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O sexto episódio do podcast “O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri” conta as histórias de duas mães, Antônia e Aparecida, e de como se juntaram para lutar pelas memórias dos filhos

Falamos de cenas relativamente comuns no Brasil. Ocorre um episódio violento com participação de policiais ou de outros grupos armados e jovens morrem — geralmente pretos, pobres e/ou periféricos. São quantos por dia? Já perdemos, além das vidas, a conta. Se o caso tomar alguma dimensão midiática, será relatado friamente pelos principais telejornais e portais de notícias do país, em busca de audiência e dos antecedentes criminais dos falecidos, para logo ser esquecido. Se não ganhar a atenção, simplesmente é registrado nos anais da segurança pública, da Justiça, em alguma nota de rodapé na imprensa e… esquecido.
Só há uma força capaz de subverter essa lógica que torna a vida desimportante: a luta das mães pela memória desses jovens. Tão comuns como os episódios que as produzem, a ampla existência dessas mães de vítimas do Estado — da violência organizada pelo Estado — contrasta com a escassa atenção que recebem dos meios de comunicação. São poucos os meios que como a Ponte Jornalismo vão mostrar a força dessas mulheres.
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As camisetas com os rostos dos filhos negados pela violência, como saem nas fotos, geralmente ofuscam as gargantas roucas nos protestos e adoecimentos descobertos ou acentuados após anos de idas e vindas nos tribunais e cemitérios.
Com os corações partidos, a luta delas é basicamente por memória. Não é necessariamente por “justiça”. Seja lá o que essa palavra queira dizer, não existe tal possibilidade uma vez que a injustiça consumada (essa sim bem definida) é irreversível. Pela mesma razão não lutam por “reparação”. Ainda que uma indenização ou algo do tipo as pudesse ajudar no cotidiano, geralmente não há quaisquer perspectivas nesse sentido e, além de não trazer os filhos de volta, traz um amargo na alma por precificar a vida de certa maneira.
A luta é pela memória, para que não se esqueça do que é mais importante entre tudo que os filhos deixaram: um nome, uma história, uma curta vida de lutas e sorrisos, o calor humano. E cada mãe, tal como no amor aos filhos, terá sua própria e intensa forma de lutar.
A Associação 13 de Agosto
No caso da Chacina de Osasco e Barueri é possível ver essa singularidade em cada uma delas. Dona Zilda Maria de Paula, por exemplo, só tinha o filho. Quando Fernando saiu para cortar o cabelo e parou no bar do Juvenal para nunca mais voltar, ela se viu completamente sozinha. Foi a condição principal para que pudesse se dedicar de forma quase integral às atividades da Associação 13 de Agosto. Outras mães vão viver realidades distintas, por exemplo ficando a cargo da criação dos netos deixados pelos filhos, o que as leva a atuar coletivamente em diferentes intensidades.
Logo na primeira semana após a chacina dona Zilda conheceu outras mães de Osasco e Barueri. Na mesma semana também conheceu Débora Silva, do Movimento Independente Mães de Maio (que perderam seus filhos durante os crimes de maio de 2006). Esses encontros formaram a Associação 13 de Agosto e convocaram sua primeira manifestação.
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“Esse primeiro encontro foi através da Zilda, eu não a conhecia. Conheci a Zilda no dia do velório do filho dela, eu também estava lá, tinham vários corpos que tinha acontecido a mesma coisa, foi aí que a gente se conheceu. No IML, quando fomos para reconhecer o corpo, foi quando a Zilda fez o grupo e colocou todo mundo, depois foram aparecendo outras pessoas, e a gente formou um grupo. Mas eu vim a conhecer a Zilda no dia do velório. Foi quando ela falou que a gente ia se fortalecer, que a gente ia ser uma família – e estamos sendo essa família até hoje”, contou Antônia Lúcia Gomes da Silva, mãe do Jailton Vieira da Silva, morto em 13 de agosto de 2015.
O sexto episódio do podcast “O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri” conta as histórias de duas mães — Antônia e Aparecida — e de como se juntaram para formar a Associação 13 de Agosto e lutar pelas memórias dos filhos.
Ouça “A Associação 13 de Agosto” na sua plataforma de preferência:
Apoie o podcast O Luto e a Luta. A partir de R$ 9,90 por mês na Orelo, você contribui com esse projeto. Toda a renda deste podcast será revertida para a Associação 13 de Agosto por meio da Dona Zilda Maria de Paula.
Referências e pesquisa para o episódio
Esse episódio é baseado nos áudios das diversas sessões de entrevistas gravadas entre 2021 e 2024 com Zilda Maria de Paula, Antônia Lúcia Gomes da Silva e Aparecida Gomes da Silva Assunção pelas pesquisadoras Joana Barros, Gabriella de Biaggi e Lúcia Soares, todas ligadas ao LASInTec-Unifesp. As entrevistas foram feitas no âmbito de um projeto de extensão do laboratório.
Agradecemos a colaboração da Jéssica Santos, editora de relacionamento da Ponte Jornalismo, das mães e pesquisadores entrevistados.
A seguir, uma breve lista de artigos, podcasts e reportagens utilizadas no episódio:
Ficha técnica:
- O Luto e a Luta é apresentado por Raphael Sanz e Gil Luiz Mendes.
- O podcast é fruto de parceria entre a Central 3, a Ponte Jornalismo, o LASInTec-Unifesp e a Associação 13 de Agosto (de mães e familiares de vítimas da chacina de Osasco e Barueri).
- O roteiro é de Raphael Sanz.
- A identidade visual é de Lucas Richardson e Carlos Ghiraldelli da Seppia Conteúdo.
- Domenica Mendes fez a revisão dos roteiros e episódios.
- A edição é de Gil Luiz Mendes.
Gil Luiz Mendes é jornalista, repórter na Ponte Jornalismo e apresentador na rádio Central 3. Raphael Sanz é jornalista, pesquisador ligado ao LASInTec-Unifesp e acompanha movimentos sociais há 20 anos.

