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Enquanto parte da imprensa reproduz versões oficiais, a redação aposta em um jornalismo que ouve vítimas da violência de Estado e busca confronto com essas narrativas

Poucas horas depois da morte de um homem no conjunto habitacional Parque do Gato, a imprensa rica — pelo menos bem mais rica que a gente — saiu com manchetes como “Suspeito é morto”, “PM mata suspeito” e coisas do gênero. Quando se lê essas reportagens fica claro que, basicamente, elas são textos mais trabalhados da nota oficial que a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) ou que outro órgão soltaram sobre o assunto. E aqui a crítica não é apenas a colegas jornalistas, mas às decisões editoriais desses grandes conglomerados.
Por conta da escolha de ser assessoria de governos, os fatos publicados por esses jornais são baseados apenas na versão oficial, sem contraponto, sem ouvir outras fontes. Qualquer pessoa que tenha passado por uma faculdade de jornalismo minimamente decente aprendeu que o básico é ouvir todos os lados da história.
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O que a gente assiste há 12 anos na Ponte Jornalismo são famílias e movimentos sociais que chegam em nós com denúncias porque, muitas vezes, ninguém mais quer ouvir sua versão, ler os processos, apurar as provas. Ou seja, ninguém quer fazer o arroz com feijão do jornalismo. Preferem pirotecnias bonitinhas que se movem e uma “experiência” para atrair cliques, mas não causar impacto que sabemos que jornalismo pode causar na realidade.
O olhar da Ponte é diferente. E aqui não falo apenas como diretora, mas como alguém que está no jornalismo desde 2012 e já viu um bocado de coisa. Não existe outro veículo jornalístico no país que se dedique religiosamente há tantos anos à segurança pública e sistema de justiça com um olhar de direitos humanos. Que respeite o código de ética da nossa profissão, que afirma que o jornalista deve defender os direitos humanos. Todos eles.
Toda manhã, quando nos reunimos, reafirmamos nosso compromisso: ouvir as famílias e testemunhas, buscar provas, não se contentar com uma nota oficial, fazer as perguntas que incomodam e expor o silêncio e/ou as omissões nas respostas prontas do Estado. E o fazendo com uma equipe 99 vezes menor do que a maioria desses veículos (Isso para não falar do orçamento). Provamos que dá sim para fazer jornalismo com compromisso e crítica, seja com qual cor partidária for.
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É sempre revoltante quando moradores das comunidades contam que veículos hegemônicos vão até eles, fazem imagens, mas não validam suas experiências. Uma família que visitamos semana passada conta que se aproximou de uma repórter para contar sua versão, mas ela disse que já tinha guardado equipamento e não iria conseguir falar com eles. Óbvio que, quando a matéria saiu, a versão foi a da polícia.
Já presenciei mais de uma vez uma mãe, uma irmã, uma esposa e outras familiares — isso mesmo, no feminino, como sempre — nos agradecendo apenas por serem ouvidas. Muitas vezes, não haverá influência na investigação, nem no processo. Mas quando Estado e imprensa rica se negam, deve dar um alívio ter quem te ouça.
Do outro lado da história
O trabalho da Ponte Jornalismo incomoda bastante. E spoiler: vai continuar incomodando. O incômodo se materializa mediante o tratamento que recebemos quando fazemos coberturas in loco com a presença de agentes do Estado. Essa semana, por exemplo, um dos membros da nossa equipe foi abordado por um PM enquanto apurava a morte que aconteceu no Parque do Gato, região central de São Paulo.
Na ocasião, seu crachá funcional foi fotografado sem que a mesma medida fosse aplicada a outros membros da imprensa que estiveram no local, segundo moradores que presenciaram tudo. E a cereja do bolo foi o policial nos aconselhando a “tomarmos cuidado com os moradores”.
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Nossa diferença também se dá pela quantidade de vezes que somos acionados por fontes que nos procuram para assuntos que fogem da nossa alçada jornalística. Tudo isso porque eles confiam em nós, pelo “simples” motivo de que os ouvimos. Quisemos saber de suas histórias, vidas, nomes e profissões quando ninguém mais quis.
Nossa intenção é ouvir histórias das pessoas, sem ter como foco o clique e a audiência ou compromisso com nota de assessoria. Exercemos o jornalismo visando impacto real: visibilidade, justiça e debate público. Por isso nossa cobertura faz a diferença, alcança e mobiliza pessoas. E aqui vai outro spoiler: mesmo com todos os desafios de manter um veículo de jornalismo independente, não pensamos em parar. Nosso sonho é que a Ponte não precise mais noticiar sobre jovens negros mortos pelo Estado. No dia em que isso acontecer, vamos falar de The Wire (quem leu nossa nova newsletter pegou a referência).
Este texto chegou primeiro para quem assina a “Sete Dias”, a newsletter da Ponte. Todo sábado, enviamos reflexões sobre segurança pública e uma curadoria de reportagens relevantes, produzidas pela própria Ponte ou por outros veículos. Você pode se inscrever clicando aqui.
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Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo



