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Thiago Gomes, de 19 anos, foi morto com quatro tiros, incluindo um pelas costas. Investigação ignorou vídeo em que PM passa arma na mão do jovem já caído e pega celular dele

Familiares e amigos de Thiago Gomes da Silva Lima Cordeiro, um jovem de 19 anos morto por um policial militar, fizeram um protesto cobrando por respostas neste sábado (7/2), ocasião em que se completam três anos e um mês do caso. O ato ocorreu na rua do Glicério, no bairro da Liberdade, na região central de São Paulo — é o local em que Thiago cresceu e também onde acabou assassinado a tiros.
”O meu Thiago tinha sonhos que foram destruídos, e eu não criei filho para ser destruído pela polícia”, disse Deuza Cordeiro de Lima, 59, durante o ato. Ela é tia do jovem assassinado e mãe de criação dele.
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Mesmo passado mais de três anos, o caso de Thiago está em uma etapa inicial, a de investigação, empurrada pela insistência de Deuza em apontar contradições e falhas no esclarecimento dos fatos. Os envolvidos alegam ter agido em legítima defesa, enquanto a família do jovem aponta fortes indícios de injusta agressão, omissão no socorro e fraude processual.

A investigação está atualmente sob responsabilidade do delegado Bruno Ricardo Cogan. A promotora do caso é Rosana Colletta, a quem caberia cobrar por mais diligências e eventualmente denunciar os envolvidos.
”Eu não trabalho mais, eu vivo nessa luta por justiça, para amenizar a minha dor”, disse ainda a enfermeira Deuza, acompanhada no ato de Arlene Dantas e de Sílvia Cardenas, que também tiveram seus filhos mortos por policiais — elas são mães, respectivamente, de João Vitor, assassinado aos 18 anos, e de Marco Aurélio, 22.
Elas puxaram um coro contra o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o deputado federal Guilherme Derrite (PP), ex-secretário da Segurança Pública paulista, aos quais atribuíram a política letal das polícias no estado. “Vamos trabalhar de todas as formas para tirar esse genocida”, disse Deuza. Também estiveram no ato ativistas em direitos humanos e integrantes de partidos de esquerda. A única representante política presente foi a vereadora paulistana Luana Alves (PSOL).
Versão do PM é inverossímil e difere das provas, aponta família

Thiago foi baleado desarmado pelo soldado Helvio de Matos Júnior. O autor dos disparos afirma que, na ocasião, dirigia um Volkswagen Fox pela rua do Glicério quando o jovem teria quebrado o vidro do passageiro para tentar roubar um celular acoplado ao painel. Com Helvio, estava a também a soldado Denise dos Santos de Souza, sentada no banco ao lado do motorista. Ambos os agentes estavam à paisana.
Helvio alega que Thiago teria conduzido toda a ação mantendo uma das mãos na região da cintura, “fazendo menção de estar armado”. Não havia arma alguma.
Ainda na versão dele, o jovem teria adentrado com o corpo no carro, pego o celular do console e deixado cair, quando ainda teria insistido em alcançar o aparelho no assoalho do veículo. O investigado teria anunciado ser policial antes de passar a atirar de dentro do Fox. Além disso, o agente sustenta ter acionado o resgate logo após o jovem ter caído no chão.
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A Defensoria Pública do Estado de São Paulo (DPESP), que auxilia a família de Thiago no caso, apontou, no entanto, que a versão parece inverossímil, uma vez que o jovem teria de ter feito tudo isso com apenas uma das mãos, por supostamente ter mantido a outra na altura da cintura.

Por insistência de Deuza junto à DPESP, a investigação obteve um relatório de atendimento do Corpo de Bombeiros no qual consta que, na ocasião do socorro a Thiago, não foi possível aferir a frequência cardíaca, respiratória e arterial dele. Outro ponto é que o registro de chegada para atendimento coincide com a partida. Isso seria um indicativo de que ele foi retirado do local já sem vida, alterando a cena.
Também por iniciativa da Defensoria Pública, provocada pela família da vítima, o Instituto de Criminalística produziu, apenas em novembro do ano passado, um laudo da trajetória dos disparos. O jovem foi atingido com quatro tiros, sendo um deles a certa distância e pelas costas, na nádega direita. Um outro atingiu Thiago no peito, ocasião em que, conforme a perícia, ele tinha o corpo para fora do Fox. Os outros dois foram dados na cabeça, de cima para baixo.
Investigação ignora vídeos e é cobrada a fazer reprodução simulada
A família de Thiago cedeu à investigação diversos vídeos dos momentos posteriores aos disparos, mas eles não foram levados aos autos pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), vinculado à Polícia Civil.
Nos registros, acrescidos ao processo apenas agora, em fevereiro, por iniciativa da DPESP, é possível ver Denise, a policial que acompanhava Helvio, pegando o celular de Thiago do bolso dele e passando a própria arma de fogo na mão do jovem. O atirador ainda é visto, aparentemente, falando do celular da vítima.
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Armada, a dupla ronda o corpo por diversas vezes e pede aos populares que parem de gravar. Na ocasião, aparece ainda um homem em apoio aos dois PMs. Até hoje essa terceira pessoa, que seria um policial civil, não foi identificada.

Os familiares de Thiago pedem que seja feita uma leitura labial sobre o que Helvio falava no celular da vítima na ocasião. O pedido aparece em uma petição protocolada pela DPESP na última quinta-feira (5/2). A Defensoria também solicitou à Justiça de São Paulo que ordene a realização de uma reprodução simulada dos fatos do momento dos disparos ao do resgate, com participação da família do jovem; que Deuza possa voltar a depor; e que seja feita uma perícia da atuação da equipe de socorristas.
A família de Thiago também pede que seja adiada a exumação do corpo dele, o que, pela legislação estadual, pode ser feito três anos após o sepultamento. O entendimento é de que há a possibilidade, ainda que remota, de uma perícia complementar no corpo do jovem.
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Ao longo da investigação, um irmão da vítima relatou à Polícia Civil ter escutado de uma pessoa que Thiago tentou roubar o celular após um amigo desistir da ação. O familiar mencionou dois nomes, mas os investigadores não identificaram quem seriam as potenciais testemunhas. A apuração policial também nunca obteve uma perícia do celular do jovem morto.
Conforme mostrou a Ponte, enquanto o caso de Thiago segue sem esclarecimentos, Helvio se tornou réu por um outro assassinato: em 10 de novembro de 2024, ele matou com nove tiros um homem de 28 anos durante uma abordagem em Rio Claro, município no interior de São Paulo.


