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Balkan Insight — Jornalismo Investigativo sobre os Bálcãs e Leste Europeu

Por:
Havdic Cof nasceu em Tuzla, no nordeste da Bósnia, em 1969. A sua infância foi normal, marcada pelos ritmos da escola e da vida familiar. Ela completou o ensino fundamental e médio e passou a estudar engenharia de minas.
Sua trajetória era familiar, quase previsível: terminar o diploma, iniciar uma carreira e talvez explorar o mundo além da Bósnia. Mas tudo mudou em Abril de 1992, quando eclodiu a guerra no seu país natal, que duraria até Novembro de 1995.
“Eu tinha acabado de começar a trabalhar na minha tese de diploma quando a guerra literalmente começou”, lembra ela. “Foi assim. Estudei engenharia de minas e até consegui meu primeiro emprego no Instituto de Mineração de Tuzla. Mas a guerra já havia começado e passei os primeiros dois meses lá, na zona de guerra.”
A guerra intensificou um desejo que ela nutria mesmo antes do início dos combates: deixar a Bósnia e experimentar a vida no estrangeiro. Protegida pelos pais e crescendo num ambiente estável com a irmã, Emira nunca enfrentou um mundo de incertezas diárias. O conflito, no entanto, forçou uma escolha – ficar e aguentar, ou partir e salvar-se.
Por acaso, ela chegou à Suécia. Através de uma ligação familiar distante, amigos dos seus pais que viviam na Suécia desde a década de 1970, ela conseguiu a documentação necessária para se mudar.
“Na época, pensei que seria a última pessoa a ser afetada pela nostalgia, principalmente depois de tudo o que aconteceu. Mas a separação da minha família e da Bósnia foi extremamente difícil para mim. Desenvolvi uma forte nostalgia, apesar da guerra”, diz ela.
Nos primeiros meses num campo de refugiados sueco, ela considerou regressar à Bósnia, mesmo durante a guerra. “Senti que algo estava errado, que isso não estava certo”, diz ela.
Foi só quando o governo sueco concedeu autorizações de residência permanente aos bósnios que ela pôde começar a construir uma vida para além dos limites da incerteza. Os cursos de línguas, a validação de diplomas e a entrada no mercado de trabalho marcaram o início de uma lenta normalização.
No campo, ela conheceu o marido, Davor Cof, um homem de Banja Luka que serviu no Exército Popular Iugoslavo. Estacionado em Pristina, no Kosovo, ele testemunhou em primeira mão os horrores do campo de batalha. Após o serviço, seus pais o alertaram: “Não volte aqui. Corra para onde puder, mas não volte”. Ele também encontrou refúgio na Suécia.
Juntos, iniciaram o delicado trabalho de reconstrução. A mãe de Emira adoeceu com câncer durante a guerra e precisou de tratamento no exterior. A família de Davor também acabou deixando Banja Luka, com a ajuda da Cruz Vermelha. A vida estabilizou-se lentamente: foram encontrados empregos, nasceram crianças e a ideia de regressar à Bósnia tornou-se uma esperança distante e não um plano.
Durante tudo isto, Havdic Cof fez uma reflexão tranquila, mas persistente, sobre o que tinha sido perdido na Bósnia. “Desde o primeiro dia, fui assombrada por um pensamento: que tipo de país já tivemos”, diz ela.
“Tínhamos tudo, as coisas funcionavam de forma positiva. É claro que nem tudo era perfeito, mas era uma base fantástica sobre a qual algo ainda melhor poderia ter sido construído, em vez da destruição através da guerra. Na Suécia, sempre pensei quão pouco teria sido necessário para que tivéssemos o mesmo. Apenas um pouco de sabedoria humana e energia positiva.”
Aprendendo o ‘efeito pingue-pongue’
📌 Fonte original: Visão dos Balcãs
Este conteúdo foi produzido e publicado originalmente pelo Visão dos Balcãs — veículo de jornalismo investigativo especializado em reportagens sobre os Bálcãs e o Leste Europeu, integrante da Rede de Jornalismo de Crime Organizado e Corrupção (OCCRP). Todo o conteúdo é propriedade da Balkan Insight e reproduzido aqui com fins jornalísticos e informativos. Para acessar o material original em inglês, acesse balkaninsight. com.


