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Balkan Insight — Jornalismo Investigativo sobre os Bálcãs e Leste Europeu

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As alterações à Lei dos Assuntos Internos e uma nova Lei sobre a Agência de Segurança Nacional adotada pelo parlamento suscitaram alertas de grupos da sociedade civil e de funcionários europeus sobre potenciais riscos para o Estado de direito e para o processo de adesão do Montenegro à UE.
O analista político Zlatko Vujovic disse na segunda-feira que “o rápido processo legislativo levanta preocupações de que disposições não relacionadas com a agenda de reformas da União Europeia do país estejam a ser aprovadas sob a bandeira da integração na UE”.
Vujovic disse ao site de notícias Analitika: “O que estamos a testemunhar é um processo legislativo muito rápido, formalmente ligado à integração europeia, mas frequentemente utilizado para aprovar disposições que não fazem parte da agenda europeia”.
As alterações à lei de segurança foram adotadas na sexta-feira, após um debate acalorado que expôs profundas divisões políticas. As alterações centralizam o controlo ministerial sobre o recrutamento policial e os procedimentos disciplinares, enquanto o serviço de inteligência mantém amplos poderes para aceder a bases de dados governamentais e privadas sem supervisão judicial.
De acordo com as novas disposições, a contratação em unidades policiais será baseada em critérios definidos pelo Ministro do Interior e efectuada através de uma comissão nomeada pelo ministro.
Os agentes que enfrentam processos disciplinares devido a impedimentos de segurança podem perder o seu posto ou emprego. A comissão, nomeada pelo Ministro, determina em segredo os impedimentos de segurança, sem consultar a Agência de Segurança Nacional, enquanto os agentes não são informados das acusações e não podem responder às alegações. A Agência de Segurança Nacional, entretanto, mantém amplos poderes para acessar bancos de dados governamentais e outros bancos de dados sem supervisão judicial
As alterações foram adoptadas após horas de debate em que os partidos da oposição acusaram o governo de tentar expandir a influência política sobre o sector de segurança, enquanto a maioria no poder afirmou que as alterações eram necessárias para modernizar o sistema e fortalecer a segurança nacional.
Os deputados do partido no poder insistiram que o novo quadro jurídico foi preparado em consulta com a Comissão Europeia e inclui disposições destinadas a alinhar a legislação do Montenegro com as normas da União Europeia em matéria de protecção de dados pessoais, incluindo regras relacionadas com o Regulamento Geral de Protecção de Dados.
As autoridades disseram que as alterações faziam parte de reformas mais amplas ligadas ao processo de adesão do Montenegro à UE e às obrigações de harmonizar a legislação nacional com a legislação europeia.
No entanto, várias organizações não governamentais afirmaram que partes da legislação poderiam enfraquecer as salvaguardas e aumentar a influência política sobre as estruturas policiais.
O grupo Human Rights Action, com sede em Podgorica, disse no sábado que as alterações poderiam permitir que as autoridades demitissem agentes da polícia sem processos disciplinares e conceder amplos poderes aos órgãos nomeados pelo Ministro do Interior. Advertiu que a adoção da lei sem critérios mais claros e salvaguardas judiciais poderia prejudicar o Estado de direito e afetar a integração europeia do Montenegro.
A Comissão Europeia sublinhou na semana passada, antes da votação de sexta-feira, que todas as alterações à Lei dos Assuntos Internos do Montenegro devem ser harmonizadas com a legislação da UE e as normas internacionais, particularmente no que diz respeito à proteção dos direitos humanos e à independência das instituições.
A Comissão afirmou que foi consultada sobre ambos os projetos de lei, mas avaliou que as disposições de proteção de dados em cada um deles ainda não estão alinhadas com o acervo da UE, especialmente o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados e a Diretiva de Aplicação da Lei.
“Para alcançar o alinhamento, indicamos ao Montenegro duas opções: ou harmonizar estas disposições com o acervo da UE antes de as leis serem adotadas, ou adotar a legislação e alinhar as disposições antes do encerramento das negociações de adesão. Esta é uma razão adicional para avançar rapidamente com uma reforma abrangente da proteção de dados no Montenegro”, afirmou a Delegação da UE no Montenegro.
A disputa sobre as leis de segurança reflecte tensões mais amplas à medida que o Montenegro procura acelerar o seu caminho rumo à adesão à União Europeia. O progresso depende fortemente das reformas do Estado de direito, da independência judicial e do funcionamento das instituições democráticas, áreas monitorizadas de perto por Bruxelas.
Os legisladores da oposição afirmaram que iriam contestar a legislação recentemente adoptada através de mecanismos institucionais e legais, argumentando que esta ameaça a independência da polícia e dos serviços de inteligência.
O opositor Partido Democrático dos Socialistas, DPS, disse na sexta-feira que se retiraria dos seus cargos nas comissões parlamentares após a adoção das controversas leis de segurança. O deputado Andrija Nikolic disse suspeitar que as medidas visavam mudar o carácter do Estado.
“Se instalarmos um exército partidário na polícia que o servirá incondicionalmente, estaremos a preparar o terreno para uma repressão aos adversários políticos. As recentes acções do sector de segurança resumem-se a uma coisa – uma tentativa de fortalecer a autoridade enfraquecida do aparelho de segurança dirigido pelo partido chamado Montenegro Democrático”, disse Nikolic na sexta-feira.
Os representantes dos partidos no poder insistiram que as reformas reforçassem a supervisão e o funcionamento do sector de segurança do país.
Eles foram um “remédio necessário para o legado criminal que encontramos no Ministério do Interior e na Direção de Polícia. É nosso dever perante a constituição, a lei e para com os cidadãos”, disse o ministro do Interior, Danilo Saranovic, na sexta-feira.
📌 Fonte original: Visão dos Balcãs
Este conteúdo foi produzido e publicado originalmente pelo Visão dos Balcãs — veículo de jornalismo investigativo especializado em reportagens sobre os Bálcãs e o Leste Europeu, integrante da Rede de Jornalismo de Crime Organizado e Corrupção (OCCRP). Todo o conteúdo é propriedade da Balkan Insight e reproduzido aqui com fins jornalísticos e informativos. Para acessar o material original em inglês, acesse balkaninsight. com.



