Share This Article
A busca por pessoas desaparecidas no Brasil expõe o abandono estatal e a luta solitária de mães que tentam encontrar seus filhos
Casos de desaparecimentos devem ser registrados imediatamente — não é necessário esperar 24 horas. Em Minas Gerais, informações podem ser comunicadas pelo telefone 0800-2828-197 ou pelo site da Polícia Civil: https://desaparecidos.policiacivil.mg.gov.br/.
O que é mais importante de ser encontrado: um celular ou uma pessoa? Ao ler a reportagem “‘Se eu não tentar, quem vai?’: mães desafiam descaso estatal na busca por desaparecidos em MG”, do meu colega Paulo Batistella, ficou claro para mim que vidas, sobretudo pretas e/ou pobres, não são prioridades do Estado. Vemos a comemoração por parte de administradores públicos em queda de índices de furtos – que não são, em hipótese nenhuma, crimes contra a vida –, mas um silêncio absurdo quando o assunto é desaparecimentos – forçados ou não.
Algumas vezes, chegam até nós notícias de desaparecimentos por meio da imprensa, sobretudo de crianças. Há um breve tempo de holofote, algum sensacionalismo, teorias absurdas e tão logo como sumiu o caso é esquecido. Por nós, pela imprensa, e até pelo Estado.
Leia também: Artigo | Desaparecimentos forçados e a ditatura que nunca terminou nas periferias
Há algo de muito errado quando mães precisam atuar como investigadoras do desaparecimento de seus filhos – como Antônia, Carla, Terezinha e Angela – porque o sistema de segurança pública e o de Justiça não cumprem seu papel. Como o Paulo destacou em seu texto: “É dever das polícias, ainda assim, investigar cada desaparecimento, mesmo que não na forma de um inquérito, conforme estabelece a Lei Federal 13.812, de 16 de março de 2019”.
Desaparecimentos não são prioridade
Ao invés de cumprir a lei, os representantes do Estado preferem desacreditar a família ou o desaparecido. Antônia, mãe de Osmar Fernandes Pereira de Azevedo, desaparecido desde 2019, afirma que uma delegada lhe disse que se um cão encontrasse os ossos de seu filho, ela os entregaria. Ao pedir buscas para encontrar o filho, Terezinha, mãe de Kaique dos Santos Silva, desaparecido há três anos, ouviu que “estava assistindo muita novela”.
Pessoas com antecedentes criminais ou egressos do cárcere são apontadas como fugitivas, sem que se reconheça multiplicidade de coisas que poderiam acontecer com esse indivíduo. Para que inimigo quando o Estado age assim, não é mesmo?
Leia também: Com quase metade da população da capital, Baixada Fluminense tem mais denúncias de desaparecimentos forçados
A questão se agrava quando membros do Ministério Público de diferentes estados apontam que não existe no país sequer um procedimento padrão para orientar essas buscas e que apenas 12 das 27 unidades federativas aderiram ao Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas que uniria informações de diferentes bancos de dados aumentando as chances de encontrar pistas sobre o paradeiro.
As mulheres com quem conversamos para a reportagem dos desaparecidos em Minas Gerais, em sua maioria, tem origem humilde, não tem recursos para financiar um detetive particular e a história de seus filhos não é noticiável pela mídia – salvo nosso caso, é claro. Elas estão incrédulas com o Estado cuja subsistência financeira elas ajudam a manter com seu trabalho.
Leia também: Brasil precisa criminalizar desaparecimentos forçados, recomenda ONU
Quem vai acolher essas mulheres? Quem vai ouvi-las? Quem cuidará delas? Quem buscará pelos seus meninos? Quem vai se importar com essas vidas que não têm sobrenome importante e nem milhões na conta?
Este texto chegou primeiro para quem é inscrito na newsletter da Ponte. Todo sábado, a newsletter reúne análises, dicas culturais e conteúdos do nosso arquivo. Você pode assinar clicando aqui. E, se você quiser contribuir ainda mais com o jornalismo da Ponte, pode fazer parte do Tamo Junto, o nosso programa de membresia.



