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Polícias paulistas mataram 834 pessoas no ano passado. Polícia Militar responde por 96,9% dos casos (808). Último trimestre de 2025 foi o mais violento desde 2013 e quatro de cada dez episódios ocorreram no interior

As polícias do estado de São Paulo, sob as ordens do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), mataram 834 pessoas em 2025. Tratou-se do ano de maior letalidade policial dos últimos seis. Além do recorde negativo, o ano passado demarcou o aprofundamento de um processo de interiorização dessas mortes, até então concentradas na capital e no litoral paulista: cerca de quatro em cada dez ocorreram em cidades do interior — um índice sem precedentes.
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Esse cenário foi identificado pela Ponte a partir de dados recém-divulgados pela Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP), hoje chefiada pelo delegado de carreira Osvaldo Nico e conduzida na maior parte do ano passado pelo policial militar reformado e deputado federal Guilherme Derrite (PP). A pasta consolida os dados de letalidade policial apenas ao final do mês seguinte ao de divulgação — ou seja, os casos de dezembro só vieram à tona agora no fim de janeiro.
A Polícia Militar paulista (PMESP) foi responsável por 808 desses óbitos (96,9% do total), que a SSP-SP trata como mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP). Já a Polícia Civil responde por 26 deles (3,1%).
Homens negros e jovens como um padrão que se repete
Somente em dezembro foram 82 mortes, o que tornou o trimestre final de 2025 o mais letal de toda a série histórica da SSP-SP, com dados desde 2013. Em novembro, o mais violento nos registros da pasta, haviam sido 103 mortes, e, em outubro, outras 91 pessoas tinham sido assassinadas.
Assim como em anos anteriores, a ampla maioria das mortes de 2025 vitimou jovens, em especial com idade entre 18 e 35 anos (458), e homens (ao menos 823). Também se repetiu uma seletividade racial da letalidade policial: ao menos 59,7% das vítimas eram negras, de pele preta (79) ou parda (419), enquanto 32,1% eram brancas (272) — os percentuais destoam do perfil da população no estado, em que quase 58% dos habitantes se declaram brancos e 41%, pardos ou pretos.
Ainda antes de ser exposto por números, esse padrão já vinha sendo denunciado com rostos e nomes em reportagens da Ponte, como ocorreu nos casos de Nicolas Alexandre Pereira dos Santos de Oliveira, morto desarmado em uma ação policial; de Guilherme Dias Santos Ferreira, baleado na cabeça quando voltava do trabalho; e, mais recentemente, de Felipe Petta, executado a tiros dentro de casa. Além de homens, todos eles eram negros e jovens, com idade entre 19 e 38 anos.
Interiorização das mortes pelas polícias paulistas
Esses três casos ainda tiveram em comum a localidade: todos eles ocorreram na cidade de São Paulo, a que mais teve mortes cometidas pelas polícias no ano passado (255). Se somados os outros 38 municípios que compõem a região metropolitana, foram 443 mortes (53,2% do total).
A capital e seu entorno detêm historicamente a maior parte das ocorrências, mas em proporção que tem diminuído a cada ano. Em paralelo a isso, os registros no interior têm tido uma tendência de alta. Desta vez, inclusive, houve uma disparada sem igual da interiorização da violência policial: 40,1% das mortes (334) se deram em cidades interioranas; em 2024, esse índice havia ficado em 31,7%.
A expansão da letalidade ao interior foi puxada, principalmente, pelas regiões de Campinas (com 76 óbitos) e de Piracicaba (75). Da segunda dessas cidades, a Ponte noticiou, em abril do ano passado, o caso de Gabriel Junior Oliveira Alves da Silva, um jovem negro de 22 anos baleado por trás quando tentava defender a esposa grávida de uma abordagem violenta.
Atualmente, somente batalhões de cinco cidades do interior contam com câmeras corporais, que foram implementadas ao longo do último ano: Americana (19º BPM/I), Campinas (1º Baep, 8º BPM/I, 5º BPAmb, 35º BPM/I e 47º BPM/I), São José dos Campos (3º Baep, 1º BPM/I e 46º BPM/I), Sumaré (48º BPM/I) e Taubaté (5º BPM/I). Eles somam 1.418 câmeras, o equivalente a 11,9% dos 11.942 aparelhos da PMESP.
O ano passado ainda teve uma redução das mortes na Baixada Santista. Foram 48 óbitos, 10,8% do total do estado. Em 2023 e 2024, marcados pelas letais operações Escudo e Verão, essa proporção havia ultrapassado 32%, com 83 e 132 assassinatos, respectivamente.
Comparação com homicídios indica força abusiva sem precedentes
Em números gerais, a letalidade policial aumentou 2,6% em 2025 em relação ao ano anterior, em contraste com uma queda 4% no número de homicídios, que passou para 2.527 casos. Inclusive, há uma indicação de uso abusivo da força policial se comparados os dois indicadores, uma das formas que a literatura especializada em segurança pública utiliza para dimensionar a violência policial.
Estudos do sociólogo Ignácio Cano consideram que a proporção razoável é de até 10% de mortes cometidas pelas polícias em relação ao total de homicídios, enquanto o pesquisador Paul Chevigny sugere que índices maiores de 7% seriam considerados abusivos.
Se somados os homicídios dolosos às MDIP em 2025, as forças de segurança protagonizaram 25% das mortes violentas no estado, outro índice sem precedentes na série histórica da SSP-SP.
Projeto político de Tarcísio dificulta controle das polícias, diz pesquisador
Para o advogado e pesquisador Almir Felitte, autor de A História da Polícia no Brasil: Estado de exceção permanente?, o patamar de letalidade no último ano indica a continuidade de um projeto de segurança pública instalado pela gestão Tarcísio. “Estamos falando de um governo estadual que não só se elege em um momento em que muitos policiais entram para a política, mas que tem nesses policiais uma de suas principais bases de poder. É um grupo político que, além de pregar a violência policial como solução para os problemas sociais, cresce nas reivindicações por uma maior autonomia e pela maior delegação de poderes às instituições policiais, criando obstáculos para o controle civil sobre as suas atividades”, diz.
Ele avalia ainda que a explicação para a interiorização da violência pode estar no uso do orçamento público. “No Guarujá, por exemplo, em 2024, quando a Operação Escudo/Verão deixava um rastro de mortos, dos cerca de mil policiais que atuavam na região, 600 estavam exercendo a Operação Delegada, recebendo verba municipal. E, nos últimos anos, com a segurança pública se tornando um ativo político muito forte, temos visto a profusão dessas operações no interior também.”
“O orçamento é um excelente indicativo das escolhas políticas que estão sendo feitas no campo da segurança pública. Entendê-lo é essencial para entender a questão da letalidade”, afirma Almir.

SSP-SP ignora questionamentos e faz comparação com Doria
Procurada pela Ponte, a SSP-SP não respondeu ao que se deve o recorde de letalidade no último ano e se considera haver indicativos de uso abusivo da força policial. Também ignorou um questionamento sobre a interiorização das mortes. Em resposta, a pasta preferiu destacar que o número de mortes nos três anos de Tarcísio (2.157) foi 5% menor que o do começo de mandato de João Doria (PSDB), com 2.259 casos — ou seja, a gestão atual ignorou 2022, com a menor letalidade já registrada.
“Desde 2023, mais de 1,2 mil agentes foram presos, demitidos ou expulsos das corporações por desvios de conduta, evidenciando o fortalecimento dos mecanismos de controle, fiscalização e responsabilização”, escreveu a SSP-SP, segundo a qual as MDIP são rigorosamente investigadas.
A Ponte ainda pediu uma manifestação do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), cujo rol de atribuições constitucionais inclui o controle externo das polícias. O órgão alegou manter “interlocução permanente com a Secretaria da Segurança Pública e com o comando da Polícia Militar, na busca das melhores práticas que levem em conta o princípio da dignidade humana e o regime democrático”.
“De outra parte, o MPSP também realiza o controle difuso das ocorrências de letalidade policial por intermédio dos promotores de Justiça com atribuições na esfera penal em todo o Estado, que investigam todos os episódios e, com base nas provas produzidas nos casos concretos, oferecem ou não as denúncias.
O MP-SP também divulga dados de letalidade, apurados pelo Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp) — ao longo de 2025, ele contabilizou 843 casos envolvendo a PMESP e a Polícia Civil, nove a mais do que registrou a SSP-SP.
Leia a íntegra do que diz a SSP-SP
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) esclarece que houve redução de aproximadamente 5% nos números de mortes decorrentes de confrontos com policiais, nos três primeiros anos desta gestão, em comparação aos primeiros anos da gestão anterior.
A pasta destaca, ainda, que todas as ocorrências de mortes decorrentes de intervenção policial (MDIPs) são rigorosamente investigadas pelas Polícias Civil e Militar, com acompanhamento das respectivas corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário. Desde 2023, mais de 1,2 mil agentes foram presos, demitidos ou expulsos das corporações por desvios de conduta, evidenciando o fortalecimento dos mecanismos de controle, fiscalização e responsabilização.
Paralelamente, a pasta mantém ações permanentes voltadas ao aperfeiçoamento do trabalho policial e à redução da letalidade. Os protocolos operacionais passam por revisões contínuas e o Estado tem investido de forma consistente em tecnologia, capacitação profissional e na ampliação do uso de equipamentos de menor potencial ofensivo. Nesse contexto, mais de 3.500 armas não letais foram incorporadas ao arsenal das forças de segurança.
Leia a íntegra do que diz o MPSP
O MPSP informa que um dos principais indicadores monitorados pelo Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (GAESP), que atua no controle concentrado e regionalizado de forma interdisciplinar, interprofissional e interinstitucional na tutela coletiva da segurança pública por meio de medidas administrativas e judiciais, é exatamente o da letalidade policial, contando, inclusive, com procedimento específico para acompanhamento da questão, por meio do qual realiza a compilação e mapeamento das informações, bem como a formulação e o aperfeiçoamento das políticas públicas visando à redução dos números. Além disso, o GAESP mantém interlocução permanente com a Secretaria da Segurança Pública e com o comando da Polícia Militar, na busca das melhores práticas que levem em conta o princípio da dignidade humana e o regime democrático. De outra parte, o MPSP também realiza o controle difuso das ocorrências de letalidade policial por intermédio dos promotores de Justiça com atribuições na esfera penal em todo o Estado, que investigam todos os episódios e, com base nas provas produzidas nos casos concretos, oferecem ou não as denúncias.


