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Dados oficiais revelam que as mortes causadas pela polícia atravessam governos e expõem uma política de Estado que banaliza o extermínio de pessoas negras e pobres

Em 2025, todos os dias, as polícias brasileiras mataram uma média de 18 pessoas. Dá quase uma pessoa por hora. A polícia que mais mata é de um estado governado pelo PT há décadas. A Bahia foi responsável por 1.569 mortes no ano passado, enquanto São Paulo, governado por um bolsonarista, está em segundo lugar com 835 pessoas mortas. Esses dados são do próprio Estado na figura do Ministério da Justiça e Segurança Pública, divulgados recentemente.
Como bem pontuamos na reportagem da minha colega Catarina Duarte que analisa esses números: não há esquerda ou direita quanto o assunto é segurança pública. Há a política de ostensividade, violência, criminalização da pobreza e da raça e de morte. Há a necropolítica em seu estado mais puro e tão claro como a luz do dia.
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E o que diabos estamos fazendo com essa informação? Vira um dos muitos sapos engolidos? Por que indignação, mobilização não tem virado. Vidas brasileiras – em sua maioria negras e pobres – perdidas não rendem likes, não chamam seguidores, não viram manchete. E, quando viram, a mídia rica se esbalda em levantar os antecedentes criminais como aconteceu no Massacre da Penha e do Alemão em outubro do ano passado.
Naquela ocasião, dezenas de corpos foram empilhados à luz do dia na rua para quem quisesse ver. O país não pegou fogo, não houve greve contra a violência de Estado. Houve celebração de uma suposta limpeza feita pelo governo Cláudio Castro (PL) – o mesmo que tem muito a explicar sobre possíveis ligações com o crime organizado. Um dia em que morreu mais gente naquela área do Rio de Janeiro do que na Faixa de Gaza. A Palestina não é tão longe da nossa realidade, da ameaça de um Estado a uma população específica. É genocídio lá, é genocídio aqui.
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Em São Paulo, percebemos a interiorização da letalidade policial. Os dados divulgados pela SSP-SP, analisados pelo repórter Paulo Batistella, apontam que 40% das mortes cometidas por agentes de segurança foram em cidades do interior do Estado. Nós contamos algumas delas por aqui: Gabriel Junior Oliveira Alves da Silva foi morto tentando defender a esposa grávida de uma abordagem em Piracicaba, Júlio Cesar Paulo morreu após abordagem policial em São José do Rio Pardo e Giovani da Silva Rodrigues que teria sido executado pelo Baep em Bauru.
“Quando eu escrevo os nomes, eles se tornam reais, não são mais estatísticas. Quando eu escrevo os nomes, eles voltam a ser reais. É quase como se ganhassem mais alguns segundos aqui. […] Eu nunca seria capaz de inventar todos esses nomes. Eles só podem ser reais”, disse Damon Thruff, personagem do livro “As Árvores”, de Percival Everett (recomendo fortemente a leitura). No momento de sua fala, ele está anotando o nome de cada vítima de linchamento racial nos EUA durante um século.
Quando publicamos uma história com nome, rosto e a vida de uma pessoa que foi morta pelo Estado, os tiramos da sombra dos números. Nosso jornalismo serve para isso e tem servido nos últimos 11 anos. Ouvimos as famílias com atenção e coração. Muitas vezes, seremos os únicos a ouvi-las e a escrever sobre essas pessoas. Materializamos sua existência em palavra, registramos a injustiça, damos nomes e realidade.
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Quem mais vai falar sobre a história e os nomes dessas pessoas? Nós, as famílias, movimentos sociais e alguns operadores do direito. Pouca gente. Barulhenta, mas pouca. Há conforto em ler a história pela internet de forma fria e distante e terminar em indignação passiva no mesmo nível em que há conforto em governar a segurança pública no país. Passou da hora de mais gente incomodar usando as redes sociais e indo além delas.
“[…] ele foi percebendo que a similaridade de suas mortes havia feito com que esses homens e mulheres tivessem sido, num mesmo golpe, apagados e condensados numa peça única, como se fossem um único corpo. Eles eram um monte de números, e também nenhum. Eram muitos e apenas um. Um sintoma, um sinal”.
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