase que gera revolta e incômodo, mas nem sempre por conta da morte. O caso foi tema de reportagem da minha colega, Catarina Duarte. Júlio César foi abordado pela PM e, depois disso, chegou ao hospital em viatura da corporação — o que é proibido de acordo com resolução da SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo). O rapaz tinha febre, taquicardia e pressão baixa, foi levado para a UTI e lá morreu. O caso foi registrado como “morte suspeita”, mas amigos e familiares apontam agressão por parte dos policiais. Esta é a história.
Para uma enxurrada de gente no Facebook (sim, ele ainda existe), entretanto, o maior motivo de revolta não foi a morte em si, mas o fato da Ponte ter colocado a raça de Júlio César no título. Houve quem acusou de termos cometido “racismo estrutural” e quem sugeriu que fôssemos processados por isso. Também fomos tachados de “jornalismo podre” e “woke”. Fiquei surpresa de não ter lido nenhuma acusação de que a Ponte é financiada pelo crime organizado. Quando cheguei por aqui, há quase 6 anos, era bem comum esse tipo de comentário, junto a outras centenas de cunho violento, racista, LGBTfóbico.
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Preservando a identidade de seus autores, separei alguns dessa última leva para que você, leitor, tenha uma dimensão da revolta. “Desde quando começou a por a cor das pessoas nas notícias”, questionou uma mulher. “Se fosse branco, não teria problema…esses tipos de notícias ideológicas. Tem que falar os fatos e todo jovem é jovem independente da cor. Mas alguns noticiários usam a cor pra se promover”, apontou um homem. “Brancos morrem todos os dias. Se estivesse dentro de casa ou trabalhando estaria vivo”, criticou outra pessoa. “Nunca vi um negro sendo ameaçado na rua por policiais…acredito que as mídias manipular muitas pessoas e isso faz com que muitos acreditem nisso como se fosse assim, mas nem sempre é assim”.
O que fica claro é que nomear uma pessoa negra por sua raça é pior do que a morte dessa pessoa durante uma abordagem policial. Ah, essa gente que é tão a favor da vida! Além de revelar que, como é muito comum, a grande maioria nem se preocupou em ler a notícia completa. Afinal, são tempos nos quais ler títulos e linha fina bastam como autoridade para fazer a crítica.
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Essa não é uma reação nova — e é um dos motivos de que esta vos escreve tender a evitar a leitura de comentários para a manutenção da saúde mental. Mas vamos aproveitar esse espaço para reafirmar um dos nossos princípios: a Ponte dá e dará destaque ao que é invisibilizado. Se um jovem negro for morto, diremos que ele é negro para reforçar que o racismo mata, ele é o motor da necropolítica no Brasil e, por consequência, do genocídio da juventude negra. Isso não está baseado em vozes da nossa cabeça, mas em dados.
De acordo com dados da edição 2025 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024, 82% das pessoas mortas pelas forças de segurança eram negras. A morte de policiais, em sua maioria, acontece com profissionais negros. 79% das mais de 44 mil vítimas de mortes violentas intencionais no Brasil em 2024 era negra. Mulheres mortas pelo feminicídio e crianças estupradas também são, em sua maioria negras, representando respectivamente 63,3% e 55,6% do total de vítimas.
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Toda vez que visibilizamos a negritude de uma pessoa no título ou em uma reportagem é para denunciar que essas mortes não são casos isolados, não são erros, não são pontos fora da curva. São a regra de como o Estado funciona no Brasil e a base sobre a qual a sociedade brasileira está assentada, nas costas de 56% da população, essa maioria minorizada.
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