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Gustavo Maihoski de Souza, 17, foi morto pela PMSC em Florianópolis, no que moradores dizem ter sido uma execução. À Ponte, mãe relata que adolescente foi tratado com crueldade por parte da imprensa e que ela foi agredida por policiais

A mãe de Gustavo Maihoski de Souza, de 17 anos, diz que o filho foi assassinado duas vezes nos últimos dias. A primeira das mortes veio das armas da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC), que o matou a tiros no sábado (28/3), no que moradores da comunidade do Siri, na região Norte de Florianópolis, dizem ter sido uma execução. O jovem foi ferido, inclusive, com disparos no rosto.
O segundo dos assassinatos, segundo a familiar, partiu de alguns veículos de imprensa locais que passaram a tratar o adolescente como um “criminoso neutralizado”, expondo o nome completo e fotos da vítima, sem que familiares e vizinhos sequer fossem ouvidos — aqui, a Ponte menciona o nome de Gustavo com consentimento da mãe, que tenta preservar ao menos a memória dele.
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“Mandaram em um grupo: ‘homem morre em confronto com a polícia’. Foi como se ele fosse um matador, um ladrão. Eu já estava em choque. Nossa, quando eu vi aquele vídeo na TV… você tem noção que todo mundo viu aquilo? Isso é eles exporem uma pessoa que não está nem aqui mais para se defender, que morreu. Foi uma crueldade muito grande o que fizeram”, conta a mãe, que terá o nome preservado por questões de segurança.
O vídeo mencionado por ela é uma reportagem exibida por uma rede de televisão catarinense na segunda-feira (30/3), ocasião em que a mãe sequer havia tido acesso ao corpo no filho — a Polícia Científica não permitiu que ela o visse no Instituto Médico-Legal (IML), e a funerária só o liberou na terça (31), quando Gustavo já estava em um caixão, vestido e coberto de flores, para ser velado.
A reportagem omitiu se tratar de um adolescente e se referiu a Gustavo como um “homem apontado como integrante de uma facção criminosa”. Na parte de baixo do vídeo, há uma tarja que sentencia a vítima, assim como outras pessoas mortas pela PMSC nos últimos dias: “Criminosos são neutralizados no fim de semana”.
A matéria sustenta que Gustavo trocou tiros com a PMSC e traz apenas uma entrevista, na qual o tenente-coronel Rafael Regis, comandante do 21º Batalhão de Polícia Militar (BPM), acusa o adolescente de estar “traficando drogas” na ocasião em que a ocorrência teve início — a reportagem não esclarece, no entanto, que nenhum policial foi ferido no suposto confronto e que não houve apreensão de entorpecentes.
“O que eles fizeram é errado. Não tem porquê expor o meu filho de 17 anos em rede nacional”, diz a mãe, que tentar buscar apoio jurídico para processar a rede televisiva, assim como um site de notícias catarinense que expôs Gustavo como sendo um “traficante” e o vinculou ao Primeiro Grupo Catarinense (PGC), uma fação criminosa. “Eu tenho que defender o meu filho, mesmo ele não estando mais aqui.”
Especialista diz que exposição indevida é ilegal e viola o ECA
Conforme explica o advogado Ariel de Castro Alves, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) proíbe expressamente a divulgação, sem a autorização devida, de fotos e do nome de crianças e adolescentes aos quais se atribuem atos infracionais, segundo estabelecem os artigos 17, 18, 143 e 247.
O intuito da legislação é preservar a integridade física, psíquica e moral de uma pessoa ainda em desenvolvimento, que, conforme prevê a Constituição Federal, exige especial proteção do Estado. Mesmo uma menção autorizada por responsáveis não pode tratar crianças e adolescentes de maneira desumana ou vexatória, rotulando-os como “criminosos”.
“Essas previsões legais são para o adolescente não ficar estigmatizado em razão da notícia do envolvimento com ato infracional. E servem também para proteger as famílias dos jovens de estigmatizações”, explica Ariel, que é membro da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados Brasil (OAB).
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Segundo Ariel, isso deve valer tanto para preservar jovens vivos quanto para aqueles que foram mortos, uma vez que o ECA não estabelece tal distinção. Ele pondera, no entanto, que essa interpretação não é um consenso entre juristas e que, mesmo nos casos de adolescentes vivos, são raras as condenações contra veículos de imprensa — nesses casos, deve se recolher uma multa e indenizar a família.
“Lamentavelmente, após mais de 35 anos de vigência do ECA, muitos meios de comunicações continuam violando a legislação, inclusive algumas TVs e rádios, que são concessões públicas, e deveriam sofrer advertências e punições de agências governamentais de controle”, afirma Ariel, que também já foi secretário nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente e presidiu o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda).
‘Sofri sem saber se meu filho estava vivo ou morto’
Conforme mostrou a Ponte, a ocorrência em que Gustavo foi morto teve início por volta das 17h10 do sábado, quando uma viatura do 21º BPM entrou na comunidade pela Rua Ruth Pereira. Trata-se da única via de acesso à favela do Siri, que é cercada pelas dunas dos Ingleses, uma longa extensão de areia e vegetação nativa que atravessa o Norte da capital catarinense.
A viatura seguiu à Rua da Floresta, onde se deparou com três jovens. Eles passaram então a correr dos policiais. Segundo afirmam moradores, todos eles estavam desarmados.
Em meio à correria, eles encontraram Gustavo, que até então participava de uma festa de aniversário. Havia várias crianças nas ruas da comunidade na ocasião. A vítima fatal do caso também passou a correr junto dos amigos.
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Em certo momento, os quatro amigos se separaram, e o adolescente foi parar no quintal de uma casa na Servidão Lindomar Álvaro da Silveira, ainda dentro da favela. Conforme a Ponte apurou, o jovem teria dito a uma testemunha que pretendia se apresentar aos policiais, uma vez que um drone da PMSC já sobrevoava a comunidade e poderia indicar a sua localização.
O adolescente estava sem camiseta, de bermuda e com um celular na mão. Policiais chegaram então ao imóvel, ocasião em que ele teria se rendido. Logo depois, ouviu-se o barulho de vários tiros de fuzil. O jovem foi baleado no quintal, entre a parte de trás da casa e um muro que a separa de vizinhos.
O socorro demorou quase uma hora para chegar. A mãe precisou esperar por respostas atrás de uma faixa de isolamento montada pela PMSC, pela qual foi repreendida aos gritos ao tentar se aproximar. “Eu sofri até as 21h com o meu filho lá dentro, sem saber se estava vivo ou morto.”
Gustavo já havia sido ameaçado de morte, e mãe foi agredida
Segundo os moradores da favela do Siri, é comum que os mais novos corram da PMSC na comunidade por medo das constantes abordagens violentas. Gustavo já havia sido agredido por policiais em ocasiões anteriores.
A mãe de Gustavo diz que ela própria também já foi agredida por policiais com um tapa no rosto há cerca de dois meses, quando foi acudir o filho de uma abordagem. “Eu fiquei roxa. E a quem a gente vai recorrer para pedir ajuda em uma hora dessas?” questiona.
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Ela relata também que o filho já havia sido ameaçado de morte por PMs. Em uma dessas ocasiões, o adolescente havia sido apreendido em um ponto de venda de drogas na favela do Siri, quando foi feito contra ele um registro de ato infracional análogo ao crime de tráfico de drogas.
“Levaram ele para a delegacia, falaram que ele iria virar ‘estampa de camiseta’. E cumpriram o que disseram, porque agora o meu filho está morto”, afirma a mãe.
Também conforme mostrou aPonte, entre 2022 e 2025, outros quatro jovens foram mortos por policiais na favela do Siri, em episódios que os moradores repetiram ter se tratado de execuções — a versão policial narrava supostos confrontos. Segundo as famílias, os abusos pioraram na gestão Jorginho Mello (PL), que também trata a letalidade policial como a “neutralização de criminosos”.
A morte de Gustavo é ainda o segundo trauma familiar em cerca de oito meses. Em junho do ano passado, a família havia perdido tudo ao ter a casa acometida por um incêndio.
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Enquanto tenta se refazer de novo, a mãe diz agora esperar que os policiais, assim como veículos de imprensa que mataram o filho por uma segunda vez, sejam ao menos responsabilizados. “Para que tanta crueldade? O meu filho não está mais aqui. A polícia sempre faz isso e fica impune. Diz que era um vagabundo, alguém que não presta.”
“Se você vai enquadrar uma pessoa, para que chegar atirando? Ninguém tem direito de matar ninguém. A polícia sempre entra matando e depois diz que é um traficante, que teve troca de tiros. Por que nunca aparece um policial com um tiro? Eles sempre matam e saem ilesos, sem sequer um arranhão.”
O que dizem a PMSC e o MPSC
Em contato anterior com a Ponte, a PMSC alegou que, ao fazer uma incursão na favela do Siri, se deparou com quatro suspeitos de estar traficando drogas, quando supostamente “policiais foram recebidos a tiros e tiveram que agir operacionalmente contra a injusta agressão”.
Nenhum policial foi ferido, nem foi apreendida droga ilícita alguma. A Polícia Militar afirmou ter encontrado uma pistola, mas sem esclarecer quem a portava.
Os outros três jovens que correram junto de Gustavo conseguiram fugir ao ver a viatura. Um deles, segundo a PMSC, supostamente teria um mandado de prisão aberto contra si por roubo. A corporação comunicou ainda que o resgate do jovem baleado foi acionado imediatamente.
APonteprocurou também oMinistério Público de Santa Catarina (MPSC), que tem o dever constitucional de exercer o controle externo da atividade policial no estado. A reportagem questionou se o órgão acompanha o episódio e se tomou alguma providência.
Em resposta, o MPSC comunicou que, “após concluídos os inquéritos das Polícias Civil e Militar, estes serão encaminhados às Promotoria de Justiça com a atribuição para o devido processamento”.
A Ponte também solicitou entrevista com o promotor de Justiça Jádel da Silva Júnior, titular da 40ª Promotoria de Justiça (PJ) da Capital, responsável pelo controle externo das polícias, para tratar dos abusos recorrentes da PMSC na favela do Siri.
O pedido não foi atendido. Ainda assim, o MPSC comunicou que “tem em andamento um procedimento para apuração de aumento dos índices de letalidade policial em Santa Catarina, no qual busca, também o retorno do uso de câmeras corporais pelos Policiais Militares”.
Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo




