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Imagens registram cerca de 10 policiais do BAEP agredindo jovens que deixavam escola na Consolação; especialista classifica ação como abuso de autoridade
Um vídeo que viralizou nas redes sociais no último domingo (8/2) mostra cerca de 10 policiais do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (BAEP) agredindo foliões que saíam do edifício da Escola Estadual Marina Cintra, no cruzamento da Rua da Consolação, com a Rua Dona Antônia de Queirós, na região Central de São Paulo, durante o “Bloco Skol”, com a apresentação internacional do DJ Calvin Harris (veja vídeo acima).
A gravação mostra parte dos policiais no terreno da escola e parte em uma espécie de corredor formado na calçada. Nos dois ambientes, foliões — que aparentam ser majoritariamente jovens, com muitas mulheres presentes — tentam deixar o perímetro, sendo que boa parte deles escala as grades que cercam a escola.
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Na gravação, ninguém aponta armas ou objetos que coloquem em risco a vida dos policiais. Tampouco oferece resistência em deixar o imóvel. Mesmo assim, os agentes os agridem com golpes de cassetetes, inclusive pelas costas. Em determinado momento, um dos policiais dá um chute em um rapaz. Em outro, desfere um golpe de cassetete em um catador de recicláveis que caminhava na mesma calçada.
Não é possível saber o motivo exato dos foliões terem entrado no pátio da escola, que estava fechada e é uma repartição pública. A suspeita é de que parte tenha acessado o local com o intuito de fugir das aglomerações causadas pelo encontro de dois blocos: o da Skol, patrocinado, e o Acadêmicos do Baixo Augusta, tradicional no Carnaval de rua.
A Ponte ouviu foliões que estavam no Centro naquele dia e foram unânimes ao afirmar que as ruas estavam lotadas, causando aglomerações, problemas na organização e até na saúde de quem saiu de casa para se divertir e vivenciar um patrimônio cultural: o Carnaval brasileiro.

“Cena de abuso de autoridade”
Foi Jaco, um artista de 27 anos, quem registrou as imagens. Ele estava nos arredores para participar do bloco do Calvin Harris, mas desistiu por conta da superlotação. “Eu quase não consegui sair de lá de dentro com minha namorada, foi um inferno”, publicou nos stories do Instagram.
O casal escapou por uma rua lateral, esperou parte do bloco passar e chegou até a Escola Estadual Marina Cintra. Em entrevista à Ponte, Jaco afirmou que presenciou agressões por parte dos policiais, mas disse não saber o que havia ocorrido antes da abordagem. Segundo ele, ao chegar ao local, viu muitas pessoas saindo do imóvel, sem ter acesso à informação sobre o motivo de estarem ali.
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Adilson Paes de Barros, tenente-coronel reformado da Polícia Militar de São Paulo e pós-doutor em psicologia social pela USP, avalia que os atos registrados no vídeo são totalmente ilegais, ainda que se tratasse de uma invasão de propriedade pública, por exemplo.
Para ele, não havia motivo para o uso de violência, já que “ninguém estava colocando em risco a integridade física ou a vida dos policiais ou de qualquer outra pessoa”. Adilson destaca que os policiais formaram o que chamou de “corredor polonês”, onde as pessoas obrigatoriamente tinham que passar e eram golpeadas em várias partes do corpo. “É mais uma cena de abuso de autoridade”.
Para o especialista, cenas como essas transmitem desconfiança e medo da polícia. “Passa a ideia de que você não pode confiar no policial, que você tem que temer. Qualquer pessoa está exposta a presenciar ou ficar envolvida em algum ato como esse e pode ser agredida sem ter feito nada, apenas porque o policial resolveu agir de maneira arbitrária”.
Adilson também responsabiliza tanto a prefeitura quanto o estado pela situação. “Houve falha de planejamento, houve falha de agenda. Tinha poucos guardas municipais e poucos policiais para a magnitude dos eventos. Houve encontro de dois blocos gigantescos. Aí está o início de toda essa questão de absurdos”.
“Experiência de quase morte”
“Eu chamo de experiência de quase morte”, diz Alberto Real, 36, gerente de marketing, em um vídeo publicado no TikTok sobre o Bloco Skol. À reportagem, ele conta que estava com amigos na altura do número 1515 da Rua da Consolação quando o trio elétrico começou a descer e o local rapidamente ficou superlotado, mas não houve orientação de direcionamento de fluxo de pessoas.
Alberto e uma amiga decidiram sair dali, mas não conseguiram passar. Ele conta que precisou empurrar pessoas para chegar até o canteiro central da rua, onde descobriu que havia grades impedindo a passagem. Continuaram descendo até a esquina com a Rua Sergipe, mas o acesso também estava fechado.
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Nesse momento, a amiga começou a passar muito mal. Na mesma rua, havia um posto de atendimento médico com funcionários da prefeitura e policiais. “Eles viram a situação e não fizeram nada”, denuncia Alberto. Os amigos da jovem tiveram que carregá-la e passá-la por cima da grade para deitá-la no canteiro central, onde havia espaço para ela respirar.
Quando Alberto pediu ajuda, um funcionário reiterou que ninguém passaria ali. Um policial “colocou a mão no cassetete e falou que ia bater em todo mundo que passasse dali”. Então, “a gente não tinha para onde ir, de um lado estava sendo prensado na grade pelo público, do outro tinha um policial querendo me bater com cassetete”.
Somente quando a grade foi rompida, é que as pessoas começaram a passar, conta. Alberto desabafa: “Não tinha lugar para a gente escapar daquilo. O único lugar que tinha estava fechado com grade e com policiais e funcionários da prefeitura falando que era proibido passar ali”.
No meio do caos
No perfil oficial da Skol no Instagram, diversos usuários resumiram suas experiências negativas. A arquiteta Raffaella Araújo, 26, define o que viveu no bloco como “a pior [experiência] da sua vida”. Para a Ponte, ela conta que ela e os amigos “não tinham a opção de sair de onde a gente estava por conta da falta de espaço”.
Ela relata que teve a sensação de que algo ruim ia acontecer e que, na busca por uma saída, viu pelo menos três pessoas passando mal e cadeirantes em sufoco no meio da multidão. “Se tivesse acontecido algo com a gente, eu não sei como a gente conseguiria sair”, já que as ruas perpendiculares ao caminho também estavam muito lotadas.
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O fim do percurso, contudo, também não representou alívio: os policiais “queriam tirar o pessoal da rua pra abrir a avenida pro trânsito, mas foi ridículo, eles vieram com motos e carros, além de cassetetes, prontos pra bater em geral”, conta. “Logo veio o pessoal da limpeza com aquelas mangueiras praticamente jogando água em todo mundo, pro pessoal sair. Parecia que era uma ordem dos PMs, porque eles estavam até dando risada”, relembra.
Patrícia Santana, 38, produtora de eventos, chegou ao bloco às 10h30. Tão logo começou a enfrentar o sufoco, buscou jeitos de deixar o local. Para conseguir atravessar a grade da rua e chegar até a calçada, onde havia mais espaço, Patrícia teve que pular as barracas dos ambulantes. Por conta disso, isopores foram quebrados porque as pessoas precisavam se apoiar nas grades. Patrícia afirma que, no local onde estava, foi a própria galera que se ajudou.
Vereador pede investigação e crítica empresarialização do Carnaval
Nesta segunda-feira (9), o vereador Nabil Bonduki (PT-SP), arquiteto, urbanista e professor da Universidade de São Paulo, oficiou o Ministério Público de São Paulo pedindo uma reunião de urgência entre Prefeitura, Polícia Militar e demais envolvidos na organização do Carnaval de rua de São Paulo.
Segundo ele, a gestão municipal colocou o público em risco ao organizar de forma irresponsável os blocos na Avenida Consolação. “Essa prévia de tragédia tem de servir de alerta, e é fundamental identificar e responsabilizar quem permitiu que essa situação ocorresse”, afirmou em seu Instagram.
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Ainda no domingo (8), o prefeito Ricardo Nunes (MDB) publicou em suas redes sociais: “Em São Paulo, bandido não tem vez nem no dia a dia, nem no Carnaval”. Na postagem, ele afirmou estar acompanhando de perto o pré-Carnaval e o trabalho para garantir a segurança de todos. Contudo, não mencionou os problemas de organização e superlotação relatados pelos foliões no sábado. Em entrevista à GloboNews, Nunes classificou o Carnaval de rua como um “sucesso” e elogiou a infraestrutura e as ações de segurança, apesar das críticas registradas por participantes.
O caminho do Acadêmicos do Baixo Augusta ficou interrompido e o bloco só conseguiu sair com quase duas horas de atraso, prejudicado pelo tratamento privilegiado dado ao evento da patrocinadora, diz. “Colocar dois blocos de grande porte em um espaço reduzido – e cercado por grades – só poderia ter uma consequência: caos”, criticou.
Para Bonduki, o cenário é resultado de uma escolha política equivocada, em que a Prefeitura insiste em descaracterizar o Carnaval de rua, transformando uma manifestação cultural popular em um grande evento empresarial. “Interesses comerciais não podem ficar acima da segurança da população. A gestão municipal está favorecendo blocos empresariais em detrimento daqueles que construíram, ao longo de anos, o verdadeiro Carnaval de rua de São Paulo”.
O que dizem as autoridades
A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) sobre o conhecimento das imagens que circulam nas redes sociais, se as ações registradas no vídeo estão de acordo com os protocolos da Polícia Militar e se haverá investigação interna sobre a conduta dos policiais envolvidos. Em nota, a SSP informou que “a Polícia Militar mobilizou um grande esquema de reforço no policiamento, com mais de 5 mil agentes diariamente, para garantir a segurança dos foliões durante o pré-carnaval”.
Sobre o caso específico, afirmou que “neste domingo (8), na região da Rua da Consolação, foliões invadiram a área de uma escola que estava fechada ao público, sendo necessária a intervenção policial. As imagens estão sendo analisadas pela PM”.
A reportagem também questionou o Ministério Público se recebeu o ofício do vereador Nabil Bonduki, se há investigação em andamento sobre as agressões registradas no vídeo e se pretende tomar medidas em relação aos problemas de organização, segurança e falta de assistência durante o evento. Em resposta, “O MPSP informa que a Promotoria da Habilitação da Capital instaurou procedimento para apurar a superação do evento”.
A Prefeitura de São Paulo foi questionada sobre o critério utilizado para autorizar dois blocos de grande porte no mesmo local e horário, se houve estudo de impacto e capacidade para definir o percurso, quantos postos de atendimento médico foram instalados na região e se pretende rever o planejamento dos próximos blocos.
Em nota, a Prefeitura informou que “o desfile do DJ Calvin Harris, domingo, aconteceu durante todo o percurso da Rua da Consolação seguido por milhares de pessoas em clima de festa”. Além disso, que “o plano de contingência foi acionado diante da superlotação, e forças de segurança da GCM e da PM atuaram e controlaram a situação”. Também que “cinco pessoas que receberam atendimento nos postos da Prefeitura foram levadas para hospitais da região. Todas já foram liberadas”.

