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Ouça os episódios finais do podcast ‘O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri’

Prezados leitores, leitoras e ouvintes, nesta quinta-feira (26/2) publicamos os episódios finais do podcast ‘O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri’. E depois de 9 episódios em que relembramos os ataques que vitimaram pelo menos 29 pessoas, sua repercussão midiática, jurídica e as histórias das mães que ali perderam os filhos e se organizaram para lutar pelas suas memórias, nos perguntamos: o que mudou 10 anos depois?
Pois é. Nada. Basta acompanhar o noticiário da Ponte Jornalismo para perceber que chacinas como a de Osasco e Barueri ocorrem diariamente pelo Brasil.
O último exemplo de grande escala foi a matança que vimos no Rio de Janeiro em outubro passado, em comunidade na região da Penha e do Alemão, com mais de uma centena de corpos expostos em praça pública pelos próprios moradores como meio para que o terror que viveram não fosse sumariamente jogado para escanteio e esquecido em seguida. Todos os dias acompanhamos casos de menor escala, mas igual tristeza, com vidas jovens sendo encerradas de repente, como quando Fernando Luiz, filho de dona Zilda, saiu para cortar o cabelo depois de trabalhar, parou no bar da esquina e tomou um tiro no rosto.
Falamos de um Brasil que ao ser retratado a partir das altas rodas do poder parece estar sempre mudando. Em 2015, Lula e Alckmin (então governador de São Paulo) eram ferozes adversários políticos. Alexandre de Moraes era secretário de segurança pública de Alckmin, enquanto Sérgio Moro era o juiz preferido dos meios de comunicação. Guilherme Derrite, atual deputado federal e ex secretário de Segurança Pública de Tarcísio de Freitas em São Paulo, era policial militar lotado no batalhão de Osasco.
De lá pra cá Dilma Rousseff caiu, Temer assumiu, Bolsonaro foi eleito e, então, perdeu para Lula. A depender da contagem, a democracia já caiu e voltou pelo menos duas vezes nessa década. Tudo parece em movimento no andar de cima. Na ponta, no entanto, no andar de baixo, a violência não arrefece, pelo contrário, sua organização pelo próprio Estado torna-se cada vez mais sofisticada ao ponto de as mesmas munições utilizadas em Osasco em 2015 terem sido usadas em 2018 no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Na base, chacinas se multiplicam e mães se conhecendo para lutar e enlutar juntas também são cada vez mais comuns.
Os episódios finais de ‘O Luto e a Luta’ buscam refletir sobre essas questões a partir dos 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri.

Um lugar para descansar
No oitavo episódio de ‘O Luto e a Luta’ vamos ouvir a respeito da exumação dos corpos de algumas das vítimas da chacina de Osasco e Barueri, um processo em que as famílias preferiram viver dentro de suas intimidades, fora dos holofotes da imprensa e acompanhadas por poucas pessoas oriundas de grupos de apoiadores. Entre esses grupos estava o LASInTec-Unifesp.
A exumação ocorreu no fim de agosto de 2024, logo após a realização do ato em memória dos 9 anos da chacina. Àquela altura, algumas das vítimas ainda estavam em covas públicas no Cemitério Municipal de Barueri e, caso não fossem transferidas para ‘covas próprias’, havia o perigo dos restos mortais se perderem. O problema é que era necessário um longo processo burocrático, além de custos considerados altos pelas mães da Associação 13 de Agosto, para financiar um lugar para o descanso permanente ali e as devidas plaquinhas de identificação das suas sepulturas. Então mobilizou-se uma ampla rede de apoiadores para dar conta da demanda.
Algo que pode parecer banal a essa altura, dado o turbilhão de violências que acompanhamos, mas que faz uma enorme diferença no processo de luto dessas famílias. E especialmente pela maneira com que foi feita a arrecadação de fundos para a exumação e sepultamento. Os meios importam tanto quanto os fins. E a grande mobilização de apoiadores para arcar com os custos garantiu não apenas um lugar para descansar aos filhos, mas o calor humano gerado pelo movimento, pelo qual as mães se sentiram abraçadas pelo coletivo.
Agora, uma vez que os filhos tinham esse “lugar para descansar”, a sensação é de que tinham feito tudo o que era possível por eles. Chegava a hora de elas também descansarem e cuidarem um pouco de si mesmas.

E lá se vão 10 anos…
Mas o movimento de mães da Associação 13 de Agosto não acabou. Elas continuam em movimento, organizando anualmente os atos em memória dos seus filhos e cuidando umas das outras, e de suas famílias, de forma cotidiana.
O episódio 9, “E lá se vão 10 anos”, encerra o podcast ‘O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri’, contando como foi o ato que demarcou essa década de luta e luto. A preparação, o almoço, a caminhada para a praça, a exibição do documentário Memória Obstinada (de Caio Castor, que assim como esse podcast compõe o projeto de extensão do LASInTec junto à Associação 13 de Agosto), a apresentação do artista Kric Cruz e, principalmente, as falas das mães de Osasco e Barueri e de tantas outras mães que se fizeram presentes.
Estavam mães do Rio de Janeiro, de outras localidades de São Paulo e, em grande peso, da Baixada Santista (SP). Estava o Movimento Independente Mães de Maio, liderado pela incansável Débora Silva e que, como vimos no episódio 6, foi fundamental para a trajetória da Associação 13 de Agosto. Essas mães deram seus depoimentos, contaram suas histórias e expuseram seus sentimentos. E não há nada que um jornalista possa escrever com a pretensão de resumir isso tudo. É recomendável escutar o episódio até o final.

Ouça os episódios finais do podcast ‘O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri’ na sua plataforma de preferência.
Apoie o podcast O Luto e a Luta. A partir de R$ 9,90 por mês na Orelo, você contribui com esse projeto. Toda a renda deste podcast será revertida para a Associação 13 de Agosto por meio da Dona Zilda Maria de Paula.
Referências e pesquisa dos episódios finais
O episódio 8 – Um Lugar para Descansar – usou áudios do documentário Memória obstinada: caminhos de luta das mães, por memória e verdade em Osasco e Barueri. (SP 2023), dirigido por Caio Castor e Agência Pavio em parceria com o LASInTec-Unifesp. Também usamos informações da Ponte Jornalismo e da Folha de São Paulo além, é claro, do material de pesquisa e das entrevistas com as mães realizadas pelo LASInTec-Unifesp.
O episódio 9 – E lá se vão 10 anos – é dividido em duas partes. A primeira é baseada no Boletim Anti Segurança número 44 do LASInTec-Unifesp, intitulado “Uma década de luta, uma vida inteira dedicada à memória: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri”, lançado em 13 de agosto de 2025. A segunda parte usou áudios e entrevistas gravados pelo roteirista deste podcast durante o ato em memória dos 10 anos da chacina de Osasco e Barueri, realizado em 16 de agosto de 2025.
- BOLETIM (ANTI) SEGURANÇA #44 – Uma década de luta, uma vida inteira dedicada à memória: os 10 anos da chacina de Osasco e Barueri. LASInTec-Unifesp, 13/08/2025.
- La matanza de Osasco y Barueri cumple 10 años el 13 de agosto. Por Raphael Sanz. Desinformémonos (México), 05/08/2025.
- Chacina de Osasco e Barueri completa 10 anos. Por Raphael Sanz. Le Monde Diplomatique Brasil, 13/08/2025.
- Chacina de Osasco e Barueri, com 29 anos, completa 10 anos. Por Raphael Sanz. Portal Terra – Visão do Corre, 13/08/2025.
- O que foi a chacina de Osasco e Barueri. Por Paulo Batistella. Ponte.org, 12/08/2025.
- ‘Não pode esquecer, tem que incomodar’: mãe pede memória e justiça dez anos após chacina. Por Paulo Batistella. Ponte.org, 13/08/2025
- Coluna LASInTec | O que resiste à matança é a memória e a luta. Ponte.org, 15/08/2025.
- Dor, memória e busca por justiça: ato marca 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri. Por Catarina Duarte. Ponte.org, 16/08/2025
- Atlas da Violência 2024. IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.
- Violência no Brasil em 2015 matou mais que ataques terroristas no mundo em 2017. Por Vinícius Lisboa. Agência Brasil, 05/06/2017.
- Prefeitura e PM inauguram nova sede da 3ª companhia do 14º BPMM. Por Juliana Oliveira. Portal da Prefeitura de Osasco, 27/11/2023.
Agradecemos a colaboração da Jéssica Santos (diretora de projetos especiais e marketing da Ponte Jornalismo), da jornalista Gabriela Moncau, do jornalista Caio Castor, das mães entrevistadas – Zilda Maria de Paula, Antônia Lúcia Gomes da Silva, Rosa Francisca Corrêa e Aparecida Gomes da Silva Assunção – e dos pesquisadores do LASInTec-Unifesp entrevistados – Acácio Augusto, Joana Barros, Gabriella De Biaggi e Lúcia Soares.

A seguir confira os nomes e registros na imprensa das mães que discursaram no ato de 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri e que aparecem ao final do episódio 9 de O Luto e a Luta:
- ASSOCIAÇÃO 13 DE AGOSTO: MÃES DE OSASCO E BARUERI
Zilda, Antônia, Aparecida e Rosa, que você conheceu ao longo do podcast, além de Alessandra Damas – irmã de Thiago Marcos Damas, morto em 13 de agosto de 2015 quando retornava para casa.
- MOVIMENTO INDEPENDENTE MÃES DE MAIO: Crimes de Maio de 2006 e Operações Verão e Escudo de 2023/2024 (Baixada Santista/SP)
Débora Maria da Silva: fundadora e liderança do Movimento Independente Mães de Maio e mãe do Edson Rogério Silva dos Santos, assassinado durante os crimes de maio de 2006.
Maria Sonia Lins: mãe do Wagner Lins dos Santos, morto pelo Estado em 15 de maio de 2006
Ilza Soares: mãe do Thiago Roberto Soares, assassinado em 14 de maio de 2006
Regina Pereira: mãe do João Lucas de Pereira Muniz, morto durante a Operação Verão em 2023, na Baixada Santista
Cleimara Nascimento: Mãe do Filipe do Prado Nascimento, garçom executado durante a Operação Escudo, na Baixada Santista.
Gilmara Diniz: mãe do Kauê Henrique Diniz, morto aos 17 anos, assassinado pelo Estado de São Paulo, durante a Operação Escudo na Baixada Santista.
Matérias em que são citadas:
- RIO DE JANEIRO
Fatinha Silva (Mães da Rocinha): mãe do Hugo Leonardo do Santos e Silva, executado em 17 de abril de 2012.
Ana Paula de Oliveira Gomes (Mães de Manguinhos): mãe de Johnatha de Oliveira Lima, morto por um policial militar aos 19 anos de idade com um tiro nas costas, em Manguinhos, conjunto de favelas localizado na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, em 14 de maio de 2014
- SÃO PAULO
Sandra de Jesus: mãe de Luiz Fernando Alves de Jesus, morto aos 20 anos por PMs das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), força especial da Polícia Militar paulista, em janeiro de 2023.
Ficha técnica:
- O Luto e a Luta é apresentado por Raphael Sanz e Gil Luiz Mendes.
- O podcast é fruto de parceria entre a Central 3, a Ponte Jornalismo, o LASInTec-Unifesp e a Associação 13 de Agosto (de mães e familiares de vítimas da chacina de Osasco e Barueri).
- O roteiro é de Raphael Sanz.
- A identidade visual é de Lucas Richardson e Carlos Ghiraldelli da Seppia Conteúdo.
- Domenica Mendes fez a revisão dos roteiros e episódios.
- A edição é de Gil Luiz Mendes.
Gil Luiz Mendes é jornalista, repórter na Ponte Jornalismo e apresentador na rádio Central 3. Raphael Sanz é jornalista, pesquisador ligado ao LASInTec-Unifesp e acompanha movimentos sociais há 20 anos.

