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Jovens relatam agressões, falta de água e comida e são levados à delegacia; defesa afirma que policiais atuaram sem câmeras corporais

Estudantes de todo o estado ocuparam a sede da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo (Seduc), na República, região central de São Paulo, para cobrar o fim da militarização das escolas, melhorias na infraestrutura e ampliação do orçamento da educação pública, entre outras pautas. O grupo buscava dialogar com o secretário Renato Feder.
O que receberam, na madrugada desta quinta-feira (26/3), denunciam, foi spray de pimenta, agressões da Polícia Militar de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e impedimento de acesso a água, comida ou banheiro. Vídeos publicados nas redes sociais mostram parte da ação.
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Segundo Jeferson Celos, advogado do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), houve truculência e destruição de mobiliário pelos próprios policiais.
Vinte estudantes — nove adolescentes e onze adultos — foram conduzidos ao 2º Distrito Policial (Bom Retiro) por dano ao patrimônio público. Até o momento, não há registro de abertura de investigação sobre a conduta dos policiais envolvidos.
Vídeos mostram PM lançando spray por abertura de porta
Vídeos que registram parte da ação mostram a truculência. Em uma das gravações, alunos bloqueiam a porta enquanto policiais lançam spray de pimenta por uma abertura, na direção dos manifestantes, que estão dentro de uma sala fechada, com pouca circulação de ar.
É possível ouvir os jovens dizendo: “a gente vai sair, a gente vai sair, tem estudante passando mal, senhor”. Em determinado momento, Júlia Monteiro, presidenta da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes), tenta ir até a porta para dialogar com os policiais.
As imagens registram quando Júlia é bruscamente puxada por vários policiais, que tentam retirá-la da sala. Outra jovem tenta ajudá-la, mas é atingida por spray de pimenta.
Os estudantes aparecem tossindo e colocando as roupas sobre o rosto para amenizar os efeitos do gás. Em meio à confusão, um deles diz: “Eles quebraram a porta”, em referência aos policiais. Outro orienta: “Levantem as mãos”. O vídeo ainda mostra o momento em que os policiais acessam a sala, antes de ser interrompido.
Claudio Rogério, de 18 anos, diretor de comunicação da Upes, contou à Ponte que, quando os policiais começaram a invadir a ocupação, a sensação predominante entre os estudantes era de medo. “A gente sabia que podia estar ali ocupando e indicando os nossos direitos, mas não o que fazer [diante da abordagem]”.
Segundo ele, a ação da Polícia Militar ocorreu enquanto parte do grupo se preparava para dormir. Os policiais teriam aberto um buraco na porta e passado a lançar spray de pimenta para dentro da sala. “A gente tava lá deitado e eles simplesmente abriram um buraco na porta com alguma coisa e começaram a espirrar spray de pimenta”, lembra.
Ele relata que a janela estava aberta porque os estudantes haviam retirado uma estrutura de plástico para permitir a ventilação. “Se a gente não tivesse desparafusado, eles iam transformar aquela sala numa câmara de gás, porque não tinha nenhum outro tipo de ventilação”, denuncia.
No grupo, havia estudantes de diversas regiões do estado, integrantes da Upes, da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP), que reúnem alunos da rede estadual, do ensino técnico e do ensino superior.
Estudantes ocuparam sala após falta de resposta da secretaria
O grupo chegou à secretaria na tarde de quarta-feira (25/3), mas, como o secretário não estava no prédio, foi recebido por uma assessora, que acionou o secretário executivo Vinícius Mendonça Neiva. Os estudantes afirmaram que queriam conversar com o titular da pasta ou com o governador Tarcísio.
Sem resposta, os estudantes ocuparam uma sala no segundo andar e anunciaram que só sairiam após falar com o secretário. Na sequência, policiais militares chegaram ao local.
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O advogado da Apeoesp chegou ao local já à noite e tentou, junto a outras lideranças, negociar com a polícia para que água e alimentos fossem entregues aos manifestantes — que estavam sem acesso a banheiro, climatização e energia elétrica. Sem sucesso.
“A gente precisou jogar uma bolsa amarrada em várias bandeiras pela janela, por cima de uma árvore, para que alguém do lado de fora colocasse comida para a gente sem a polícia ver”, conta Cláudio, da Upes.
Defesa afirma que PMs danificaram local e atuaram sem câmeras
Os estudantes foram conduzidos ao 2º Distrito Policial (Bom Retiro) sob a acusação de dano ao patrimônio público, segundo o advogado. Os defensores Gustavo Berta e Elizeu Soares — ex-ouvidor das Polícias de São Paulo — também estiveram na delegacia ao lado dos jovens.
De acordo com Jeferson Celos, os estudantes afirmam que foram os próprios policiais que destruíram a porta e parte do mobiliário do local. Ele também afirma que os agentes atuaram sem câmeras corporais ativas ou visíveis e que, devido à falta de energia elétrica, as identificações estavam ilegíveis, o que dificulta a responsabilização individual.
Para evitar que outros crimes sejam indevidamente imputados aos jovens, foi solicitada perícia no local, diz o advogado. Ele também pediu que os depoimentos dos estudantes fossem incluídos no boletim de ocorrência, com relatos de agressões e truculência. O caso foi encaminhado ao 3º DP (Campos Elíseos), responsável pela investigação.
Segundo Celos, essa não foi a primeira tentativa de diálogo. Antes, houve uma audiência pública na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), com a participação do secretário executivo Vinícius Mendonça Neiva, mas o encontro não resultou em encaminhamentos concretos.
Cláudio afirma que o episódio reforça uma sensação de medo e terror entre os estudantes, algo que, segundo ele, já faz parte do cotidiano. “Quem estuda em escola pública e mora perto da periferia sabe muito bem o que é chegar no seu bairro e acontecer de um amigo seu ou de um parente ser agredido pela polícia”.
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“Eu, por exemplo, vivia na cidade de São Vicente, no litoral de São Paulo. E aí todo ano a gente tinha a Operação Escudo e a Operação Verão que acontecem lá. Era muito triste, porque a gente via as pessoas sendo assassinadas, sendo agredidas pela PM, entre eles os estudantes”, conta.
Para o jovem, a situação evidencia a forma como o governador Tarcísio de Freitas trata a juventude. “É muito triste, é uma sensação de abandono muito grande”, afirma.
O que diz as autoridades
Questionada pela Ponte sobre o uso de spray de pimenta, as agressões relatadas pelos estudantes, a atuação dos policiais e a ausência de câmera corporal, a Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) afirmou que a corporação foi chamada para atender uma “ocorrência de invasão a prédio público”.
Segundo a pasta, houve tentativas de negociação antes da retirada dos manifestantes, que foram conduzidos ao 2º DP, ouvidos e liberados. A SSP afirmou que “ninguém ficou ferido” e que a perícia foi acionada. O caso foi registrado como dano.
A Secretaria Estadual de Educação, por sua vez, não respondeu às perguntas sobre a decisão de acionar a PM nem sobre a recusa do secretário Renato Feder em receber os estudantes na quarta-feira. Em nota, a Seduc afirmou que Feder “aguarda os representantes da Upes para uma reunião desde o dia 19” e que uma audiência estava marcada para esta sexta (27/3).
A pasta atribuiu a crise ao fato de os estudantes terem “aberto mão do diálogo e optado por invadir a sede”. A nota também listou dados sobre infraestrutura, escolas cívico-militares e resultados do Saresp — sem mencionar as agressões denunciadas pelos advogados.
Leia nota da Seduc na íntegra
A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) reafirma seu compromisso com o diálogo e esclarece que, desde o último dia 19, o secretário Renato Feder aguarda os representantes da Upes para uma reunião. Na ocasião, havia um encontro previamente agendado com os estudantes, que foi cancelado por solicitação do próprio grupo. Uma nova audiência com o secretário foi marcada para esta sexta-feira (27). No entanto, os estudantes abriram mão do diálogo e optaram por invadir a sede da secretaria.
Sobre as pautas apresentadas, a Secretaria esclarece que as escolas cívico-militares representam 100 unidades dentro de um universo de mais de 5.300 escolas da rede estadual, com implantação realizada a partir de consultas públicas com as comunidades escolares, que optaram pelo modelo.
A Secretaria também destaca o investimento recorde em infraestrutura: R$ 3,1 bilhões em 6.764 obras entre 2023 e 2026, volume que supera em 3,7 vezes o da gestão anterior.
Além disso, o uso de ferramentas digitais e materiais estruturados tem ampliado o apoio aos professores e contribuído para avanços concretos na aprendizagem. Em 2025, o Saresp registrou desempenho recorde em matemática em todos os anos avaliados desde o início da série histórica. Na alfabetização, o estado alcançou nível ouro do MEC, com três em cada quatro crianças do 2º ano do ensino fundamental já leitoras.
A ampliação de oportunidades também é um eixo central da atual gestão. O ensino médio técnico saltou de 35 mil alunos em 2023 para mais de 230 mil estudantes do ensino médio da rede estadual, o que permite dupla certificação ao final da etapa. Pelo Provão Paulista Seriado, mais de 46 mil alunos ingressaram em instituições públicas de ensino superior, como USP, Unicamp, Unesp, Univesp e Fatecs. O programa Prontos pro Mundo oferece intercâmbio internacional inédito na rede, totalmente gratuito para estudantes da rede pública, em países como Canadá, Austrália, Irlanda e Nova Zelândia.
A Secretaria reafirma seu compromisso com uma educação pública de qualidade, baseada em evidências, diálogo e ampliação de oportunidades para todos os estudantes do estado de São Paulo.
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Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo


