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Imagens obtidas pela Ponte mostram agressão de três PMs do CAEP contra homem desarmado; versão registrada no 89º DP diverge do que aparece nos vídeos.
Policiais militares do Comando de Ações Especiais de Polícia (CAEP) agrediram um homem negro com tapas, soco, chutes e empurrões na presença de uma criança, durante abordagem na noite desta quinta-feira (11), em Paraisópolis, zona sul de São Paulo.
A ação ocorreu na rua Rudolf Lotze, altura do número 300, Vila Andrade, e foi registrada em vídeos obtidos pela Ponte.
As imagens mostram que a abordagem aconteceu em frente a uma loja de roupas femininas, diante de moradores da comunidade que frequentavam comércios vizinhos.
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Em um dos vídeos, gravado de ângulo lateral, uma mulher vestindo calça marrom e blusa preta retira às pressas uma criança da calçada segundos antes de um homem negro ser arremessado ao chão por um policial militar. Por pouco, a criança não é atingida.
O policial tenta desferir um soco com o braço direito, em seguida atinge o homem com um chute e monta sobre ele. De pé, um segundo policial segura uma arma longa e se abaixa para ajudar. A dupla força a cabeça do homem contra o asfalto. Um terceiro agente, que estava no interior da loja, se junta à ação.
São três policiais armados, contra uma pessoa desarmada. Em determinado momento, uma mulher de vestido rosa e chinelo grita diante da cena.
Em outro vídeo, gravado do outro lado da rua, o homem já aparece no chão, murmurando palavras inaudíveis, enquanto protege a cabeça com as duas mãos. Um policial o pressiona contra o asfalto.
Segundo um morador da comunidade que preferiu não se identificar por questões de segurança, essa não seria a primeira vez que a mesma equipe policial realiza abordagens truculentas na região.
Versão policial diverge das imagens
A Ponte acessou o boletim de ocorrência registrado como “resistência” no 89º Distrito Policial, no Morumbi. No documento, o sargento Lucas Paião De Lima, do CAEP, informou que ele e a equipe “patrulhavam pelo interior da Comunidade de Paraisópolis”, em apoio ao 16 Batalhão de Polícia Militar, quando “teriam se deparado com um roubo na rua Ernest Renan”.
Após isso, avistaram um homem “a pé com características físicas semelhantes àquelas irradiadas como sendo de um dos autores. Portanto, decidiram abordá-lo”. Neste momento, o jovem “entrou em uma loja e se escondeu em seu banheiro”.
Lucas narra que ele e a equipe “acessaram o comércio para a realização da abordagem” e que “ao ser retirado da loja” o homem “lançou o policial testemunha ao solo”. Versão que diverge das imagens obtidas pela reportagem. Nos vídeos, é possível ver claramente um PM arremessando o homem ao chão, desferindo socos e chutes antes de imobilizá-lo.
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Paião completa que, “a fim de se resguardar a segurança da equipe e dele próprio” algemaram a vítima, que “não se permitia ser algemado, sendo necessário o uso de força progressiva para se quebrar sua resistência e se proceder ao seu algemamento”.
Já o cabo Marcelo Vieira Nóia Junior conta que, ao retirarem o homem da loja, “uma criança de cerca de três anos passou” entre ele e a vítima, que “aproveitou a situação e tentou correr”, sendo agarrado e derrubado.
A versão do policial sobre a criança também contradiz as imagens. O vídeo mostra que uma mulher retirou a criança às pressas da calçada segundos antes do homem ser arremessado ao chão, justamente para protegê-la da ação policial que estava em curso. A criança não “passou entre” os policiais – ela estava no local e foi removida para sua própria segurança.
Marcelo conclui que ambos caíram no chão e que, diante disso, precisaram algemá-lo. Conforme o documento, apenas o celular do morador foi encontrado no banheiro. Os policiais o levaram para uma Assistência Médica Ambulatorial (AMA) por conta dos ferimentos. Depois, ele foi encaminhado ao 89ºDP para registro da ocorrência e liberado na sequência.
A Polícia Civil conclui no boletim: “cientificado dos motivos de ter sido conduzido à Delegacia”, o homem “limitou-se a dizer que errou porque ‘correu dos cara’”.
O que é um CAEP
O CAEP é uma unidade de elite da PM treinada em táticas especiais para combate ao crime organizado, equipada com armamento pesado e viaturas específicas. No site da Polícia Militar, ele não aparece no organograma oficial, já que esse tipo de núcleo integra batalhões já existentes.
Em release institucional da Secretaria de Segurança Pública (SSP) de 2024, o então comandante-geral da Polícia Militar explicou que “o embrião de um Baep é a Caep. É aqui que se forma a cultura da unidade”, definiu Cássio Araújo de Freitas. A unidade de elite tem sido usada em diversas operações realizadas em Paraisópolis.
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O que dizem as autoridades
A reportagem procurou a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) e a Polícia Militar para questionar se há conhecimento da ocorrência, se será aberto procedimento disciplinar para apurar a conduta dos policiais envolvidos, e qual o posicionamento oficial sobre as contradições entre o boletim de ocorrência e as imagens. Até a publicação desta matéria, não houve retorno.
Em nota, a pasta não respondeu aos questionamentos, e se limitou a dizer:
Um homem foi detido na noite de quinta-feira (12) durante patrulhamento da Polícia Militar em Paraisópolis, na zona sul da capital paulista, suspeito de envolvimento em um roubo na região. Policiais faziam patrulhamento quando viram o suspeito, que tentou fugir e se esconder em um estabelecimento comercial. Ao ser abordado ele resistiu, sendo necessário o uso de técnicas de imobilização e algemas. O homem teria afirmado que tentou fugir por acreditar que poderia estar sendo procurado por um envolvimento anterior com tráfico de drogas, em 2025. Ele foi encaminhado ao 89º Distrito Policial, onde a ocorrência foi registrada. As imagens da ação estão sendo analisadas e a investigação prossegue para o esclarecimento dos fatos.

