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Laudo pericial concluiu que um objeto semelhante a uma arma de fogo teve o posicionamento alterado após o disparo, reforçando a tese de que a cena foi adulterada pelos policiais militares acusados

A Polícia Civil indiciou policiais militares do 4º BAEP (Batalhão de Ações Especiais de Polícia) pela morte do motoboy Gabriel Ferreira Messias da Silva, de 18 anos. O jovem morreu em novembro de 2024 após ser perseguido pelos PMs, cair da motocicleta que pilotava e ser baleado no bairro do Cangaíba, na zona leste de São Paulo. Segundo o delegado do caso, há indícios de que os agentes adulteraram a cena do crime ao posicionar uma arma de fogo próxima à motocicleta de Gabriel.
O indiciamento ocorreu em dezembro do ano passado. Em janeiro deste ano, o delegado solicitou prorrogação de prazo para a conclusão do inquérito que apura a morte de Gabriel.
No boletim de ocorrência, os PMs afirmaram que Gabriel e outros dois motociclistas teriam desobedecido a uma ordem de parada e fugido. Segundo essa versão, após cair da motocicleta, o jovem teria se levantado e levado as mãos à cintura — momento em que o sargento Ivo Florentino dos Santos, ainda dentro da viatura, efetuou um disparo para “cessar iminente ameaça”. Os PMs relataram ainda que, após a abordagem, teriam encontrado uma arma de fogo com a vítima.
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O sargento Ivo foi indiciado por homicídio qualificado e fraude processual. Segundo o delegado Ivan Cesar Alves Pereira, após efetuar o disparo contra Gabriel, Ivo teria alterado a posição de uma arma de fogo junto ao corpo do motoboy para sustentar a narrativa de confronto. O cabo Evanildo Costa de Farias Filho e os soldados Ailton Severo do Nascimento e Gilbert Gomes dos Santos foram indiciados por fraude processual. Para a Polícia Civil, os três estavam diretamente envolvidos na dinâmica da ocorrência e contribuíram para a manipulação da cena do crime.
A decisão pelo indiciamento teve como base um laudo pericial produzido a partir de um pedido da Defensoria Pública, que representa a mãe de Gabriel, Fernanda Ferreira da Silva, 39. Os peritos do Instituto de Criminalística analisaram frame a frame os vídeos gravados pelas câmeras corporais dos policiais envolvidos.
O pedido da Defensoria foi motivado pela divulgação das imagens das câmeras corporais, que ocorreu seis meses após a morte do motoboy. Nas gravações, Gabriel aparece agonizando no chão e implorando pela própria vida, enquanto policiais circulam ao redor do corpo e da motocicleta. Em um dos vídeos, o jovem chega a dizer que é trabalhador e pede ajuda.
Perícia confirmou adulteração
A perícia tinha o objetivo de verificar se havia arma visível junto ao corpo de Gabriel ou à motocicleta no momento inicial da abordagem e se houve deslocamento posterior de objeto semelhante a arma de fogo, o que poderia indicar adulteração da cena do crime.
A análise das imagens das câmeras corporais concluiu que não havia arma visível junto a Gabriel no início da abordagem. Na câmera do soldado Ailton Severo do Nascimento, Gabriel aparece caído ao lado da motocicleta sem qualquer objeto sob ou próximo ao veículo e, em sequência posterior, é possível visualizar um policial empurrando com o pé um objeto com características semelhantes a uma arma de fogo para perto da moto.
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Já nas imagens da câmera do soldado Gilbert Gomes dos Santos, no momento em que ele se aproxima da vítima, também não é possível visualizar a arma na cena. Na câmera do sargento Ivo Florentino dos Santos, o disparo é registrado quando ele ainda está dentro da viatura, e o objeto com características de arma só passa a aparecer e ser recolhido posteriormente. Para os peritos, os registros permitem afirmar que houve alteração do posicionamento de um objeto com características semelhantes a arma de fogo.
Em abril de 2025, a Justiça já havia determinado o afastamento cautelar de Ivo Florentino dos Santos e Ailton Severo do Nascimento das atividades operacionais da Polícia Militar.

Gabriel ajudava a sustentar a família
Em entrevista à Ponte em maio do ano passado, a mãe de Gabriel relatou que só começou a compreender melhor o que havia ocorrido dias depois da morte. Na madrugada de 27 de novembro de 2024, ao reconhecer o corpo do filho no Hospital Municipal Ermelino Matarazzo, encontrou o jovem apenas de fralda, com uma marca de tiro no peito e sem quaisquer pertences.
Gabriel trabalhava como entregador por aplicativo e ajudava a sustentar a mãe e três irmãos. Na noite do crime, ele havia saído com dois amigos em motocicletas quando o grupo recebeu ordem de parada de policiais do 4º BAEP. Os jovens tentaram fugir, mas Gabriel acabou alcançado na esquina das ruas Belém Santos e Colônia Leopoldina, onde caiu da moto e foi baleado.
A mãe de Gabriel, Fernanda Ferreira da Silva, afirma que recebeu o indiciamento dos policiais como uma “sensação de começo de justiça”, mas diz que a medida é insuficiente. “Pra mim, o indiciamento é pouco. Eu quero ele preso e exonerado. Ele matou meu filho, mas ainda recebe salário pago por mim”, afirma.
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Ela diz que, desde o início, tentaram retratar o filho como criminoso, embora ele estivesse desarmado e pedindo ajuda, cobra a devolução dos pertences do jovem e afirma que a morte de Gabriel destruiu diversas famílias. “Até hoje eu não tive nada do meu filho, nem o capacete com o último cheiro dele”, desabafa.
O que dizem as autoridades
A Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) informou, em maio de 2025, que o Inquérito Policial Militar (IPM) sobre o caso havia sido concluído e encaminhado ao Poder Judiciário para análise, que os policiais envolvidos seguiam afastados e que, paralelamente, a Polícia Civil conduz investigação por meio do DHPP, sob sigilo, para esclarecer as circunstâncias da morte de Gabriel. A Ponte voltou a procurar a SSP-SP para atualização dessas informações.
Em nota, a pasta informou que os policiais militares envolvidos seguem afastados das atividades operacionais, que o IPM já foi concluído e relatado ao Tribunal de Justiça Militar (TJM) e que as investigações no âmbito da Polícia Civil estão em fase de conclusão pelo DHPP. A SSP-SP acrescentou ainda que o policial que efetuou os disparos foi indiciado por homicídio, enquanto os demais envolvidos responderão por fraude processual.


