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O quarto episódio do podcast ‘O Luto e a Luta: os 10 anos da chacina de Osasco e Barueri’ conta a primeira parte da história de Zilda Maria de Paula, que perdeu o filho Fernando e organizou a associação de familiares das vítimas. Ouça aqui

16 de agosto de 2025, Jardim Munhoz Júnior-Mutinga, divisa entre Osasco e Barueri, na Grande São Paulo. Éramos algumas dezenas de pessoas que saíam da casa de Dona Zilda Maria de Paula após um almoço preparado por ela e outras mães da Associação 13 de Agosto, rumo à praça onde ocorreria, em instantes, o ato em memória dos 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri.
As mães das vítimas da matança eram acompanhadas por vizinhos, parentes, jornalistas, pesquisadores acadêmicos, estudantes, militantes sociais e artistas. Na maioria dos casos pessoas que já acompanham a luta das mães de Osasco e Barueri em geral e da dona Zilda em particular. Também estavam presentes as Mães de Maio (da Baixada Santista, que perderam seus filhos nos Crimes de Maio de 2006 e nas operações Escudo e Verão de 2023-2024), mães do Rio de Janeiro e de São Paulo.
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Dona Zilda estava elétrica durante o almoço. A casa cheia, com tantos convidados diferentes lhe oferecendo sorrisos, abraços e homenagens. Terminada a refeição, começava a caminhada para o ato. E Zilda mudou, assim como a programação. Trocou o sorriso e a satisfação pela seriedade e um estado de alerta . Acompanhada, seguiu para o ato, onde abriu os discursos naquela tarde.
“E eu quero falar para vocês, esse ano a gente tem que aproveitar esse filme, “Ainda estou aqui” [Walter Salles, 2024], sobre a ditadura, para dizer que eles [os filhos assassinados] ainda estão aqui. Nas nossas palavras, nas palavras das mães, e é isso”, declarou ela.
Obras para que não se esqueça
Fernando ainda está aqui. Ele e todas as demais vítimas da Chacina de Osasco e Barueri. Os almoços e atos anuais — e toda a movimentação de mães, apoiadores, jornalistas e pesquisadores que os acompanham — fazem parte desse esforço de manter viva a memória desses jovens vitimados pelo Estado.
Tal como as duas últimas grandes obras do cinema brasileiro — “Ainda estou aqui” e “O Agente Secreto” [Kleber Mendonça Filho, 2025] — a história das mães de Osasco e Barueri gira em torno da memória. Da luta pela memória dos seus filhos que, logo após serem brutalmente assassinados nas ruas, sofreram uma segunda morte pelos meios de comunicação como vimos em nosso primeiro episódio.
Uma memória que, se não fosse por elas, talvez não estivesse sequer armazenada num pendrive para ser aberta décadas depois por pesquisadores, como acontece em “O Agente Secreto”. E a pesquisa nos jornais, “chata e cansativa”, não nos diria com certeza quem são essas pessoas, vítimas não de uma ditadura de um tempo passado, mas da democracia do aqui e agora, sucessora daquele período. Daquele mesmo Estado, só que reformado.
“Acho que é fundamental falar das mães e avós e filhos e familiares nesses processos de memória, de pedido de justiça, de responsabilização do Estado. O Estado, seja na ditadura, seja nos períodos democráticos, produz o desaparecimento não só do corpo, mas também do rastro do crime. E sem essas mães, a gente não saberia por onde procurar. São elas que vão recompor, por exemplo, o caminho dos seus filhos. ‘Foi morto dessa maneira’, ‘chegou no IML desse jeito’; elas que apontam as discrepâncias que estão colocadas nos documentos forjados do Estado sobre os crimes”, explica Joana Barros, pesquisadora e vice-coordenadora do LASInTec-Unifesp.
“E também são elas que não desistem nunca de que o Estado reconheça que aquele menino não reagiu a nada, que ele estava ali no baile ou passando pela rua, por exemplo. Tem um papel absolutamente fundamental que começa com os familiares da ditadura e chega nas mães que perderam seus filhos já em democracia: de todas essas pessoas que ficaram e que continuam lutando pelos entes queridos assassinadas pelo Estado que é fundamental no sentido de publicização desses crimes, de não deixar essa pauta acabar”, afirma Joana.
Trajetória de cinema
A vida de Zilda, principal figura por trás da Associação 13 de Agosto (de mães e familiares das vítimas da chacina de Osasco e Barueri), daria um filme espetacular. Nascida nos anos 1950, teria um pouco dessa pegada histórica que anda em viés de alta. Teria o peso de “Ainda estou aqui” por se tratar de uma história real e a complexidade de “O Agente Secreto”, no que se refere à história de uma pessoa comum que sofre perseguições típicas de pessoas comuns. E é por aí que podemos entender como o caso específico de Dona Zilda Maria de Paula pode ser, também, um retrato universalizante do Brasil. Do estado de coisas violento que organiza e regula a vida social brasileira.
A começar pelas migrações que Zilda viveu e refletem um movimento mais amplo das classes pobres e trabalhadoras de São Paulo nas últimas décadas. Quando criança, viu a família deixar os cortiços de Perdizes para ser “pioneira” na Brasilândia. Ela frequentava o novo bairro, mas não vivia nele. Seguia em Perdizes com a mãe, morando nos quartinhos de empregada e garagens das casas dos patrões dela.
Quando cresceu, seguiu a mesma profissão, e num dado momento, após sair de uma casa de patrões abusivos, passou a morar na rua. Anos depois alugou quarto na Brasilândia, morou de favor na casa de parentes e dividiu casa com mãe de santo. Para ter sua moradia própria teria de migrar novamente, dessa vez para a periferia da periferia, lá no final da região metropolitana.
O “saber de esquiva“
Essas migrações fazem parte de um saber de resistência de Dona Zilda, um “saber de esquiva” que adquiriu vivendo e que a permitiu sobreviver. O principal exemplo vem do período em que ela morou nas ruas de São Paulo. Fez amizade com um grupo de meninas mais ou menos da mesma idade e vivendo nas mesmas condições. Uma delas sempre acabava arrumando um empreguinho numa casa de família.
Nesse caso, tratava de fazer amizade com porteiros e ganhar a confiança de patrões para colocar as amigas para dentro por alguns momentos. Assim tomavam café, banho e tiravam sonecas em camas e debaixo de um teto. Um saber de resistência e solidariedade, que lhe garantiu sobrevivência. “Uma figura como a Zilda, por exemplo, tem um conhecimento do que é o Estado, das maneiras e das violências. Não só a violência brutal do assassinato do filho, mas a violência da exclusão social, da falta de dinheiro, de futuro, do preconceito. Se a gente pensa que essa pessoa não é apenas uma vítima, reconhecemos nela um saber, uma maneira de existir na cidade de São Paulo, na sociedade, que é de manejo, de desvio, de esquiva dessa violência”, analisa Joana Barros.
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“Isso no caso da Zilda é impressionante. Por isso que a trajetória dela é tão emblemática. A despeito da morte do Fernando ser a coisa mais brutal que aconteceu na sua vida, ela viveu desde sempre esse confronto permanente com as formas de violência do Estado. É um saber de esquiva em relação ao Estado de coisas hostil para a existência dela”, complementa a pesquisadora.
O quarto episódio do podcast ‘O Luto e a Luta: os 10 anos da chacina de Osasco e Barueri’ conta a primeira parte da história de Zilda Maria de Paula, mãe do Fernando e principal figura por trás da Associação 13 de Agosto.
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Referências e pesquisa para o episódio
Esse episódio é baseado nos áudios das diversas sessões de entrevistas gravadas entre 2021 e 2024 com dona Zilda Maria de Paula pelas pesquisadoras Joana Barros, Gabriella de Biaggi e Lúcia Soares, todas ligadas ao LASInTec-Unifesp. As entrevistas foram feitas no âmbito de um projeto de extensão do laboratório.
Ficha técnica:
- O Luto e a Luta é apresentado por Raphael Sanz e Gil Luiz Mendes.
- O podcast é fruto de parceria entre a Central 3, a Ponte Jornalismo, o LASInTec-Unifesp e a Associação 13 de Agosto (de mães e familiares de vítimas da chacina de Osasco e Barueri).
- O roteiro é de Raphael Sanz.
- A identidade visual é de Lucas Richardson e Carlos Ghiraldelli da Seppia Conteúdo.
- Domenica Mendes fez a revisão dos roteiros e episódios.
- A edição é de Gil Luiz Mendes.
Gil Luiz Mendes é jornalista, repórter na Ponte Jornalismo e apresentador na rádio Central 3. Raphael Sanz é jornalista, pesquisador ligado ao LASInTec-Unifesp e acompanha movimentos sociais há 20 anos.


