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Número da letalidade policial até novembro de 2025 representou alta de 99% em relação a 2022, ano anterior à posse de Tarcísio de Freitas

O mês de novembro registrou um pico de mortes cometidas por policiais no governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Foram 103 mortos, número 34% maior em comparação com o mesmo período do ano anterior. Todas as vítimas eram homens e, entre os casos em que houve identificação da cor da pele, 55 eram negros, o que representa 53% do total. Dois adolescentes estão entre os mortos.
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O salto se torna ainda mais expressivo quando comparado a novembro de 2023, mês em que 39 pessoas foram mortas por policiais no estado, em um período marcado pela alta da letalidade durante as operações Escudo e Verão.
A mudança ocorreu em meio a um rearranjo político que extrapola a área da segurança pública. Foi no início de novembro que o então secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite (PP), se licenciou do cargo para retornar à Câmara dos Deputados e relatar o projeto de lei 5.582/25, proposto pelo governo Lula (PT) como PL Antifacção e chamado por parlamentares de Marco Legal do Combate ao Crime Organizado.
Ao final do mês, contudo, Derrite confirmou a saída definitiva da secretaria, abrindo espaço para o delegado de carreira Osvaldo Nico, que já ocupava o posto de número dois da pasta como secretário-executivo.
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Para o pesquisador Renato Alves, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP), a troca no comando da Secretaria da Segurança Pública não explica, por si só, o aumento das mortes provocadas por policiais. Segundo ele, os dados indicam a continuidade de uma mesma orientação política e institucional, independentemente de quem ocupa o cargo de secretário.
“Não mudou o perfil. O fato de ter um civil à frente da secretaria não mudou o perfil”, afirma. Para o pesquisador, “a política e a sinalização também de usar a letalidade ou até de permitir a letalidade como um instrumento de controle social é uma coisa que não mudou”.
Alves avalia que os números apontam menos para decisões individuais e mais para uma sinalização política vinda do governo. “O governador e o secretário também sinalizam o que se permite e o que não se permite ali dentro da própria polícia”, diz.
Alta de mortes em 2025
De janeiro a novembro de 2025, policiais mataram 752 pessoas. O número de mortes de janeiro a novembro do ano passado representa alta de 99% em relação a 2022, ano anterior à posse de Tarcísio. No mesmo período, foram registradas 377 mortes.
Ao analisar a série histórica de 2025, Renato Alves chama atenção para a consolidação de um patamar elevado de mortes ao longo do ano. Segundo ele, após um início com queda, os números passam a subir de forma significativa a partir de março e se intensificam no segundo semestre, especialmente entre setembro e novembro.
“Eles vinham com queda, que chegou a 38 [mortes] em janeiro, e de janeiro em diante ele vai passar de 38 para 103. Esse é um dado mais impressionante”, afirma. “De setembro para novembro sobe bastante. Em novembro vai para 103 no estado de São Paulo. Isso é muito assustador”.
Para o pesquisador, a letalidade se mantém em níveis elevados mesmo fora de grandes operações, o que reforça a hipótese de uma política continuada. “São quase duas mortes por dia”, diz.
A maior parte das mortes ocorreu durante o serviço, período em que, em tese, há maior controle do Estado sobre a atuação do servidor público. Para Alves, quando a letalidade ocorre majoritariamente em ações oficiais, isso indica uma orientação institucional, ainda que informal, que tolera o uso da força letal como prática de policiamento.
“Se ele está matando em serviço, ele está matando em nome da instituição”, afirma. Segundo Alves, há “alguma orientação, uma certa conivência ao uso da letalidade como uma forma também de policiamento”.
A maioria das ocorrências envolveu policiais militares, responsáveis por 727 mortes. Policiais civis mataram 25 pessoas. Considerando apenas os dados de novembro, das 103 pessoas mortas, 92 foram vítimas de policiais em serviço e 11 de policiais de folga.
Pulverização das mortes
As mortes provocadas por policiais em novembro ocorreram em ao menos 40 municípios paulistas, indicando um fenômeno pulverizado em diferentes regiões do estado. A capital concentrou o maior número de registros, com 33 mortes, seguida por cidades da Região Metropolitana de São Paulo, como Guarulhos (8), Osasco (4), Carapicuíba (3) e São Bernardo do Campo (4).
Ainda assim, os dados mostram que a letalidade policial não se restringiu à Grande São Paulo, com ocorrências também em cidades médias do interior, como Campinas (3), Sorocaba (2), Piracicaba (1), Franca (1), Marília (1) e São José do Rio Preto (2), além de municípios de menor porte, como Brodowski, Duartina, Piraju e Teodoro Sampaio, todos com ao menos um registro. O levantamento também aponta registros no litoral, em cidades como Guarujá, Santos e Itanhaém.
Adolescentes entre os mortos
Entre as vítimas da letalidade policial registrada em 2025 estão também adolescentes. Um deles, de 16 anos, foi morto por um policial de folga no dia 17, na capital.
A outra morte ocorreu em Santos, no litoral paulista, no dia 3. O adolescente foi morto por um policial militar. Em nota enviada à imprensa e reproduzida pelo g1 Santos, a Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) afirmou que houve confronto.
Segundo a versão oficial, policiais em patrulhamento encontraram dois jovens armados que, ao verem a equipe, teriam atirado e tentado fugir. Houve revide, e o adolescente foi atingido. Ele chegou a ser socorrido, mas morreu na unidade de saúde. A Ponte não conseguiu localizar os familiares do adolescente.
Os dados de letalidade policial contrastam com o cenário de queda nos homicídios dolosos no estado. Em novembro, 193 pessoas foram vítimas de homicídio. De janeiro a novembro, o estado registrou 2.274 vítimas, mantendo a tendência de queda desse tipo de crime ao longo dos últimos anos.
Mesmo com a queda nos homicídios, a participação da polícia nas mortes violentas segue elevada. De janeiro a novembro de 2025, 25% dos homicídios dolosos registrados em São Paulo foram cometidos por policiais, índice considerado alarmante por especialistas. Segundo o sociólogo Ignacio Cano, a proporção ideal de mortes causadas por agentes do Estado não deveria ultrapassar 10%. Já o pesquisador Paul Chevigny avalia que percentuais acima de 7% já são considerados abusivos.
MP contabilizou 105 mortes em novembro
Os dados de letalidade policial reproduzidos pela Ponte são divulgados pela Secretaria da Segurança Pública ao final de cada mês. O Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), que tem entre suas atribuições constitucionais o dever de exercer o controle externo das polícias, também registra números de mortes decorrentes de intervenção policial. Esses dados são computados pelo Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp).
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Em geral, os números do MP-SP são disponibilizados antes dos da SSP-SP, que consolida os dados de letalidade policial apenas ao final do mês seguinte ao período de referência. Em algumas ocasiões, o Gaesp registrou balanços diferentes dos divulgados pelo governo estadual. Em novembro, o órgão apurou 105 mortes cometidas por policiais em São Paulo.
O que dizem as autoridades
A Ponte procurou a SSP-SP para comentar o aumento da letalidade policial em São Paulo e questionou quais medidas vêm sendo adotadas para reduzir as mortes provocadas por policiais, apesar da queda nos homicídios dolosos.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que não considera correta a comparação entre homicídios dolosos e mortes decorrentes de intervenção policial e citou a Portaria nº 229/2018 do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que estabelece que mortes resultantes de ações policiais legítimas não devem ser equiparadas a esse tipo de crime.
A pasta disse ainda que todas as ocorrências são investigadas, com acompanhamento do Ministério Público e do Judiciário, e que tem adotado medidas para reduzir a letalidade, como revisão de protocolos, investimento em tecnologias, equipamentos de menor potencial ofensivo e ampliação do uso de câmeras corporais.
Leia nota da SSP-SP na íntegra
A SSP esclarece que não é correta a comparação entre homicídios dolosos e mortes decorrentes de intervenção policial. Inclusive, a Portaria 229/2018 do Ministério da Justiça e Segurança Pública estabelece que as mortes resultantes de ações policiais legítimas não devem ser equiparadas a crimes como homicídios dolosos.
Todas as ocorrências de MDIPs são rigorosamente investigadas pelas Polícias Civil e Militar, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário. Desde 2023, mais de 1,2 mil agentes foram presos, demitidos ou expulsos por desvios de conduta.
A pasta também desenvolve ações contínuas visando o aperfeiçoamento do trabalho policial e a redução da letalidade. Todos os protocolos são revisados rotineiramente e a pasta tem investido em novas tecnologias e na aquisição de equipamentos de menor potencial ofensivo, como as 3.500 armas não letais incorporadas ao arsenal das polícias, e na ampliação do uso das Câmeras Operacionais Portáteis (COPs) da Polícia Militar, cuja implementação segue rigorosamente o acordo no Supremo Tribunal Federal (STF). Nos últimos dois anos, o estado registrou 1.061 mortes em confrontos com policiais em serviço, o que representa redução de quase 25% em relação aos primeiros anos da gestão anterior.


