Share This Article
Por Mariana Rosetti
Péricles Monteiro Melo, 23, foi morto a tiros enquanto andava de moto na zona oeste de São Paulo; testemunha diz ter sido ameaçada e família relata agressões e falhas na ocorrência

A morte do entregador por aplicativo Péricles Monteiro Melo, de 23 anos, revolta a família. Pequinha, como era chamado, morava com os pais, Izildinha, 50, e Israel, 44, e complementava a renda trabalhando em uma pizzaria. Tinha paixão por motocicletas e era conhecido no Conjunto Promorar Raposo Tavares, na zona oeste de São Paulo, por dar “grau” — quando a moto é elevada pela roda traseira em movimento. O reconhecimento se estendia ao Instagram, onde publicava vídeos e fotos da prática.
Foi também sobre uma motocicleta que a vida de Péricles terminou. O jovem negro, que estava desarmado, foi morto a tiros por um guarda municipal no início de março, enquanto dava “grau” ao lado de um amigo pelas ruas do bairro onde vivia. Para a família, trata-se de uma execução.
Leia também: Testemunha diz que PMs a pressionaram a mentir em caso de pichador morto em Sorocaba
Segundo o boletim de ocorrência, Péricles foi alvo de disparos do guarda municipal Alessandro Francisco da Silva. O documento afirma que os tiros foram feitos após o entregador supostamente ter atropelado outro agente, depois de desobedecer a uma ordem de parada.
O garupa contou à família que, após os disparos, foi colocado em uma viatura da GCM, onde teria sido ameaçado. Caso falasse algo, seria o próximo, teriam dito os guardas. Ele também relatou que foi obrigado a assinar um documento afirmando estar sob efeito de álcool e drogas.
A versão da testemunha não consta no boletim de ocorrência que registrou a morte de Péricles. O documento reúne apenas o relato dos policiais civis do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que estiveram no local e ouviram os guardas municipais. Um inquérito foi instaurado para apurar o caso.

Vídeo registrou parte da ação
Naquele domingo, 8 de março, familiares comemoravam com pizzas o aniversário de uma das irmãs de Péricles, quando a celebração foi interrompida pelos amigos do entregador. “Chegaram desesperados, pedindo para a gente ir até o local onde tudo teria acontecido”. O jovem havia saído com um amigo para ir a uma adega e seguiria para um samba em um bairro vizinho.
Imagens de um circuito de segurança obtidas pela Ponte registram parte da ação que terminou na morte do entregador. Às 22h16min24s, a moto vermelha — uma Honda CG 160 Fan — conduzida por Péricles aparece no registro.
Seis segundos depois, é possível ouvir o acelerador em alta rotação. Onze segundos mais tarde, três estampidos, semelhantes a tiros. Depois de sete segundos, mais dois. Em poucos metros de linha reta, Péricles já estava no chão. Ao todo, o vídeo registra cinco disparos — número diferente do apontado no boletim de ocorrência, que menciona quatro. No mapa a seguir, é possível visualizar o percurso. Os pontos em azul indicam onde o vídeo foi registrado e onde o entregador foi baleado.
Segundo o boletim de ocorrência, os GCMs estavam estacionados em frente à Escola Municipal de Ensino Fundamental Maria Alice Borges Chion quando a moto, com a placa tampada, passou em alta velocidade, dando “grau”. Eles afirmaram ter dado ordem de parada, que não teria sido obedecida.
Neste momento, ainda segundo os agentes, Péricles teria projetado a moto em direção a um guarda, que teria sido arrastado por cerca de dez metros. Para “cessar a agressão”, o guarda Alessandro Francisco da Silva efetuou quatro disparos.
Ainda de acordo com o boletim, Péricles apresentava quatro lesões compatíveis com disparos de arma de fogo: duas no lado direito das costas, uma na axila e outra no joelho direito. O documento também menciona a presença de tatuagens no corpo, sem indicar qualquer relação com a ocorrência.
Péricles não tinha antecedentes criminais, segundo a família. O caso foi registrado como homicídio decorrente de oposição à intervenção policial, além de resistência e lesão corporal.
Família foi impedida de se aproximar do entregador
Quando Natália Monteiro Melo, 33, irmã de Péricles, chegou ao local, viu viaturas da GCM bloqueando a passagem, além de uma fita que restringia o acesso. Era por volta das 22h30 e, mesmo com as sirenes — que chegaram em peso e reforçaram a iluminação —, não conseguia enxergar o irmão com clareza.
A irmã pediu a um guarda para se aproximar, mas foi impedida. Segundo ela, a GCM solicitou um documento que comprovasse o parentesco com alguém envolvido na ocorrência — sem informar do que se tratava nem o estado de saúde das pessoas, embora admitisse saber suas identidades.
Natália procurou o RG na bolsa e não encontrou. Tentou ligar para a irmã e para a avó, mas ninguém atendia. “Peguei uma foto do meu irmão no celular e mostrei. Falei: ‘Você consegue só confirmar se é ele, por favor? Eu te imploro. Sou a irmã dele, estou desesperada’”, relata. Segundo ela, a resposta foi o silêncio.
Leia também: O guarda virou caveira: como a GCM se militarizou para exercer papel de polícia
Quando Izildinha e outra irmã de Péricles chegaram ao endereço, diante da falta de informações, tentaram ultrapassar o isolamento para se aproximar dele. Natália tentou avisar as familiares de que era proibido ultrapassar, mas “eles vieram para cima, me empurraram e jogaram spray de pimenta na minha cara”, afirma.
Um vídeo, gravado por uma testemunha e obtido pela reportagem, registra o momento. Um GCM empurra Natália e, na sequência, aplica spray de pimenta em seu rosto. A mãe e três irmãos de Péricles também aparecem no vídeo.
Mais de uma hora depois, Natália reconheceu o irmão do pior jeito possível: quando o jovem era colocado em uma ambulância, envolto em uma manta térmica. Pequinha foi levado à UPA do Rio Pequeno, mas já chegou morto.
Péricles foi o único baleado na ocorrência, mas só foi socorrido pela segunda ambulância que chegou ao local, segundo a família. À Ponte, eles relataram que os veículos chegaram com um intervalo de cerca de meia hora entre si.
Israel, pai de Péricles, também foi ao local onde o jovem foi baleado. Ele ficou do lado esquerdo da calçada, de onde conseguia ver apenas os pés de uma pessoa — que depois soube serem do filho. Segundo ele, em nenhum momento o corpo se mexeu; apenas foi arrastado pelos socorristas.
“Por que não chamou a perícia no local, já que meu filho já estava morto ali? Por que levou na ambulância? E, se ele não estava morto, por que não deixou a gente chegar perto?”, questiona Israel.
Pertences de entregador foram encontrados em lixeira
Há ainda outro ponto denunciado pela família. Ao reconhecer o corpo no hospital, Natália afirma que o irmão estava sem a parte de cima da roupa. “Aí, no dia seguinte, a gente teve a ideia de ir lá no local onde aconteceu tudo para ver se a gente achava, né? Se tinha alguma resposta”.
Leia também: Guardas municipais mataram estas pessoas em SP: foram 197 vítimas em sete anos
E encontrou. Segundo fotos encaminhadas à Ponte, as roupas de Péricles estavam descartadas em uma lixeira pública, junto a luvas cirúrgicas azuis, semelhantes às utilizadas por socorristas.


Uma imagem registrada durante a ocorrência mostra a mesma lixeira, com um saco plástico amarelo — cor que se repete nos registros feitos pela família no dia seguinte. Em casa, os parentes gravaram um vídeo manuseando as roupas. A gravação mostra as peças perfuradas nas costas e ensanguentadas.
Para a família, os ferimentos na região das costas são fundamentais para sustentar a denúncia de execução: primeiro, Péricles cai da moto e, desarmado, é baleado nas costas. Se os tiros tivessem sido disparados com ele ainda na moto, o garupa também teria sido atingido, defendem.
A irmã também afirma que o celular e o capacete de Péricles não foram localizados. Os itens não constam na lista de objetos apreendidos no boletim de ocorrência.
Família relata intimidação após morte

Desde a morte de Péricles, segundo Natália, o bairro mudou. Guardas fazem rondas constantes, abordam moradores e usam infrações de trânsito como pretexto para abordar quem passa.
Quando a família tentou organizar uma manifestação pacífica em frente à sede da GCM, no fim de semana seguinte à morte, todos os acessos foram bloqueados com viaturas e motos — do quilômetro 19 da Raposo Tavares até o Parque da Previdência, denunciam. “Nunca vi uma operação tão grande mover tantos policiais. Eles querem nos intimidar, eles querem nos calar”, desabafa.
O perfil @policiamunicipal.gcm no Instagram, que publica conteúdos de apoio a ações policiais, reproduziu um banner que anunciava a manifestação contra a morte de Péricles, com a legenda “também estaremos lá, com certeza”. Os organizadores escreveram: “Será que se o policial viesse a óbito teria manifestação?”, concluindo: “valores invertidos”.
Nos comentários, perfis hostilizam o ato: “Que a borracha cante solta em cima dos caras pelos irmãos de farda que foram agredidos na ocorrência”, diz uma usuária. Outro perfil comenta: “Que os policiais tragam suas tonfas, seus sprays, suas munições não letais e suas vontades de descer a borracha”.
Em nota, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU), responsável pela GCM, disse não possuir relação institucional com o perfil.
“Dói o coração”

Além da família, Péricles deixou Nala. A pitbull foi adotada pelo entregador anos antes, quando o antigo tutor, uma pessoa em situação de rua, o abordou pedindo dinheiro. Ele entregou algumas notas e se apaixonou pela cachorra. Naquele dia, os dois se tornaram inseparáveis.
A família reconhece que dar “grau” é uma infração de trânsito. Segundo o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), a prática configura infração gravíssima, sujeita a multa, suspensão da carteira de motorista e retenção do veículo.
“Ainda que ele estivesse fazendo algo errado, ele teria o direito de ser abordado, de ser levado a uma delegacia. Eu fico imaginando inúmeras possibilidades para que as coisas tivessem acontecido de forma diferente”, diz Natália.
Para o pai, ver o filho sendo taxado como bandido “dói o coração”, já que Péricles não tinha antecedentes. “Meu filho, você vê, meu filho ele tem 23 anos e vai fazer agora, dia 28 de março, 24 anos”. Antes de continuar, é corrigido pela enteada: “Faria, né?”. Com a voz embargada, admite: “faria”.
Já Izildinha confessa que assistia matérias de jovens mortos pela polícia, se compadecia com a dor das mães, mas nunca pensou que seria seu destino. “Fica muito claro também a questão dele ser negro, né? Graças a Deus que não aconteceu nada com o garupa, mas ele era louro e branco. Por que só com negro que aconteceu?”.
“A vida dele foi arrancada de nós”, diz Natália. “Não foi um acidente. Isso foi proposital. Ele não sabe a vida que tirou, não sabe a dor que causou. A gente vai fazer de tudo para honrar a memória dele.”
Ao se posicionarem para a foto que ilustra a reportagem, Natália chamou Nala. A cadela sentou nos pés dos familiares, se ajeitou e olhou para a câmera, como se compartilhasse com os afetos do tutor a dor de perder brutalmente alguém que se ama.

O que diz as autoridades
A Ponte enviou questionamentos à Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU), responsável pela GCM sobre o afastamento dos agentes envolvidos, a abertura de investigação interna, a divergência no número de disparos, o uso de spray de pimenta contra os familiares, a omissão de socorro, o destino dos pertences de Péricles e a relação institucional com o perfil @policiamunicipal.gcm.
Em nota, a pasta informou que “os fatos relacionados à ocorrência estão sendo rigorosamente apurados. Os agentes envolvidos foram afastados das funções operacionais e passaram a exercer atividades administrativas”. Além disso, que a “Corregedoria Geral da Guarda Civil Metropolitana (GCM) também instaurou procedimento interno e acompanha o caso paralelamente ao inquérito conduzido pela Polícia Civil. Todos os elementos da ocorrência estão sendo analisados nas investigações”.
Além disso, acrescentou que “eventuais desvios de conduta são apurados pela Corregedoria da corporação” e que “a SMSU e GCM não possui qualquer relação institucional com o perfil mencionado em rede social”.
À Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP), foram enviadas perguntas sobre o procedimento adotado na elaboração do boletim de ocorrência, o andamento do inquérito, a divergência no número de disparos, a compatibilidade das lesões com a versão policial, a ordem de chegada das ambulâncias e o destino dos pertences de Péricles.
O órgão se limitou a dizer que “todas as circunstâncias relacionadas ao caso são investigadas por meio de inquérito policial instaurado no DHPP. Diligências estão em andamento visando o esclarecimento dos fatos”.
Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo

