PMSC mata adolescente que tentou correr de viatura, e moradores relatam execução

PMSC mata adolescente que tentou correr de viatura, e moradores relatam execução

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Jovem de 17 anos havia sido ameaçado por policiais militares dias antes. PM e IML impediram mãe de ver corpo dele. Ela precisou reconhecê-lo por uma foto que o exibe dos ombros para cima, na qual parece ter um ferimento de tiro na cabeça

PMSC mata adolescente que tentou correr de viatura, e moradores relatam execução
Policiais se mantiveram de balaclava em frente à casa em que adolescente foi morto com tiros de fuzil, impedindo a mãe do jovem de acessar o local | Foto: Reprodução

A Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) matou um adolescente de 17 anos na favela do Siri, na região Norte de Florianópolis, no último sábado (28/3). Ele foi baleado ao tentar correr de uma viatura policial, no que moradores afirmam ter sido uma execução.

A ocorrência em que ele foi morto teve início por volta das 17h10, quando uma viatura do 21º Batalhão da Polícia Militar (BPM) entrou na comunidade pela Rua Ruth Pereira. Trata-se da única via de acesso à favela do Siri, que é cercada pelas dunas dos Ingleses, uma longa extensão de areia e vegetação nativa que atravessa o Norte da capital catarinense.

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A viatura seguiu à Rua da Floresta, onde se deparou com três jovens. Eles passaram então a correr dos policiais. Segundo afirmam moradores, todos eles estavam desarmados.

Em meio à correria, eles encontraram o adolescente, que até então participava de uma festa de aniversário. Havia várias crianças nas ruas da comunidade na ocasião. A vítima fatal do caso também passou a correr junto dos amigos.

Segundo os moradores, é comum que os mais novos corram da PMSC na comunidade por medo das constantes abordagens violentas. O próprio adolescente agora morto já havia sido agredido por policiais em ocasiões anteriores.

Uma pessoa próxima à família dele afirmou à Ponte que, dias antes do assassinato, o jovem ainda havia relatado ter sido ameaçado de morte por PMs, por já ter sido apreendido em um ponto de venda de drogas na favela. “Disseram que ele estava na lista”, contou.

Em certo momento, os quatro amigos se separaram, e o adolescente foi parar no quintal de uma casa na Servidão Lindomar Álvaro da Silveira, ainda dentro da favela. Conforme a Ponte apurou, o jovem teria dito a uma testemunha que pretendia se apresentar aos policiais, uma vez que um drone da PMSC já sobrevoava a comunidade e poderia indicar a sua localização.

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O adolescente estava sem camiseta, de bermuda e com um celular na mão. Policiais chegaram então ao imóvel, ocasião em que ele teria se rendido. Logo depois, ouviu-se o barulho de vários tiros de fuzil. O jovem foi baleado no quintal, entre a parte de trás da casa e um muro que a separa de vizinhos.

Live registrou demora no socorro

Pouco depois dos disparos, o líder comunitário Carlos Eduardo Ferreira, que vive na favela, abriu uma live nas redes sociais para registrar os desdobramentos do caso. A gravação mostrou que uma ambulância chegou ao local apenas às 18h36 — a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima, a de Canasvieiras, fica a cerca de 15 minutos de carro da comunidade.

Enquanto isso, moradores não puderam se aproximar da casa onde era mantido o corpo da vítima, incluindo a mãe dele. Aos poucos, outras guarnições da PMSC passaram a reforçar o efetivo no local, o que gerou apreensão entre as famílias da comunidade e medo de retaliação.

Às 20h30, policiais do Batalhão de Choque entraram em confronto com alguns dos moradores, que estavam revoltados com a situação. Os PMs atiraram com balas de borracha e fizeram uso de bombas de gás lacrimogêneo. Já as pessoas insatisfeitas estouraram rojões na direção dos agentes e lançaram pedras contra eles. Não houve policiais feridos.

PM diz que precisou ‘agir operacionalmente contra injusta agressão’

Ainda no sábado, a Ponte questionou o 21º BPM, à frente do policiamento do Norte de Florianópolis, sobre as circunstâncias da morte. A unidade comunicou apenas que a ocorrência estava em andamento.

Em novo contato na segunda-feira (30/3), a PMSC alegou que, ao fazer uma incursão na favela, se deparou com quatro suspeitos de estar traficando drogas, quando supostamente “policiais foram recebidos a tiros e tiveram que agir operacionalmente contra a injusta agressão”.

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Nenhum policial foi ferido, nem foi apreendida droga ilícita alguma. A Polícia Militar afirmou ter encontrado uma pistola, mas sem esclarecer quem a portava.

Os outros três jovens que correram junto do adolescente conseguiram fugir ao ver a viatura. Um deles, segundo a PMSC, supostamente teria um mandado de prisão aberto contra si por roubo. A corporação comunicou ainda que o resgate do jovem baleado foi acionado imediatamente.

Mãe não pôde ver o corpo do filho após o assassinato

Até segunda, a mãe do adolescente não pôde ver o corpo do filho. Na sede do Instituto Médico-Legal (IML), ela precisou reconhecê-lo apenas a partir de uma foto que exibia o jovem dos ombros para cima — ele tinha lesões na cabeça.

A reportagem questionou a Polícia Científica catarinense sobre a razão da negativa. O órgão argumentou que o acesso é vetado “por normativas internas, visando resguardar os demais corpos que possam estar naquele ambiente e visando preservar a família em relação à visualização de seu ente”. Disse ainda que, em dez dias contados a partir da morte, um laudo necroscópico deve ter sido concluído.

Do IML, o corpo do adolescente foi levado para uma funerária, onde o acesso de familiares também foi negado em um primeiro momento. Só houve a liberação nesta terça (31/3), quando ocorreu o velório — na ocasião, o jovem já estava em um caixão, vestido e coberto de flores, sem que fosse possível averiguar eventuais lesões em outras partes do corpo.

Favela do Siri é alvo recorrente de abusos da PMSC

No mesmo fim de semana em que o adolescente da favela do Siri foi morto, a PMSC matou ao menos outras quatro pessoas no estado. O portal Desterro, que é parceiro da Ponte, mostrou que a letalidade policial em Santa Catarina tem crescido no governo Jorginho Mello (PL), responsável por extinguir o uso de câmeras corporais no estado: em 2025, houve um recorde de mortes em Florianópolis.

Em meio a isso, conforme mostrou aPonte, a comunidade do Siri tem sido alvo recorrente de abusos da PMSC. Entre 2022 e 2025, quatro jovens foram mortos por policiais na favela, em episódios que os moradores afirmam ter se tratado de execuções — a versão policial narrava supostos confrontos.

São comuns batidas policiais abusivas na favela do Siri, com agressões em revistas e invasões a casas sem mandados judiciais. Aos mais jovens, conforme moradores já relataram àPonte, a PM costuma ordenar que desbloqueiem o próprio celular para que seja vasculhado.

Quem é mãe na comunidade relata ter medo de que os filhos saiam à noite ou até mesmo corram no meio da rua, pelo risco de serem vistos como suspeitos pela PM e acabarem mortos. Durante as incursões policiais a tiros, mesmo quem está abrigado fica em pânico, já que várias das casas do local são de madeira.

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A favela do Siri ainda convive com restrições de serviços básicos, como fornecimento de água e energia elétrica, por ser considerada uma ocupação irregular — a realidade ali destoa da vizinhança da região Norte de Florianópolis, que também abriga bairros de classe alta e média alta entremeados em áreas de preservação e vários pontos turísticos, como as praias de Jurerê Internacional e de Canasvieiras.

Em janeiro, conforme mostrou a Ponte, a comunidade do Siri foi sitiada por policiais para que a prefeitura, sob gestão Topázio Neto (Podemos), demolisse casas. Moradores realizaram um protesto na ocasião e, em razão disso, passaram a ser vítima de agressão e ameaça de policiais nos dias seguintes.

Quem controla as polícias em Santa Catarina

A Ponteprocurou também oMinistério Público de Santa Catarina (MPSC), que tem o dever constitucional de exercer o controle externo da atividade policial no estado. A reportagem questionou se o órgão acompanha o episódio e se tomou alguma providência. Ainda não houve retorno.

O caso deve ficar sob responsabilidade da 40ª Promotoria de Justiça (PJ) da Capital. O titular dela é o promotor de Justiça Jádel da Silva Júnior. A Ponte solicitou entrevista com ele para tratar dos abusos recorrentes da PMSC na favela do Siri, mas também não teve resposta.

Leia a íntegra do que diz a PMSC

No início da noite deste sábado, 28, a guarnições do 21º Batalhão de Polícia Militar (BPM), realizou uma operação com o objetivo de coibir o tráfico de drogas e o crime organizado em área já conhecida pela prática criminosa, no bairro Ingleses, no norte da Ilha de Santa Catarina, em Florianópolis.

Durante monitoramento prévio, foram identificados quatro suspeitos que estariam realizando o tráfico de drogas no local, entre eles, um dos homens identificado pelos policiais possui um mandado de prisão pelo crime de roubo em seu desfavor. No momento da incursão policial, os suspeitos tentaram fugir.

Durante a varredura, os policiais foram recebidos a tiros, e tiveram que agir operacionalmente conta a injusta agressão. Um dos suspeitos envolvidos foi atingido e veio a óbito no local. O homem que estaria foragido conseguiu fugir e os demais não foram localizados até o momento.

Na ação, foi apreendida uma pistola. Os órgãos competentes foram imediatamente acionados e compareceram ao local, incluindo o SAMU, Polícia Civil e Polícia Científica.

Leia a íntegra do que diz a Polícia Científica

No dia 28 a família foi orientada sobre a liberação do corpo pela equipe da Polícia Científica e compareceram em nossa unidade no dia 29 para proceder a liberação, porém não possuiam documento de identificação, nem do familiar que veio liberar o corpo (documento próprio) e nem da vítima. Devido a ausência do documento o corpo somente foi liberado no dia 30, quando a família retornou.

Sobre o acesso ao necrotério, ele é vedado por normativas internas, visando resguardar os demais corpos que possam estar naquele ambiente e visando preservar a família em relação a visualização de seu ente.

Como forma alternativa de reconhecimento para maior conforto dos familiares, se apresenta a foto da vítima, mas a identificação (que é diferente de reconhecimento) ainda é feita por meio de papiloscopia, odontologia ou genética, neste caso em específico, foi realizada pela papiloscopia.

Relativo ao laudo necroscópico, ele é emitido em até 10 dias após o exame, pois o Perito Oficial pode realizar análises posteriores até finalizar completamente sua análise ou pedir dilação de prazo caso entenda que algum exame complementar, a exemplo do toxicológico, possa ser fundamental para as suas conclusões.

Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo