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Projeto reúne movimento das Mães de Maio e entidades de direitos humanos em iniciativa de memória e acolhimento

Débora Maria da Silva, liderança do Movimento Independente das Mães de Maio, define o Brasil como um país “desmemoriado das violências que comete”. Há quase duas décadas, ela e outras mães lutam contra o apagamento dos Crimes de Maio, que completam 20 anos em 2026, e de outras chacinas cometidas pelo Estado. Essa trajetória agora ganha uma nova frente: a criação de um Centro de Memória, previsto para ser inaugurado em maio do próximo ano, em Santos, no litoral paulista.
“O centro é ressuscitar tanto nossos filhos como as próprias mães”, diz Débora. Ela perdeu o filho Edson Rogério Silva dos Santos, 29, durante os Crimes de Maio de 2006, um massacre ocorrido em São Paulo após ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC), quando forças policiais e milícias mataram centenas de civis. Ao longo de quase duas décadas de mobilização, ela também enterrou mães de outras vítimas.
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Segundo Débora, o Centro nasce justamente para preservar a memória, enfrentar o apagamento histórico e permitir a sobrevivência das mães. “Esse espaço vai representar muito o acolhimento, é o carro-chefe do centro, junto com a memória”, afirma.
A escolha de Santos para sediar o Centro de Memória não foi casual. Segundo a liderança das Mães de Maio, a decisão está ligada à ausência histórica de políticas públicas de acolhimento às mães e familiares de vítimas da violência de Estado na Baixada Santista, região marcada por sucessivas chacinas e operações policiais letais. Foi também após cobranças feitas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos que o governo brasileiro indicou que o equipamento estadual fosse implantado no território.
Para ela, a região funciona há décadas como um laboratório da violência estatal. “Todo ano tem chacinas e mais chacinas, e depois ninguém quer saber dessas mães”, afirma. Débora cita, entre outros episódios, os Crimes de Maio e operações mais recentes, como a Escudo e a Verão, que deixaram 84 mortos e ampliaram o número de mulheres e famílias sem qualquer tipo de suporte institucional.
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A construção do Centro também dialoga com o acúmulo de denúncias e pesquisas sobre o adoecimento de mães e familiares de vítimas da violência policial. Em 2024, o Movimento Independente das Mães de Maio apresentou, em parceria com a Universidade de Harvard e do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), um estudo que apontou os impactos físicos e psicológicos da violência de Estado sobre essas famílias e a ausência de políticas públicas de cuidado e reparação. A pesquisa contou com apoio de um edital da própria universidade e com a participação de pesquisadoras da área de segurança pública. Também
A apresentação desse estudo em Brasília incluiu agendas com ministérios do governo federal, como Justiça, Direitos Humanos, Igualdade Racial, Mulheres e Saúde. Foi a partir desse processo, que articulou a reivindicação por memória e a apresentação dos dados sobre o adoecimento das famílias, que surgiu a possibilidade de implementação do Centro de Memória no âmbito do Ministério dos Direitos Humanos.
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O projeto foi viabilizado por meio de um edital do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. A proposta foi escrita pela Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, em parceria com o Movimento Independente das Mães de Maio e com apoio técnico da ONG Conectas Direitos Humanos. A Iniciativa Negra será responsável pela gestão técnica e financeira do projeto, com uma gestão política compartilhada entre as organizações.
Segundo Nathalia Oliveira, coordenadora executiva e cofundadora da Iniciativa, o Centro de Memória da Violência de Estado é resultado de uma agenda construída há anos pelos movimentos de mães e integra uma luta mais ampla por reparação e construção de memória no país. Para ela, trata-se de um espaço necessário não apenas no contexto atual, mas enquanto o Brasil seguir marcado por uma democracia incompleta, atravessada por uma abolição inconclusa e pela permanência da violência estatal.
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A coordenadora da Iniciativa Negra também explica que o Centro foi pensado como um espaço permanente de acolhimento, educação em direitos humanos e preservação da memória, reunindo atendimento e orientação psicossocial, cuidado em saúde integral, formação política e um acervo aberto ao público. Ao ocupar um prédio no Centro Histórico de Santos, cedido pela União, o projeto busca garantir visibilidade pública à memória das violações e à luta das famílias atingidas.
“O Centro de Memória da Violência de Estado é necessário não só nesse momento, mas em todos os demais, enquanto a democracia não for alcançada plenamente por todos os cidadãos brasileiros”, afirma.


