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Por Jessica Santos
O lançamento do Centro de Memória das Vítimas de Violência do Estado, em Santos, reforça a luta das Mães de Maio para registrar aquilo que o poder público tenta esquecer
O lançamento do CMVV (Centro de Memória das Vítimas de Violência do Estado) em Santos (SP), fruto do trabalho incansável das Mães de Maio com apoio de outras organizações e do governo federal, materializa algo que nem sempre é devidamente valorizado no Brasil, sobretudo para corpos pretos e/ou pobres. Para o senso comum, a memória de quem é morto pelo Estado é a de que a vítima é responsável por sua morte. A eterna presunção de culpa alimentada pela extrema-direita e pelo jornalismo sensacionalista e punitivista.
Já para o Estado, esses corpos são números, meras estatísticas divulgadas todos os meses de forma fria, efeito colateral do trabalho de segurança pública da mesma forma que bombardear uma escola com mais de 100 meninas é efeito colateral dos ataques estadunidenses ao Irã. O próprio secretário de Segurança Pública de São Paulo, Osvaldo Nico, atribuiu o aumento da letalidade em janeiro deste ano – o mais letal em seis anos – a “mais trabalho, mais policial na rua, mais operações” realizadas pelas forças de segurança, o que, segundo ele, acaba gerando “mais confronto e aumenta tudo [nas estatísticas]”.
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Tanto nos bombardeios estadunidenses e israelenses ao Irã quanto na gestão da segurança pública em São Paulo, letalidade parece significar trabalho “bem feito”. Resolve os crimes ou conflitos? Não, mas olha só esses números! É bom para o marketing, para a virilidade dessas instituições e para arrebanhar em tempos eleitorais, quem acredita na imbecilidade do bandido bom é bandido morto.
Memória contra o apagamento
Quando o Estado mata um corpo, é o filho, o irmão, o marido de alguém que vai embora. Muitas vezes, a sensação de injustiça e a dor indizível fazem nascer uma mãe de luta. E aqui digo mãe, sujeito feminino, porque, em meus quase seis anos de Ponte, elas são a esmagadora maioria na linha de frente por justiça, por memória e reparação, as três palavras, inclusive, são também femininas.
Quando ouço uma entrevista ou fala pública dessas mulheres, sempre me admira que sua luta não se resume ao caso pessoal de cada uma. Mais de uma vez as ouvi dizendo que estavam lutavam por todos filhos do Brasil, esta pátria-mãe nada gentil. Elas lutam para que sejam as últimas mães de vítimas do Estado, são as descendentes de toda mulher que buscou justiça pelos seus ao longo da história da humanidade. Seu legado não é pessoal, é coletivo. Por isso passam 5, 10, 20 anos e elas seguem, e o fazem juntas.
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Quando se diz que esta é uma luta por reparação, não é por uma compensação financeira. Você acha que algum dinheiro no mundo paga a vida de um filho? Reparar é acolher famílias enlutadas, prestar apoio jurídico, emocional e psicológico, escutar, investigar, protestar, cuidar. É se manter em estado de rebeldia teimosa e não desistir até o Estado reconhecer e se responsabilizar por sua violência, que a injustiça seja registrada na memória do país. É construir legado que deveria ser trabalho do Estado.
Não há glória pessoal ou trajetória heroica romântica. A luta e o luto podem cansar, podem adoecer mente e corpo. Algumas padeceram no caminho, mas todas seguem com a teimosia de quem passa a vida lutando para colocar comida na mesa, para dar educação aos filhos, para sobreviver à máquina de moer gente e ao patriarcado.
Em cada história que a Ponte publica, contribuímos não apenas para visibilizar uma injustiça. Certa vez, ouvi de Geneton Moraes Neto, um grande repórter, que “fazer jornalismo é produzir memória”. Ao lado dessas mulheres, cuja coragem incansável nos inspira, estamos há 12 anos dizendo os nomes das vítimas, registrando suas histórias e denunciando a injustiça perpetrada.
A Ponte Jornalismo é parte dessa engrenagem de memória do que o Estado busca enterrar. Como afirmou a ministra dos Direitos Humanos Macaé Evaristo no lançamento do CMVV: “A memória ajuda a impedir que práticas autoritárias se repitam, reforçando a necessidade de transparência e respeito à democracia”.
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Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo

