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Após a operação que deixou 56 mortos na passagem de 2023 para 2024, reforço policial no litoral, previsto para começar na próxima segunda-feira (15/12), volta a gerar medo entre os moradores de áreas periféricas

As operações policiais conduzidas durante o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), sob a gestão de Guilherme Derrite (PP) na Secretaria da Segurança Pública, deixaram marcas permanentes em Beatriz da Silva Rosa, de 30 anos. “Eu nunca imaginei que perderia meu marido, meu filho e compraria uma briga com peixes grandes”, desabafa a cozinheira escolar. Ryan tinha quatro anos quando foi atingido por um tiro disparado por um policial em serviço. Nove meses antes, o menino havia perdido o pai, Leonel Andrade Santos, 36, também morto durante uma ofensiva policial no Morro São Bento, em Santos.
O trauma não se restringe à história de Beatriz. Segundo ela, moradores do Morro São Bento vivem sob o medo de uma nova matança. A última operação de alta letalidade na região foi a Operação Verão 2023/2024, que deixou 56 mortos. Desde então, o tradicional reforço no policiamento durante a temporada passou a provocar pânico, sobretudo entre moradores de áreas pobres da Baixada Santista.
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“Nem começou a operação ainda e eles já começaram a matar de novo no morro”, diz Beatriz. No último domingo (7/12), dois jovens, de 22 e 29 anos, foram mortos por agentes das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota), tropa de elite da Polícia Militar paulista, durante uma ação na região. À Ponte, testemunhas relataram que os policiais se aproximaram e passaram a atirar contra pessoas que estavam na rua, sem qualquer aviso prévio. A versão da PM é a de que houve confronto.

Nova operação este ano
A Operação Verão 2025/2026 está prevista para começar na próxima segunda-feira (15/12), segundo informações divulgadas por prefeituras de municípios da Baixada Santista. De acordo com a administração de Cubatão, o reforço policial deve se estender até 20 de fevereiro, abrangendo as nove cidades da Baixada Santista e os municípios de Iguapé, Ilha Comprida e Cananéia, no Vale do Ribeira. A operação deve contar com mais de 2 mil policiais.
A Ponte não localizou, no site da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), qualquer anúncio oficial sobre a Operação Verão 2025/2026. Esse tipo de ação de reforço no policiamento não é novidade, mas foi durante o governo de Tarcísio, ao lado do então secretário da Segurança Pública Derrite, que a operação passou a apresentar um caráter marcadamente mais letal.
Antes da Operação Verão, Tarcísio e Derrite haviam capitaneado a Operação Escudo, iniciada após a morte do soldado Patrick Bastos Reis, 30, integrante da Rota. O caso ocorreu em julho de 2023 e, ao longo de 40 dias, a polícia matou 28 pessoas em bairros periféricos da Baixada Santista, sobretudo no Guarujá, onde Patrick havia sido morto.
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Na esteira dessa ofensiva — definida como uma operação de vingança por especialistas ouvidos pela Ponte —, a dupla manteve a mesma lógica letal na Operação Verão, iniciada logo em seguida, sob a justificativa da morte de outros policiais na região.
Samuel Wesley Cosmo, 35, também agente da Rota, foi morto em Santos em fevereiro de 2024, quando a Operação Verão se aproximava do fim. A ação, no entanto, não foi encerrada naquele momento.
O reforço policial se estendeu até abril, em meio a críticas de movimentos sociais, que denunciaram invasões a residências, agressões e execuções. Entre as 56 vítimas estava Edneia Fernandes Silva, 31, mãe de seis filhos, que foi atingida por uma bala perdida enquanto estava em uma praça de Santos, durante uma ação policial. A investigação, como ocorreu em muitos outros casos relacionados à operação, foi arquivada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP).
Até o momento, não houve pedido público de desculpas por parte de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ou de Guilherme Derrite (Progressistas) em relação às duas operações. O ex-secretário retornou ao cargo de deputado federal em novembro, e a pasta da segurança passou a ser comandada por Osvaldo Nico Gonçalves, ex-delegado-geral da Polícia Civil, que atuava como secretário executivo da SSP-SP.
Sob pressão, mortes reduziram 87%
A pressão da opinião pública sobre o governo estadual teve impacto na Operação Verão seguinte. Em novembro de 2024, multiplicaram-se denúncias de abusos policiais. Naquele mês, Ryan foi morto, assim como o estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta, 22, atingido por um tiro à queima-roupa disparado por um policial militar.
Em dezembro, Marcelo Amaral, 25, foi jogado do alto de uma ponte por um policial militar. A cobrança pública por respostas resultou em uma Operação Verão com letalidade significativamente menor.
Foram registradas sete mortes em municípios que receberam reforço policial durante o período — Itanhaém, São Vicente, Caraguatatuba, Ubatuba, Cubatão e Mongaguá. Apesar das ocorrências, o número representa uma redução de 87% em relação ao total de mortes registradas na operação anterior.
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De acordo com Rafael Rocha, coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, a queda no número de mortes reflete uma mudança estratégica por parte do governo estadual, influenciada pela pressão da opinião pública diante de casos de abusos e execuções.
Segundo Rocha, embora a diminuição da letalidade indique uma atuação mais comedida, a operação segue gerando medo e apreensão entre moradores das áreas afetadas. Para ele, a redução das mortes não significa que a violência policial tenha sido erradicada, mas aponta uma resposta do governo a um ambiente de maior escrutínio político e midiático.
O desafio, afirma, é evitar que a normalização do policiamento volte a reproduzir os excessos observados em operações anteriores.
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Para o coordenador do Sou da Paz, a tendência é que a Operação Verão deste ano se aproxime mais do padrão histórico do estado do que da ofensiva letal registrada em 2023/2024. Ele avalia que o contexto político atual é distinto: Tarcísio de Freitas não enfrenta o mesmo nível de desgaste nem a lógica de “tudo ou nada” vivida, por exemplo, pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), responsável por ações policiais que resultaram na morte de 121 pessoas no chamado Massacre do Alemão e da Penha.
Além disso, Rocha aponta que a mudança no comando da Secretaria da Segurança Pública pode contribuir para que o governo evite repetir práticas duramente criticadas na gestão anterior, ainda que não descarte o risco de novas demonstrações de força na Baixada Santista.
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“A expectativa é que a operação deste ano não repita ações impulsivas vistas em anos anteriores. Uma condução mais racional, com critérios claros e respeito aos direitos humanos, tende a evitar o uso indiscriminado da força e a reduzir a letalidade”, diz.


