Share This Article
Sessão reuniu entidades, advogados e pesquisadores e aprovou moções pela libertação da liderança comunitária Alessandra Moja e outros presos
A imagem de Alessandra Moja com uma espátula na mão esquerda, enquanto empilha tijolos e os assenta com cimento, emergiu em um grande telão no segundo andar da sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no centro de São Paulo. No vídeo, ela sorri, descontraída, em seu território: a Favela do Moinho. Quatro crianças a observam trabalhar.
No trecho seguinte, datado de 2013, Alê, como é conhecida, aparece de camiseta branca empunhando um megafone. O semblante é outro: de quem assume a liderança na luta por moradia. “Eles ‘faz’ bonito para rico aplaudir e os ‘pobre’ que se foda. Só que o pobre tá aqui pra cobrar deles”, diz aos manifestantes.
Leia também: Tudo o que você precisa saber sobre a remoção da favela do Moinho
O documentário que reúne essas imagens foi exibido durante uma audiência pública, nesta quinta-feira (5/3), que discutiu a criminalização da Favela do Moinho. A sessão aprovou, por aclamação, duas moções pedindo a liberdade de Alessandra e de outros moradores da comunidade presos desde setembro de 2025.
Durante o encontro, uma carta enviada por Alessandra após o cárcere também foi lida aos presentes. No texto, a liderança relata agressões, ameaças e outras violações cometidas por policiais durante sua prisão.
A trilha do documentário inclui a música “Zé do Caroço”, de Leci Brandão, na voz de Seu Jorge. No trecho que diz “e na hora que a televisão brasileira destrói toda a gente com sua novela”, Alessandra aparece sendo criminalizada e exposta em rede nacional por nove emissoras durante sua prisão, em 8 de setembro de 2025.
Naquele dia, uma operação deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP), com apoio das polícias Civil e Militar, cumpriu mandados de prisão e de busca e apreensão na favela e prendeu pelo menos sete pessoas, entre elas Alessandra e a filha, Yasmin.
Quase cinco meses depois, o documentário produzido pelo jornalista Caio Castor foi exibido na presença de moradores, lideranças comunitárias, movimentos sociais, associações de direitos humanos, advogados e políticos. A audiência marcou o lançamento de uma campanha que pede a liberdade de Alê — atualmente assistida por advogados do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD) — e dos demais presos.
Manifestação da vontade popular
A audiência foi presidida por Camila Torres, vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP, e reuniu diversas entidades, além de moradores da Favela do Moinho, advogados, pesquisadores e representantes de movimentos sociais.
Segundo ela, embora a moção aprovada não tenha efeito jurídico direto — como um habeas corpus ou decisão judicial — ela expressa a posição da sociedade civil presente e passa a integrar o relatório da audiência pública.
Leia também: Justiça barra famílias do Moinho de audiência, e governos já ameaçam reintegração de posse
Para Camila, o caso da Favela do Moinho — uma das últimas comunidades do centro de São Paulo — revela um cenário de vulnerabilidade agravado por práticas sistemáticas de criminalização do território. “Estamos diante da confluência entre o uso político do sistema de justiça e políticas de higienização urbana que acabam criminalizando movimentos sociais”, afirmou.
Ela aponta ainda a confluência de dois fenômenos: o lawfare, uso político do sistema jurídico como instrumento de perseguição, e políticas de higienização urbana que, na prática, criminalizam movimentos sociais legítimos.

“Liberem todos os nossos presos políticos”
Ao pesquisar a expressão “preso político”, não há uma definição única ou oficial, mas o termo costuma ser atribuído a pessoas detidas não por crimes comuns, e sim por ideias, opiniões ou atividades que desafiam o governo ou o sistema político vigente. Alexsandra Aparecida, representante da Associação de Moradores do Moinho, acredita que Alê se enquadra nessa categoria. Para ela, a prisão é uma tentativa de represália.
Alexsandra afirma que a presença policial na favela é constante, dia e noite. “A gente está vivendo numa prisão domiciliar, porque agora os vizinhos não podem mais ficar na porta de casa para conversar.”
Leia também: Primeira família a deixar Moinho atribui saída a proteção da filha contra PM: ‘Jogam gás, não dá para respirar
Segundo ela, os policiais chegam à comunidade como se estivessem em operação, embora, afirma, a única arma existente no local seja a deles. “Eles prendem, eles torturam, eles matam — e tudo bem. Tudo está indo impune”, disse durante a audiência.
Para a representante da associação, os movimentos políticos que culminaram na prisão de moradores foram articulados para pressionar a comunidade. “A gente sofre pressão da CDHU, da Polícia Militar, da GCM. É o tempo todo. A gente não tem mais paz lá dentro.”
Ela afirma ainda que, logo depois que as mulheres foram levadas presas, as máquinas começaram a trabalhar na área. Ao final da fala, fez um apelo: “Liberem todos os nossos presos políticos.”

“Reintegração de posse, desocupação forçada: o que é?”
Caio Castor conta acompanhar a trajetória de Alessandra há quase 15 anos. Para ele, a coerência da líder comunitária extrapola o documentário e se manifesta ao longo de sua atuação no território. A Associação de Moradores da Favela do Moinho — que obteve conquistas para a população, como a gratuidade de moradia — foi fundada por Alê e outros moradores entre 2005 e 2006.
Uma das acusações contra Alessandra, afirma o jornalista, é a de que ela liderava não uma associação de moradores, mas uma organização financiada pelo tráfico para atrapalhar ações do poder público dentro da favela — algo que ele considera absurdo.
“Ela nunca fez curva nenhuma na palavra, nem nas ações desde 2010, sempre defendendo interesses coletivos. Então não tem nem como dizer que ela defende tráfico ou qualquer outra coisa assim.”
Leia também: ‘Tem cadastro na CDHU?’: PM-SP faz abordagens a moradores na entrada da favela do Moinho
Castor também questiona a natureza do processo em curso no Moinho. “Ninguém sabe dizer exatamente o que está acontecendo: é uma reintegração de posse, é uma desocupação forçada, o que é?”, provoca. Em seguida, ele chama à tribuna Paulo Rogério Dias, conhecido como Pai da Carroça.
Preso no mesmo dia que Alessandra, em 8 de setembro, Paulo afirma que trabalhava havia 22 anos com uma carroça e nunca teve envolvimento com crimes. “Trabalhei 22 anos com uma carroça, nunca me envolvi com nada, nunca mexi com droga.”
Ele relata que policiais chegaram enquanto dormia, colocaram “um fuzil” em sua boca e o agrediram dentro de casa. Paulo tem problemas na coluna, glaucoma, miopia, artrose e pressão alta e permaneceu preso por 16 dias.
Hoje em liberdade provisória, ele diz ter sido obrigado a deixar o Moinho. “Acabaram com a minha vida. Eu só quero provar minha inocência — e a dos demais que estão presos lá, que também são inocentes”, afirma, entre lágrimas.

Um campo de guerra
Isadora Guerreiro, docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o urbanismo em curso na região não diz respeito apenas ao que será construído no local.
“O urbanismo que está sendo implantado ali não é sobre o que vão construir, mas sobre tirar as pessoas de um determinado território — o centro da maior cidade do país, o centro do poder”, diz.
Pelo Observatório de Renovação Urbana, Guerreiro acompanha os processos de remoção no centro de São Paulo, que descreve como “um campo de guerra”. Para ela, o negócio em si importa menos do que o objetivo real: a limpeza do território. “É um projeto racista que tira a população negra do centro. O que é isso, se não fascismo?”, questiona.
Leia também: EXCLUSIVO: Morador morto no Moinho não usou arma e PM atirador alega que estava com câmera descarregada
Isadora afirma ainda que as violências no Moinho ocorreram em meio a um processo de dessensibilização social. Segundo ela, a sociedade assistiu, semana após semana, a mortes, prisões e torturas sem reagir. “A sociedade foi assistindo a tudo isso e o que fez? Nada.”
Para a pesquisadora, a disputa em torno do Moinho revela como projetos de reestruturação urbana podem avançar acompanhados de processos de criminalização de territórios e de suas lideranças.
Moinho passa por violento processo de reassentamento
A favela do Moinho passa por um processo de reassentamento iniciado pela CDHU em setembro de 2024. Os moradores começaram a sair em abril de 2025, pressionados pela violência policial no local. Naquele mesmo mês, tiveram início os protestos contra a remoção sem uma reparação.
As manifestações de maior projeção ocorreram em maio, ocasião que a Polícia Militar montou um cerco à comunidade para apoiar a CDHU em demolições de casas.
O Censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou que 1.827 pessoas viviam na favela do Moinho naquela altura. A CDHU afirma ter identificado 931 moradias no local no ano passado e ter tido a adesão de 880 famílias ao plano de reassentamento delas.
Inicialmente, o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) propunha que as famílias comprassem imóveis financiados por meio de modalidades habitacionais operadas pela CDHU. Aos moradores que não se mudassem imediatamente para um imóvel permanente, a gestão Tarcísio também oferecia um auxílio-aluguel de R$ 800 mensais e um auxílio-mudança de R$ 2,4 mil pagos em parcela única.
Moradores, no entanto, questionavam não ter condições de assumir financiamentos. Em maio, após protestos, o governo Lula (PT) e o governo de São Paulo anunciaram um acordo: cada família passaria a ter direito a um imóvel gratuito de até R$ 250 mil. Desse valor, R$ 180 mil seriam pagos pelo programa federal Minha Casa, Minha Vida, e o restante pelo programa estadual Casa Paulista. O auxílio-aluguel também foi reajustado para R$ 1,2 mil mensais.
Localizada na região dos Campos Elísios, a favela do Moinho se estende entre trilhos da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), sob o Viaduto Engenheiro Orlando Murgel e na divisa com o bairro do Bom Retiro.
A remoção dos moradores ocorre no contexto do projeto de revitalização do centro defendido pelo governador Tarcísio de Freitas. A comunidade fica a menos de um quilômetro da Praça Princesa Isabel, onde o governo estadual pretende instalar parte da sede administrativa.
Assine a Newsletter da Ponte! É de graça
O governo estadual também atribui o reassentamento ao combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa que, segundo a gestão, teria influência na região conhecida como Cracolândia. A administração afirma ainda que os moradores vivem em áreas de risco e em condições consideradas insalubres.
Moradores da comunidade, no entanto, contestam essa justificativa e afirmam que a remoção ocorre sob pressão e sem garantias adequadas de reassentamento. Pesquisadores e entidades de direitos humanos também apontam que o processo tem sido marcado por episódios de violência policial e pela criminalização do território.



