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Rodrigo Vessoni criou banco de dados com 407 vítimas de confrontos ligados ao futebol. Ele defende punição individual e legislação mais dura para conter a violência entre torcidas.
DA REPORTAGEM — O que motivou a realização desta pesquisa sobre mortes ligadas ao futebol no Brasil?
Rodrigo Vessoni — A motivação foi não deixar que essas vítimas fossem tratadas apenas como números. Essas pessoas tinham nome, sobrenome. Eram pais, filhos, maridos, esposas, namoradas… tinham pai e mãe. Serem tratadas apenas como estatísticas não me parece correto. Foi aí que comecei a pesquisar e a registrar cada caso, com todos os dados detalhados.
DA REPORTAGEM — Como os dados foram coletados? Quais foram as principais fontes utilizadas?
Rodrigo Vessoni — Minha base é a imprensa. A cada 15 ou 20 dias, faço uma varredura nos principais veículos de comunicação do Brasil. Funciona um pouco como aconteceu durante a pandemia, quando os veículos se uniram para registrar casos em cada cidade e estado. Eu sigo esse modelo, buscando nos jornais das capitais e em portais regionais. A ideia é não focar só em São Paulo e Rio, mas fazer um levantamento nacional.
DA REPORTAGEM — Há algum dado ou tendência que mais te surpreendeu ao longo da pesquisa?
Rodrigo Vessoni — O que mais chama atenção é que esse é um problema nacional. Muita gente foca apenas nos casos de São Paulo e Rio, por terem mais visibilidade, mas a violência ligada ao futebol está espalhada pelo país todo. Em capitais como Goiânia, Belém, Fortaleza… o problema é tão grande, ou até maior, do que nos centros com mais cobertura da mídia.
DA REPORTAGEM — A pesquisa mostra uma média de quase 11 mortes por ano. Como você interpreta esse número?
Rodrigo Vessoni — É uma média muito alta, praticamente uma morte por mês. Mesmo num país tão grande como o Brasil, é um número alarmante. Essa média deveria ser muito menor.
DA REPORTAGEM — Há uma disparidade grande entre mortes dentro (12) e fora dos estádios (395). O que explica isso?
Rodrigo Vessoni — Dentro do estádio, há um perímetro de segurança. As autoridades atuam com protocolos eficazes e a área é mais controlada. Já nas ruas, seja em dia de jogo, de vingança ou em outras ocasiões, os torcedores estão mais expostos e desprotegidos. A rotina de segurança dentro dos estádios é bem definida; fora deles, não.
DA REPORTAGEM — Mais da metade das mortes ocorreu em dias de jogos, mas 166 aconteceram sem partidas. Como isso ocorre?
Rodrigo Vessoni — A maioria dessas mortes fora do calendário de jogos é motivada por vingança. Às vezes, os grupos sabem que haverá festas ou encontros e vão até lá para encontrar rivais e cometer agressões. Não precisa ter jogo para alguém decidir atacar outro torcedor, seja porque está com a camisa errada ou por conta de rivalidades anteriores.
DA REPORTAGEM — Os dados indicam que 359 mortes estão ligadas às torcidas organizadas. Isso reforça que elas são os principais agentes da violência no futebol?
Rodrigo Vessoni — Sim. Nem todas as mortes têm relação com torcidas organizadas, mas a maioria tem. Há brigas em bares, pessoas que se exaltam por causa de derrotas… Mas, em geral, as torcidas organizadas estão envolvidas nos casos mais graves. Quando há aglomeração e sentimento de grupo, muitos que agiriam de forma diferente sozinhos acabam participando de atos violentos.

DA REPORTAGEM — Como você avalia as medidas de segurança adotadas nos últimos anos? Elas têm sido eficazes?
Rodrigo Vessoni — Não são eficazes. Se fossem, o número de mortes cairia ano após ano — e isso não acontece. A principal medida deveria ser punir o CPF do culpado, buscar a responsabilização individual, com legislação mais firme. Hoje, a impunidade incentiva a continuidade da violência.
DA REPORTAGEM — A pesquisa mostra que em 276 casos os assassinos permanecem impunes. Quais os maiores desafios para identificar e punir os responsáveis?
Rodrigo Vessoni — Depende da demanda que a polícia local tem, da quantidade de imagens disponíveis e até da repercussão na mídia. Casos mais visíveis ganham atenção das autoridades; os menos noticiados acabam esquecidos. Isso influencia diretamente a efetividade da investigação.
DA REPORTAGEM — A maioria das vítimas é de homens (394 contra 13 mulheres). O que explica essa diferença?
Rodrigo Vessoni — A explicação é simples: a maioria dos membros das torcidas organizadas são homens. Isso se reflete diretamente nas estatísticas de violência.
DA REPORTAGEM — Armas de fogo foram usadas em 287 mortes. O que isso revela sobre a letalidade da violência?
Rodrigo Vessoni — O uso de armas de fogo cresceu nos últimos anos. Até meados dos anos 90, isso era raro. Depois, virou algo quase corriqueiro nas brigas de torcidas. Inclusive, há críticas entre torcidas rivais sobre o uso de armas, como se fosse uma “trapaça”, mas a verdade é que se tornou uma prática comum e letal.
DA REPORTAGEM — São Paulo lidera o ranking de mortes com 67 casos, seguido por Rio Grande do Norte (47) e Goiás (41). O que explica isso?
Rodrigo Vessoni — São Paulo lidera naturalmente, por ser o estado mais populoso. Mas chama a atenção o número elevado em estados menores, como Rio Grande do Norte e Goiás, onde as rivalidades locais são muito fortes. Nesses lugares, a violência também é alimentada pela falta de ações preventivas.
DA REPORTAGEM — Por que estados menos populosos registram tantas mortes?
Rodrigo Vessoni — Acredito que isso está ligado à certeza da impunidade e à falta de prevenção. Quando ninguém é punido, mais gente se sente à vontade para cometer violência. A impunidade motiva a repetição dos crimes.
DA REPORTAGEM — A década de 2010 teve o maior número de mortes (234). O que aconteceu nesse período?
Rodrigo Vessoni — A violência começa a crescer nos anos 90, mas tem outro pico nos anos 2010. As redes sociais contribuíram muito para isso. Elas ampliaram rivalidades, espalharam ódio e aproximaram torcidas inimigas de diferentes estados, criando novos focos de conflito.
DA REPORTAGEM — A década de 2020 apresenta queda (58 mortes até janeiro de 2025). O que explica essa redução?
Rodrigo Vessoni — Talvez o número dos anos 2010 tenha sido um ponto fora da curva. O que vemos agora pode ser um retorno à média. Não acho que seja um sinal claro de melhora, mas sim de que houve um período anterior especialmente violento.
DA REPORTAGEM — Algum país pode servir de modelo para o Brasil na gestão da segurança nos estádios?
Rodrigo Vessoni — Acho difícil usar outro país como exemplo. Cada um tem sua realidade, sua cultura, suas torcidas. O que o Brasil precisa é encontrar sua própria forma de lidar com isso. E a única solução possível, na minha opinião, é punir o CPF: identificar o responsável, aplicar uma legislação dura e garantir que ele fique preso. Se três forem presos por muito tempo, mil se sentirão desencorajados. É assim que se combate esse tipo de violência. Porque hoje, quando o torcedor sabe que vai ser solto logo depois de ser preso, ele se sente à vontade para repetir o crime.


