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HRW — Human Rights Watch | Observatório Internacional de Direitos Humanos

Um tribunal belgadecisão em 17 de março abriu caminho para que o último ex-funcionário belga sobrevivente, Étienne Davignon, enfrentasse um julgamento criminal porsuposto envolvimento no assassinato de Patrice Émery Lumumbao primeiro primeiro-ministro democraticamente eleito da República Democrática do Congo e dois outros altos funcionários. Os assassinatos ocorreram em 1961, após a independência do país do domínio colonial belga.
O julgamento está previsto para começar em 2027.
A decisão do tribunal belga de ordenar que Davignon seja julgado cria uma oportunidade histórica para a justiça por alegados crimes de guerra cometidos por funcionários belgas durante a descolonização. A decisão afirma implicitamente que os crimes internacionais graves não estão sujeitos a limitações legais ao abrigo do direito internacional e que a passagem do tempo não deve proteger os antigos actores coloniais da responsabilidade legal.
Em umcoletiva de imprensa virtual após a decisão do tribunal, a família de Lumumba sublinhou que, embora a justiça tenha demorado, não é tarde demais para estabelecer a verdade. Em uma declaração elesdisse: “O que muda hoje é que o sistema jurídico da Bélgica começa, finalmente, a confrontar as suas próprias responsabilidades por actos cometidos em nome do domínio colonial. Para a nossa família, este não é o fim de uma longa luta, é o início de um acerto de contas que a história há muito exige.”
Este passo no sentido da responsabilização levanta questões importantes sobre o direito das vítimas a um recurso eficaz e a reparações ao abrigo do direito internacional, incluindo restituição, compensação, reabilitação, satisfação e garantias de não repetição.
Em janeiro de 2026, o tribunalouviu argumentos da defesa e da equipe jurídica de apoio à família de Lumumba que abriu um processo criminal em 2011 contra onze cidadãos belgas, dez dos quais já morreram. O caso alega três acusações de crimes de guerra: a transferência ilegal de Lumumba e seus associados, o “tratamento humilhante e degradante” dos homens e a privação de um julgamento justo. Tais processos contribuem para a “satisfação” como forma de reparação.
O significado potencial desta decisão vai muito além deste caso. Lumumbarestos uma figura icónica da independência africana e dos movimentos descoloniais globais. A perseverança da sua família sublinha o direito duradouro de procurar justiça reparadora e pode inspirar esforços semelhantes noutros contextos coloniais.
Os governos devem tomar nota da decisão do tribunal e tomar medidas significativas para abordar os danos duradouros, as perdas e o trauma intergeracional das injustiças coloniais, nomeadamente através de reparações que incorporem a restituição da dignidade, desculpas oficiais e memorialização.
📌 Fonte original: Vigilância dos Direitos Humanos (HRW)
Este conteúdo foi produzido e publicado originalmente pela Vigilância dos Direitos Humanos (HRW) — organização internacional de defesa dos direitos humanos, sem fins lucrativos, com sede em Nova York (EUA). Todo o conteúdo é de propriedade da HRW e reproduzido aqui com fins jornalísticos e informativos. Para acessar o material original em inglês, acesse www.hrw.org.


