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Cinco adolescentes estão entre as 78 pessoas mortas por policiais no estado; secretário Osvaldo Nico afirma à Ponte que o compromisso da pasta “é com a legalidade”.
Na noite em que parte dos brasileiros usava roupas brancas — cor que simboliza paz e harmonia — e se preparava para começar um novo ano com o pé direito, a família do adolescente Taisson Fernando Nascimento dos Santos, de 13 anos, vivia o sentimento oposto: a desesperança de uma vida interrompida cedo demais.
Morto com três tiros — um deles de fuzil — por policiais militares em Sorocaba, no interior de São Paulo, o adolescente estava em um veículo com queixa de furto junto de outras duas pessoas, na noite de 31 de dezembro de 2025, véspera de Ano-Novo, segundo reportagem do g1.
Ainda de acordo com a reportagem, um revólver calibre .38 foi apreendido e atribuído ao adolescente pela Polícia Militar. A arma estava com nove munições íntegras, ou seja, sem sinais de disparos. Em entrevista ao g1, a mãe do jovem, Roberta Fernanda dos Santos, afirmou que o filho não possuía arma de fogo e nem sabia manusear esse tipo de equipamento.
SP tem janeiro mais letal em seis anos
Em janeiro, Taisson integrou a estatística. Para a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP), ele é uma das linhas destinadas aos casos de Morte Decorrente de Intervenção Policial (MDIP) que, segundo a pasta, é “toda morte que ocorreu em decorrência de uma ação policial envolvendo Policial Militar ou Civil da ativa”, esteja o agente de folga ou em serviço.
No primeiro mês de 2026, a SSP-SP contabilizou 78 registros de MDIP — o maior número para um janeiro desde 2020 (86) e mais que o dobro do registrado no mesmo período do ano anterior, 2025 (38). Entre as vítimas, 55% são negras (43) – pretas (11) e pardas (32) – 35% são brancas (27) e as demais tiveram a raça ignorada (8).
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Entre as 78 mortes, 10 foram cometidas por policiais de folga e 68 por agentes em serviço. Em 76 dos casos, as mortes foram praticadas por policiais militares; em dois, por policiais civis. As ocorrências aconteceram em maior número na capital (34), no interior (30, no litoral (14) e na Grande São Paulo (10).
Entre novembro de 2024 e setembro de 2025, os registros mensais de MDIP não ultrapassaram 74 mortes, e houve períodos de queda consecutiva — como de abril (70) a julho (58) de 2025. Em janeiro de 2025, foram registradas 38 mortes, até o pico em em novembro do mesmo ano (103).
No dia 2 de dezembro, mês em que foram registradas 82 mortes, o ex-delegado-geral da Polícia Civil, Osvaldo Nico Gonçalves, assumiu a SSP-SP, substituindo Guilherme Derrite (PP-SP), que retomou seu mandato como deputado federal.
Nenhum militar havia estado à frente da pasta desde o fim da ditadura militar, como contou a Ponte nesta reportagem. O hiato quebrado com a escolha de Derrite, ex-capitão da PM expulso das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota), força de elite da polícia paulista. A gestão foi marcada por operações de alta letalidade.
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Para Rafael Rocha, coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, o ex-secretário Guilherme Derrite era “um apologista da letalidade policial”. Já Osvaldo Nico Gonçalves não tem esse perfil e tende a ser mais aberto ao diálogo, avalia Rocha. “Não vou falar que é um cara progressista, mas não é um cara que fica falando que a polícia tem que matar o tempo todo”, exemplifica.
Apesar dessa mudança de perfil no comando da secretaria, os dados de letalidade policial continuaram elevados. Em janeiro de 2026, por exemplo, o estado registrou 78 mortes decorrentes de intervenção policial, mais que o dobro do contabilizado no mesmo mês do ano anterior.
Polícia comete quase 3 em cada 10 homicídios em SP
O segundo mês de liderança de Osvaldo Nico também bateu outro infeliz recorde: 28% dos homicídios dolosos no estado foram cometidos por policiais — quase três em cada dez casos. Trata-se do maior percentual para um janeiro em toda a série histórica desde 2013, superando a taxa de 24% registrada em 2017 e 2020.
Estudos conduzidos pelo sociólogo Ignácio Cano indicam que, quando as mortes causadas por agentes do Estado ultrapassam cerca de 10% do total de homicídios, isso pode ser um sinal de uso excessivo da força policial. Já pesquisas associadas ao trabalho do pesquisador Paul Chevigny apontam que acima de 7% já podem indicar padrões abusivos. A taca registrada em São Paulo é quase três vezes maior que o primeiro parâmetro e quatro vezes superior ao segundo.
A Ponte conversou com o secretário de segurança pública por telefone, em uma ligação via WhatsApp. Sobre os dados, disse: “A gente não quer confronto”. Osvaldo Nico atribuiu o aumento da letalidade a “mais trabalho, mais policial na rua, mais operações” realizadas pelas forças de segurança, o que, segundo ele, acaba por gerando “mais confronto e aumenta tudo [nas estatísticas]”.
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Nico também afirmou estar aberto ao diálogo com a imprensa, inclusive com veículos críticos à violência de Estado. Disse que, em sua gestão, “não tem frescura”. “Eu não tenho viés político. Se chegar uma vítima de sequestro, eu não vou perguntar em quem ela votou. Nós temos compromisso com a legalidade”, afirmou.
Mortes de adolescentes voltam a crescer
Entre as vítimas de janeiro estão cinco adolescentes de até 17 anos — dois identificados pretos, um pardo, um branco e um com raça ignorada no registro. O dado segue a tendência observado no conjunto dos casos: janeiro de 2026 apresentou o maior número de adolescentes mortos nesse mês desde 2020 (6).
Taisson é um dos casos que integra a lista, mas houve também uma ocorrência em Limeira, no interior de São Paulo, em que dois adolescentes foram mortos pela polícia na mesma noite. Em reportagens publicadas à época, eles foram descritos como “suspeitos mortos em confrontos com a PM” e como uma “dupla morre em confronto com militares da força tática”. Os textos não mencionavam que tinham 16 e 17 anos.
A reportagem analisou o número de adolescentes vítimas da violência de Estado tomando como base o mês de janeiro, entre 2013 a 2026. A série histórica disponibilizada pela SSP revela que um adolescente de 13 anos não morria em intervenção policial no mês de janeiro desde 2014 e de um de 14 anos desde 2013.
Para Rocha, o aumento de mortes de adolescentes representa um marco no processo de retrocesso no uso da força pelas polícias paulistas. Entre 2017 e 2019, segundo ele, era comum ver jovens envolvidos em ocorrências de roubo ou furto de veículos em que “fugiam da polícia, a polícia pegava e matava todos”.
Com a adoção das câmeras corporais, a partir de 2021, esse padrão começou a mudar. A redução de mortes de adolescentes foi proporcionalmente maior do que a observada no restante da população, diz Rafael, porque casos em que a morte era completamente evitável deixaram de acontecer. Os policiais, filmados, passaram a ser responsabilizados e denunciados.
Pós-Derrite, afirma Rocha, a Polícia Civil parou de conduzir investigações robustas e comissões internas da Polícia Militar responsáveis por avaliar riscos deixaram de divulgar dados públicos. Com isso, segundo ele, “estamos voltando a mortes evitáveis, mortes que a polícia não precisa cometer”, explica o especialista. São ocorrências, em que, de acordo com o pesquisador, a polícia tem condições de controlar a situação, recuperar o bem material e prender os suspeitos sem matar.
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Para ele, São Paulo conta com um dos sistemas de rastreamento veicular mais robustos do país — o Muralha Paulista. Em sua percepção, perseguições não são necessárias, uma vez que o veículo é rastreável, tecnologia que permite uma abordagem mais cuidadosa. “Você não precisa sair numa ocorrência desvairada, porque consegue rastrear aquele carro por quilômetros e fazer uma abordagem mais cuidadosa”, diz, lembrando que isso também protege os próprios policiais.
Sobre os dados envolvendo adolescentes vítimas, Osvaldo Nico se limitou a dizer que “tem alguns menores que estão no crime” e atiram na PM “causando confrontos”.
Controle da polícia
O coordenador de projetos do Sou da Paz levanta duas hipóteses para explicar a incompatibilidade entre discurso e ação nas lideranças de Derrite e Nico, a partir dos números de janeiro. A primeira seria um possível incentivo velado à letalidade, a despeito do discurso público mais moderado de Nico.
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A segunda hipótese é que “a PM pode estar mandando um recado [para o atual secretário]”, diz. Nesse cenário, o aumento da letalidade indicaria uma demonstração de autonomia da corporação, mesmo após a troca no comando da secretaria. Para Rocha, se esse for o caso, a questão passa a ser como Nico vai conduzir a situação: “puxar o freio de mão ou abaixar a cabeça para a Polícia Militar”, analisa.
A reportagem da Ponte questionou Nico se o aumento da letalidade poderia ser interpretado como uma resposta da Polícia Militar, ao que o secretário respondeu de maneira enfática: “De jeito nenhum”. Para ele, sua atuação é “uma continuidade do trabalho”, já que “faz três anos que estou aqui, acompanhei todas as operações”, entre elas, a Operação Verão e a Operação Escudo.
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Diante das reiteradas declarações de compromisso com a legalidade, a reportagem questionou se o secretário está preparado para responsabilizar abusos policiais e investigar os crimes com rigor: “Nós temos uma corregedoria muito forte, que corta na raiz”, respondeu.
Monitoramento do MP
Além da SSP-SP, cujos dados a Ponte toma como referência, o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), que tem entre suas atribuições constitucionais o dever de exercer o controle externo das polícias, também registra números de mortes decorrentes de intervenção policial. Esses casos são contabilizados pelo Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp).
Em geral, os números do MP-SP são divulgados antes dos da SSP-SP — a pasta consolida os dados de letalidade policial apenas ao final do mês seguinte ao de divulgação. O Gaesp também registou 78 mortes cometidas pelas polícias em São Paulo em janeiro de 2026.
O que dizem as autoridades
A Ponte questionou a SSP-SP sobre os dados de letalidade policial em janeiro de 2026, os critérios para uso de força letal em ocorrências envolvendo veículos furtados ou roubados, o andamento das investigações dos casos de Sorocaba e Limeira e eventuais mudanças de orientação na política de segurança pública sob a nova gestão.
Em nota, a pasta afirmou que todas as mortes decorrentes de intervenção policial são investigadas pelas polícias Civil e Militar, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Judiciário. A secretaria também destacou ações voltadas à redução da letalidade, como revisão de protocolos operacionais, capacitação de agentes, ampliação do uso de equipamentos de menor potencial ofensivo e expansão das câmeras corporais. Segundo a SSP, desde 2023 mais de 1,2 mil agentes foram presos, demitidos ou expulsos das corporações.
Leia nota da SSP-SP na íntegra
Os casos citados pela reportagem são investigados pelas polícias de Limeira e Sorocaba, que atuam para o total esclarecimento dos fatos. Cabe ressaltar que todas as ocorrências de mortes decorrentes de intervenção policial (MDIPs) são investigadas com rigor pelas Polícias Civil e Militar, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário. Além disso, a SSP mantém ações contínuas para reduzir a letalidade e responsabilizar desvios de conduta. Desde 2023, mais de 1,2 mil agentes foram presos, demitidos ou expulsos das corporações.
A pasta mantém ações permanentes voltadas ao aperfeiçoamento do trabalho policial e à redução da letalidade, com revisão de protocolos operacionais, capacitação dos agentes e uso de tecnologia. Foram ampliados os investimentos em equipamentos de menor potencial ofensivo, como espargidores, bastões retráteis e armas de incapacitação neuromuscular, com a aquisição de 3.500 unidades desse tipo, em investimento superior a R$ 27,8 milhões.
Além disso, o Estado modernizou e expandiu o sistema de Câmeras Operacionais Portáteis (COPs), que permite acompanhar em tempo real as ações policiais, reforçando a transparência e o controle das operações. Outro avanço é a implantação do Programa Muralha Paulista, que integra inteligência, tecnologia, bancos de dados e reconhecimento facial, possibilitando a localização e a prisão de criminosos com menor necessidade de emprego da força.


