Share This Article
Matheus Conceição trabalhava no Centro de São Paulo quando foi alvo de guardas civis; episódios de violência de forças de segurança foram registrados pelo país
“Por que a polícia estava te batendo, pai?” — foi a pergunta que um dos filhos do comerciante Matheus Conceição, de 27 anos, fez ao vê-lo assistindo ao vídeo em que guardas civis metropolitanos o agridem e levam sua mercadoria durante o carnaval de São Paulo, na terça-feira (17/2).
Leia também: Ambulante haitiano é agredido por guardas civis no centro de Osasco (SP)
Matheus tinha todos os documentos em ordem, conta. Credenciado pela Skol e autorizado pela Prefeitura de São Paulo a comercializar bebidas alcoólicas durante a folia, ele havia feito um empréstimo de dinheiro com pessoas próximas para comprar os produtos e pedido emprestado o carrinho do primo. A intenção era levantar uma grana durante a data festiva para pagar contas em atraso.
Por volta das 15h, saiu de casa para aproveitar o movimento de foliões no centro da cidade. Parou próximo ao Largo do Arouche, onde uma briga entre a Guarda Civil Metropolitana (GCM) e foliões tinha acabado de começar. Logo em seguida, vieram os agentes.
Matheus conta que os guardas o abordaram com truculência, segurando seus braços, na tentativa de imobilizá-lo para apreender suas mercadorias. Ao tentar resistir e explicar que era credenciado, foi agredido com diversos golpes de cassetete, inclusive pelas costas, além de ser alvo de gás de pimenta.

“Já começaram a pegar o meu carrinho, falando que estava apreendido, e em momento algum quiseram saber se eu sou credenciado, se eu tenho licença, se o meu carrinho tem alguma irregularidade”, lembra. Também não explicaram o que ele havia feito de errado, ou o motivo da apreensão.
Leia também: Guardas agridem vendedor com deficiência e apreendem mercadorias
Mais de quatro GCMs, além de agentes da Prefeitura, participaram da abordagem, gravada pela equipe da vereadora Amanda Paschoal (PSOL-SP) e publicada no Instagram da parlamentar.
Com o carrinho apreendido, Matheus precisou pedir dinheiro a estranhos para pagar a passagem de volta. “Passei por duas humilhações. Aquela [da abordagem] e a de pedir dinheiro no metrô para poder voltar”, desabafa.
“Eu só queria trabalhar”
O prejuízo financeiro ultrapassou R$ 2 mil e não afetou só Matheus: o carrinho apreendido era emprestado de um primo, que pediu cuidado no manuseio já que “necessita dele e eu não tenho condições de ressarcir o valor”, lamenta.
Os danos não se limitam ao âmbito financeiro. “Eu tô com medo de voltar [a trabalhar]. Mexeu com minha estrutura emocional, mexeu com meu sentimento, com minha família, com meus filhos”, desabafa.
Ao ser questionado pelas crianças de 4 e 7 anos sobre as agressões não soube responder, já que ele mesmo não entende o motivo. O que sente e nomeia é a humilhação. Em seu entendimento, a violência que sofreu pode confundir os filhos, pois somos ensinados que se “uma pessoa que apanha da polícia, então provavelmente algo errado ela está fazendo.”
Leia também: Pior que a PM’: em abordagem da GCM, filha perdeu um olho e pai parte da visão
Essa inconsistência entre o papel de proteção ao trabalhador, que deveria ser exercido pelos agentes de segurança, e o de agressores, o faz dormir pouco e sentir medo. “Eu posso pensar em fazer uma denúncia, entrar com processo, e acabar perdendo até a minha vida”, resume.
“Quando se trata da polícia, eu tenho mais medo deles agora do que dos ladrão.” Ele explica o raciocínio: o ladrão rouba e vai embora, some na multidão. O policial volta todo dia, fardado, representando o Estado. “De qual lado que eu vou ficar? Eu não consegui entender qual que seja o pior.”
Violência fica fora da resposta oficial
O questionamento feito por Matheus, também foi feito pela Ponte à Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU) da prefeitura de Ricardo Nunes (MDB) responsável pela Guarda Civil Metropolitana (GCM).
Em nota, a pasta não respondeu sobre a ação violenta e se limitou a informar que as mercadorias apreendidas ficam disponíveis por 30 dias, conforme a Lei nº 12.468/2002, para que o responsável solicite a retirada mediante a apresentação da documentação exigida.
Leia também: Vídeo mostra GCMs prendendo homem em flagrante forjado no centro de São Paulo
A SMSU informou ainda que a GCM prestou apoio à Subprefeitura da Sé em uma fiscalização de comércio irregular no Largo do Arouche.
A vereadora Amanda Paschoal anunciou que vai denunciar o caso ao Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP). Em publicação no Instagram, ela afirmou que, além da CPI do carnaval que propôs na Câmara Municipal, ela e a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) estão levando “este e outros casos” ao MP.
O que as notas de posicionamento tratam como caso isolado, contudo, é sistemático.
GCM lança bombas durante dispersão de bloco
Também na terça (17/2), foliões que curtiam os momentos finais do bloco Vai Quem Qué, um dos mais tradicionais do bairro do Butantã, na zona oeste de São Paulo, foram surpreendidos por bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo disparados pela GCM. Parte da ação foi filmada e publicada no perfil do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), no Instagram.
O psicanalista Raphael Sponton, 35, passou o dia festejando pelas ruas do bairro ao lado da companheira. Por volta das 18h, fizeram parada para se alimentar num restaurante na Avenida Corifeu de Azevedo Marques, quando “num dado momento eu ouvi uma bomba estourando” e, imediatamente, “um certo pânico se alastrar ali”, relembra.
Foliões começaram a pedir abrigo no estabelecimento onde também estavam idosos e um recém-nascido. Na tentativa de entender o tumulto, Raphael foi em direção à GCM, mas os agentes “já estavam com arma na mão, não apontando pra gente, mas com arma na mão, gesticulando com a mão pra frente, como se não fosse pra chegar perto”.
O bloco, que existe desde 1981, afirmou em nota publicada no Instagram ter cumprido à risca as determinações da prefeitura, como horário e trajeto. O órgão municipal, por sua vez, não entregou os banheiros químicos prometidos para o evento, denunciam.
Leia também: Promotores pedem fim de abusos de poder da GCM na região central de SP
“A dispersão estava acontecendo tranquilamente. As pessoas, com suas famílias e amizades, crianças, velhinhos e PcDs, estavam se encaminhando para os restaurantes e bares da região, felizes e se divertindo. A Guarda Civil Metropolitana começou uma dispersão agressiva, com gás de pimenta. Um dos nossos integrantes, que foi tentar dialogar com a GCM, foi espancado”, diz a nota.
A Prefeitura informou que “durante a ação de dispersão, houve resistência pontual e arremesso de objetos contra a equipe, que atuou dentro dos protocolos de segurança para restabelecimento da ordem”. Dois agentes ficaram feridos e foram encaminhados ao Hospital do Rio Pequeno, segundo o órgão municipal.
Em outra publicação, o Vai Quem Qué também questionou o órgão municipal ao afirmar que, ao contrário do que dizia a nota da prefeitura, não existe um Hospital do Rio Pequeno, e cobrou esclarecimentos sobre onde os guardas teriam sido atendidos. Os organizadores também perguntaram qual a justificativa para São Paulo ser a única cidade do país a encerrar o carnaval de rua às 18h e por que a GCM teve pressa em retirar as pessoas da rua Boturoca após o fim do desfile, antes mesmo de esgotada a uma hora prevista para a dispersão.
No post, uma pessoa que participava do bloco relatou a ação da GCM: “Absolutamente do nada, começaram a jogar bombas em nós. O que eles queriam? Que as pessoas desaparecessem? Dói, viu? Bomba dói, minha garganta tá doendo até agora.”
PMs aplicam mata-leão durante dispersão
Ainda em São Paulo, outro bloco também encerrou a terça-feira (17/2) sob violência. Um vídeo mostra policiais militares agredindo um cadete do Exército durante a dispersão do bloco Solteiro Não Trai, nos arredores do Ibirapuera, em Moema, zona sul da cidade.
Primeiro, o homem leva uma rasteira e resiste. Os policiais então aplicam um golpe conhecido como mata-leão — prática banida pela SSP-SP em 2020, mas que, segundo apuração da Ponte, ainda consta nos manuais da corporação. Em seguida, os agentes o seguram pelos braços e pernas enquanto ele recebe golpes incessantes de cassetete. Em determinado momento, o homem desmaia.
Leia também: Exclusivo: PM-SP volta atrás na proibição do ‘mata-leão’ e diz que manual interno não exclui golpe
Segundo o Instituto Conhecimento Liberta (ICL) Notícias, o cadete foi detido “sob suspeita de ter assediado uma policial militar que atuava na segurança do evento”. Além disso, “o militar teria feito gestos como enviar beijos e formar corações com as mãos em direção à agente”, diz a reportagem.
Em nota enviada à Ponte, a SSP-SP disse que “não compactua com excessos ou desvios de conduta” e que a Polícia Militar abriu procedimento interno para analisar o caso, que envolveu um cadete do Exército. A ocorrência foi registrada como desacato, resistência e lesão corporal. A Polícia do Exército ficou responsável pela custódia do militar.
PM usa spray de pimenta contra deputado
A violência não ficou restrita a São Paulo. Em Brasília, Fábio Félix, deputado distrital pelo PSOL e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa do Distrito Federal, levou spray de pimenta diretamente nos olhos disparado por um policial militar durante a passagem do bloco Rebu, no Setor Comercial Sul — conforme vídeo publicado em seu próprio Instagram.
Félix havia sido chamado pela organização do bloco para conversar com os policiais sobre a prisão de coordenadoras do evento, segundo reportagem veiculada no g1. Durante a conversa, um dos agentes acionou o spray.
Leia também: PMs agridem foliões com cassetetes após dispersão de bloco de carnaval no DF
Em nota, a PM afirmou que estava em patrulhamento quando identificou duas pessoas comercializando substância com “odor semelhante ao de maconha”. Segundo a corporação, uma das organizadoras tentou impedir a condução dos abordados, incitando pessoas próximas a agir contra os policiais — o que teria justificado o uso de “força seletiva com instrumentos de menor potencial ofensivo”.
Félix registrou boletim de ocorrência e enquadrou o caso como abuso de autoridade, lesão corporal e desacato. Na quinta-feira (19) o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) requisitou à Corregedoria-Geral da Polícia Militar do DF a instauração de inquérito policial militar para esclarecer as circunstâncias, segundo nota divulgada.
“Se as forças de segurança do DF agem dessa forma com um deputado distrital, em plena luz do dia e diante de várias pessoas que filmavam a cena, imaginem o que acontece diariamente com o cidadão que não possui as prerrogativas de um parlamentar eleito. Com quem vive nas periferias e nem sempre tem testemunhas ou câmeras por perto”, questionou.
Violência nas ladeiras de Olinda
No Nordeste, as ladeiras de Olinda, em Pernambuco — apresentadas pela própria governadora Raquel Lyra (PSD), na abertura do carnaval, como símbolo da festa “mais democrática do Brasil” — também foram palco de agressões deliberadas.
Um vídeo publicado pelo sociólogo Paulo Escobar, em seu perfil no Instagram, tem como legenda: “nas ladeiras de Olinda a PM batendo aleatoriamente nos foliões de acordo com a cor e classe social. A violência comendo solta. Carnaval pra quem?”.
A gravação, atribuída ao carnaval de 2026, mostra policiais aplicando golpes de cassetete em pessoas de forma aleatória. Durante uma revista, um rapaz com bermuda azul e cabelo loiro é agredido com socos, chutes e golpes. A Ponte solicitou uma nota à Polícia Militar de Pernambuco mas, até a publicação desta reportagem, não houve resposta.
Policial agride homem caído em SC
Em Santa Catarina, um vídeo atribuído ao domingo de carnaval mostra um homem caído na calçada enquanto um policial o golpeia com cassetete. As imagens foram publicadas pela Frente Antifascista de Santa Catarina no Instagram, com a informação de que a cena teria ocorrido na Praia do Campeche, em Florianópolis.
Segundo a legenda do vídeo, o homem estava próximo à calçada quando uma viatura passou muito perto, quase o atingindo. Ele teria questionado os policiais, que pararam o veículo e o agrediram.
Leia também: Mãe de jovem morto em bloco de Carnaval em SP afirma que ele foi espancado por PMs
A publicação ressalta que as imagens mostram apenas o momento final da ocorrência — o homem já está no chão quando a gravação começa, sem registro do que aconteceu antes.
A Ponte solicitou uma nota à Polícia Militar de Santa Catarina, que respondeu que “até o momento, não houve qualquer denúncia formal sobre o caso. Todas as denúncias são apuradas pela corregedoria de cada unidade e, conforme a legislação, oportunizado o contraditório e a ampla defesa”. Além disso, que pediu informações ao comando local.
Violência que não é exceção
Diante dos casos registrados em diferentes estados, a pergunta que persiste é: o que esses episódios revelam sobre a atuação das forças de segurança no carnaval?
Para Adilson Paes de Barros, tenente-coronel reformado da Polícia Militar de São Paulo e pós-doutor em psicologia social pela USP, não se trata de excessos pontuais, mas de um padrão institucional.
“Essas instituições se situam acima do bem e do mal e fora do tecido social. Elas se sentem tão superiores que o resto da sociedade é o resto”, pontua. Na avaliação do especialista, falta às forças de segurança apreço pela diversidade, pelo diálogo e pela convivência democrática — e isso vale tanto para a Polícia Militar quanto para as guardas civis e municipais, todas marcadas, segundo ele, por uma militarização já cristalizada.
Leia também: Vídeo mostra PMs agredindo foliões durante bloco em SP
Barros reconhece o recorte de raça e classe que historicamente orienta essa violência, mas chama atenção para um deslocamento recente: ela está chegando à classe média. “A classe média que se sentia impune a isso, que até aprovava esse tipo de violência contra a classe pobre, agora está sendo atingida também”, coloca.
Para o tenente-coronel, o que sustenta esse ciclo é a certeza da impunidade, de que serão acobertados. “Eles não estão nem aí se estão sendo filmados ou não, o local, o dia, nada, porque eles sabem que não vai acontecer nada.” O resultado, avalia, é uma crise institucional instalada, sem iniciativas à vista para revertê-la. “A situação só tende a piorar.”
Assine a Newsletter da Ponte! É de graça
O coronel da reserva e sociólogo Sugar Ray Robson Gomes, ressalta que os episódios configuram, sem dúvida, um excesso — mas separa a conduta individual dos agentes da diretriz institucional da corporação. “Em nenhum momento planeja-se qualquer conflito com os foliões. Não faz parte do planejamento da diretriz da corporação qualquer ensaio que possa provocar um conflito”, afirma.
O problema, segundo Gomes, está no fator humano. A instituição é formada de pessoas que carregam seu lado emocional — e que, em determinadas situações, acabam extrapolando aquilo que lhes cabe. Quando isso acontece, a resposta esperada é uma só: apuração rigorosa.

