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Segundo o boletim de ocorrência, policiais dispararam 13 vezes, inclusive com fuzil, contra Jonatas Davi da Costa Oliveira, 19; uma testemunha afirma que ele estava rendido
A família de Jonatas Davi da Costa Oliveira, de 19 anos, reuniu o pouco de dinheiro que tinha guardado e pagou uma tanatopraxia — técnica avançada de conservação, higienização e restauração de corpos — para que todos pudessem se despedir do jovem em seu velório sem reduzi-lo à violência que sofreu.
Na noite de 31 de janeiro de 2026, Jonatas saiu de casa com um amigo em uma motocicleta emprestada e não voltou. Baleado, teve dentes quebrados e parte do rosto deformada por disparos: “Ele tinha um sorriso lindo. Doeu muito o que fizeram com o sorriso dele”, lamenta a irmã, Mirian Mariana, 23.
Familiares denunciam que policiais militares das Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas (ROTAM) atiraram mesmo com Jonatas rendido na rua Juri Danilenko, no bairro Guarituba, em Piraquara, região metropolitana de Curitiba (PR).
Na véspera, ele havia dito aos parentes que tinha sido ameaçado por policiais durante um enquadro. Desde então, a própria família tem vivenciado abordagens sem motivo e a presença de viaturas da PM em endereços que ele costumava frequentar.
Neste sábado (28/2), familiares realizaram uma manifestação pedindo “Justiça por Tim Maia”, apelido de infância de Jonatas, em frente ao local onde o crime aconteceu, há quase um mês.

PMs atiraram 13 vezes
Segundo o boletim de ocorrência registrado na na Delegacia de Piraquara pela Polícia Civil do Paraná (PCPR), policiais da ROTAM estavam a caminho de outra ocorrência quando avistaram um homem, em uma motocicleta com “um volume na cintura assemelhando-se a uma arma de fogo”. Tratava-se, segundo os agentes, de Jonatas.
Ainda conforme o boletim de ocorrência, os policias iniciaram o acompanhamento após o jovem demonstrar “demasiado nervosismo acelerando a motocicleta e olhando a todo momento para trás”. O documento descreve uma perseguição pelas ruas do bairro. Durante o trajeto, ele “se desfez de um objeto plástico lançando-o próximo ao passeio da via”, até perder o equilíbrio e cair da moto.
Após a queda, segundo o relato policial, Jonatas teria ido em direção a um dos agentes e sacado uma arma que estaria em sua cintura. O boletim afirma que “não restando outra alternativa a não ser o revide a injusta e iminente agressão através de seus armamentos institucionais”.
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Naquela noite, de acordo com o registro da ocorrência, os três soldados dispararam 13 tiros — sendo cinco deles de fuzil.
O documento indica que Jonatas apresentava sinais vitais quando o Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma em Emergência (SIATE) chegou ao local, mas a morte foi constatada em seguida.
Segundo a Polícia Militar, foi apreendido com ele uma arma Taurus calibre .38 e R$ 634. Outra equipe disse ter localizado 341 gramas de haxixe no pacote que, segundo o boletim, teria sido descartado durante a fuga.
A ocorrência foi registrada como porte ilegal de arma de fogo, tráfico de drogas, resistência e desobediência. Não há, no boletim, menção à instauração de procedimento para apurar os disparos efetuados pelos policiais.
Certidão não confirma “diversas passagens”
Os policiais envolvidos na morte de Jonatas afirmaram em depoimento que ele era reconhecido por “diversas passagens pelo meio policial”, entre elas roubo, tráfico de drogas, sequestro e participação em um duplo homicídio. A família contesta a afirmação e nega que o jovem tivesse uma extensa ficha criminal.
Uma certidão de antecedentes criminais emitida pelo Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) 46 dias antes da morte, obtida pela Ponte, registra dois apontamentos de menor gravidade e não indica ocorrências por roubo, sequestro ou homicídio.
A reportagem acessou os autos de um processo contra o jovem por dirigir sem Carteira Nacional de Habilitação (CNH), nos quais conta a certidão emitida por uma técnica judiciária TJ-PR.
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O documento aponta dois registros: uma ocorrência por posse de droga para consumo pessoal, de maio de 2025, arquivada no mês seguinte, sem que houvesse denúncia; e um termo circunstanciado referente ao processo por dirigir sem CNH, aberto em dezembro de 2025, também sem denúncia. No campo “já foi indiciado”, conta a resposta “não”.
Em janeiro, ainda, Jonatas assinou um segundo termo circunstanciado por posse de drogas para consumo pessoal. Acessamos o processo, que tinha audiência marcada para outubro de 2026.
Mirian, uma entre os seis irmãos, conta que Jonatas foi apreendido quando adolescente, durante um roubo, e cumpriu medida socioeducativa. Sendo ela, foi a primeira e única vez em que se envolveu em um ato infracional de maior gravidade.
A Ponte solicitou posicionamento à Secretaria de Segurança Pública do Paraná (SSP-PR) sobre as informações registradas no boletim de ocorrência. Até a publicação da matéria, não houve retorno.

Perseguição constante
Para a irmã, a morte de Vica, como também era chamado pela família, embora dolorosa, não foi surpresa: as abordagens violentas e ameaças eram constantes, muitas vezes presenciadas pelos próprios familiares.
Na véspera do crime, Jonatas contou ter sido enquadrado por policiais e ameaçado. De acordo com Mirian, os agentes o levaram para fora do campo de visão da rua durante a abordagem e disseram que o prenderiam mesmo sem encontrar nada ilícito. Ele começou a gritar para uma senhora que passava e, diante da presença de outras pessoas, foi liberado.
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Por conta desse histórico, Jonatas evitava andar sozinho à noite: “Ele sabia que se a polícia pegasse ele sozinho, sem ninguém ver, iam fazer alguma coisa”, diz à irmã. Por isso, em 31 de janeiro, chamou um amigo para ir até um posto de gasolina abastecer a motocicleta emprestada que usaria em um trabalho. Ao perceberem a presença de policiais, saíram — cada um em uma moto diferente.
Mirian soube da dinâmica por meio desse amigo de Jonatas, que afirmou que a viatura não acionou sirene nem deu voz de parada. Segundo ele, o carro se aproximou pela traseira e empurrou a motocicleta, forçando Jonatas a acelerar. “Para ele não cair, ele tinha que continuar acelerando”, explica Mirian. Ele seguiu até cair em frente a uma farmácia.
Vídeos registram parte da abordagem
A abordagem a Jonatas foi gravada por pessoas que estavam no local. Em um dos vídeos obtidos pela Ponte, uma viatura da Polícia Militar do Paraná aparece próxima à farmácia quando outra se aproxima em alta velocidade (veja vídeo acima).
Nesse momento, é possível ouvir dois tiros. Uma pessoa diz “ó, deram tiro”, e, em seguida, há uma sequência de outros barulhos semelhantes. “Já matou, já matou, já era. Foram cinco ou seis tiros”, diz um homem que acompanha a cena. Antes de ser interrompido, o vídeo registra ainda outra viatura se aproximando em alta velocidade. Não é possível ver Jonatas ou policiais individualmente.
Para a família, o vídeo é fundamental. Eles negam que Jonatas estivesse armado e afirmam que ele foi baleado já rendido. Segundo Mirian, o amigo que o acompanhava relatou ter visto Jonatas ajoelhado — gesto que, de acordo com ela, era habitual durante abordagens, junto com o ato de tirar a camiseta para mostrar que não carregava nada.
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Ainda conforme o relato da irmã, quando o amigo pegou o celular para avisar o dono da motocicleta sobre a abordagem, acreditando se tratar de mais um enquadro, ouviu os disparos. “Olhou para trás e ele já tinha executado meu irmão, que já estava rendido”, disse Mirian, referindo-se a um dos policiais. O amigo não foi abordado em nenhum momento. “O foco era ele [Jonatas]”, afirma.
Algum tempo depois, a mãe de Jonatas chegou ao local e, segundo familiares, foi recebida com truculência. Em vídeos enviados em grupos de familiares e acessados pela Ponte, ela afirma que policiais utilizavam spray de pimenta e ameaçavam prender pessoas que tentavam ajudá-la.

Família não teve acesso ao laudo do IML
Até o fechamento da reportagem, a família de Jonatas não tinha tido acesso ao laudo do Instituto Médico Legal (IML), que detalha as causas e circunstâncias da morte. A Ponte também não teve acesso ao documento.
Quase um mês após a morte de Jonatas, a Ponte procurou o Ministério Público do Estado do Paraná (MP-PR) para saber se o inquérito policial havia sido encaminhado ao órgão. Em 25 de fevereiro, o MP informou por e-mail que: “o inquérito policial ainda não foi remetido ao Ministério Público”.
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Seis dias depois, nesta segunda-feira (2/3), a reportagem voltou a questionar se a situação havia mudado e se a demora no envio do inquérito poderia comprometer provas, como as imagens do circuito de segurança da farmácia.
A resposta veio nesta quarta-feira (4/3). Em nota, o MP-PR afirmou que o inquérito “já foi relatado pelo Delegado de Polícia” e que o caso será analisado pela 4º Promotoria de Justiça de Piraquara, que “irá se manifestar sobre o caso exclusivamente nos autos”.
A advogada Talyta Plytiuk, que representa a família, relatou reiteradas tentativas de contato com a delegacia e com o delegado Thiago Andrade dos Santos, responsável pelo caso, sem retorno. Segundo Mirian, o número do inquérito foi inicialmente repassado de forma incorreta à família, e a mãe de Jonatas precisou se deslocar pessoalmente à delegacia mais de uma vez para obter a informação correta. O boletim de ocorrência foi disponibilizado apenas após o enterro.
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As imagens das câmeras de segurança da farmácia, que podem ter registrado de forma direta o que ocorreu na noite de 31 de janeiro, também não foram acessadas pela família. O estabelecimento, segundo familiares, recusou-se a liberar voluntariamente as gravações.
Por isso, o deputado estadual Renato Freitas (PT-PR) incluiu em um ofício encaminhado à 4ª Promotoria de Justiça de Piraquara um pedido para que o Ministério Público requisite as imagens — alertando para o risco de perecimento das gravações. No documento, o parlamentar também aponta inconsistências no boletim de ocorrência e solicita medidas protetivas à família que, segundo ele, estaria sendo coagida por viaturas da Polícia Militar.
Viaturas circulam nas proximidades da casa da família
Na terça-feira (24/2), quase um mês após a morte, dois familiares de Jonatas foram abordados pela Polícia Militar e registraram parte da ocorrência com o celular. O vídeo mostra o carro da família se aproximando de uma viatura (prefixo 18023), enquanto dois agentes desembarcam com armas em punho apontando para o veículo. Desde a morte de Jonatas, abordagens e rondas nas proximidades das moradias da família se tornaram frequentes, segundo relataram à Ponte.
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Câmeras de segurança instaladas em frente à residência de uma parente filmaram viaturas da Polícia Militar passando pelo endereço em pelo menos seis ocasiões entre 2 e 5 de fevereiro, todas em velocidade reduzida.
Duas das viaturas registradas pelas câmeras, de prefixos 17856 e 17300, também constam no boletim de ocorrência da morte de Jonatas como veículos de apoio à ação da ROTAM. A viatura 17856, em especial, aparece em dois dos seis registros das câmeras, nos dias 2 e 5 de fevereiro. Ela também é vista em uma gravação feita por celular, na qual um policial filma a residência.
A rua onde as imagens foram registradas fica a cerca de sete minutos da 1ª Companhia do 29º Batalhão da Polícia Militar, responsável pelo policiamento da área. A sede do batalhão, onde também atuam as equipes da ROTAM envolvidas na ocorrência que resultou na morte de Jonatas, está a aproximadamente 19 minutos do local.
“Nosso luto é luta”

Jonatas cresceu no bairro Guarituba e morou em uma ocupação na rua Andorinhas entre 2019 e o fim de 2025. Segundo Mirian, o local era constante alvo de abordagens policiais. “É de praxe a polícia enquadrar. Vai ver andando e vai enquadrar. Isso sempre acontecia com ele, mas nunca achavam nada”, relata. Para a irmã, a marcação tinha uma razão clara: “Ele nunca desrespeitou, mas também não abaixava a cabeça para o policial. Olhava no olho, sabe? E isso acabou virando uma coisa muito pessoal”, explica.
O apelido Tim Maia, citado no B.O e nos cartazes pedindo justiça, veio da infância. Houve uma época em que deixou o cabelo crescer — liso, mas volumoso. “Parecia até um black”, lembra Mirian. Não demorou muito para os amigos o compararem com o cantor, conhecido internacionalmente por sucessos como “Gostava Tanto de Você”. “Foi um apelido de criança entre amigos, e ficou a vida inteira”, diz ela, saudosa. Para a família, Jonatas também era Vica ou Davi.
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Antes de ser morto, estava montando uma casa para morar com a companheira. Tinha um cuidado especial com os irmãos mais novos e guardava um sonho antigo. “Fazer alguma coisa para as crianças de lá [da ocupação], porque a gente já sofreu muito, sem saneamento básico, sem rua, sem nada, morando em barraco”, relembra Mirian.
Agora, dos seis irmãos, restam cinco. “Nosso luto é luta”, sintetiza. “Meu foco é fazer justiça, nem que eu engula todo o meu sofrimento e depois, choro no banho e desabo, que seja. Mas agora vai ser desse jeito”.

O que dizem as autoridades
A Ponte procurou o Ministério Público do Estado do Paraná (MP-PR), a Secretaria da Segurança Pública do Paraná (SSP-PR) e também a Maxifarma, empresa responsável pela farmácia.
Em resposta por e-mail, o MP-PR informou que o inquérito policial foi relatado pelo delegado responsável e que a 4ª Promotoria de Piraquara irá se manifestar sobre o caso exclusivamente nos autos.
À SSP-PR, enviamos sete questionamentos centrais: incluindo a origem das informações que atribuíram crimes à Jonatas no boletim de ocorrência, a justificativa para a presença de viaturas das PMs envolvidas na ação na residência de familiares e se a Corregedoria instaurou procedimento para apurar a conduta dos agentes.
A pasta informou que “foi instaurado Inquérito Policial Militar (IPM) para apuração dos fatos” e que os policiais envolvidos foram “realocados em funções administrativas”. Além disso, que a Polícia Civil “realizou a coleta de imagens de câmeras de segurança e a oitiva de testemunhas, de policiais militares e inclusive da mãe da vítima”. A secretaria, contudo, não respondeu sobre os crimes atribuídos à Jonatas, tampouco sobre as denúncias de viaturas rondando a casa de familiares.
A reportagem tentou contato telefônico com a unidade da Farmácia Maxifarma na rua Juri Danilenko, mas não obteve retorno. Por e-mail, questionou a rede sobre o motivo de o estabelecimento se recusar a entregar voluntariamente as imagens das câmeras de segurança à família de Jonatas, se as gravações foram requisitadas e entregues à Polícia Civil e se o Ministério Público já havia solicitado formalmente as imagens. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.

