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Policiais de pelotão tático atiraram e usaram spray de pimenta contra grupo de amigos e familiares, incluindo crianças, que celebrava um ano de funcionamento de uma barbearia em Florianópolis. PMSC alega que cenário era de “risco elevado”
Uma guarnição da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) foi filmada agredindo um grupo de pessoas que participava de uma confraternização em Florianópolis, no bairro Monte Cristo, no último sábado (7/2). Na ocasião, um policial derrubou uma mulher ao puxá-la pelo pescoço e ainda a agrediu no rosto. Um homem que tentava protegê-la também foi agredido, inclusive com coronhadas (veja vídeo acima).
O caso ocorreu em frente a uma barbearia da comunidade, onde cerca de 25 amigos e familiares dos donos, incluindo crianças e idosos, celebravam um ano de funcionamento do estabelecimento comercial. A PMSC alega ter sido acionada por vizinhos por conta do som alto, durante a tarde.
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À Ponte, a líder comunitária Graziela Santos, que estava presente na ocasião, relatou que os policiais chegaram ao local sem sequer anunciar o motivo da abordagem ou tentar uma mediação para que abaixassem o som. “A gente estava conversando ali na frente. Eles [os policiais] simplesmente pararam e mandaram a gente levantar a camiseta e ir embora. A gente ficou sem entender”, diz.

Vídeo desmente versão da PM de que ‘copos de vidro foram arremessados’
Um homem presente na celebração se negou a levantar a camiseta, quando os policiais passaram a lançar spray de pimenta dentro da barbearia. A PMSC alega que, nesse momento, “copos de vidro foram arremessados contra os policiais”. Um vídeo mostra, contudo, que a dona do espaço, reprimida com spray ao questionar a abordagem truculenta, arremessou um copo de plástico na rua, que não atingiu policial algum. Em resposta, um agente atirou duas vezes com uma arma de munição menos letal.
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Duas pessoas foram atingidas pelos tiros, segundo Graziela. Depois disso, os participantes da celebração passaram a correr para fora da barbearia, muitos deles passando mal por conta do gás de pimenta. Foi quando a dona do estabelecimento, já do lado de fora, acabou derrubada com truculência por um PM.
O policial ainda a agrediu no rosto mesmo com a mulher já contida no chão. O marido da vítima, que tentou acudi-la sem oferecer ameaça aos PMs, também foi derrubado e agredido.
Toda a ação foi filmada apenas pelas pessoas que participavam da confraternização. Pioneira no país na adoção das câmeras corporais, a PMSC deixou de usar os aparelhos em setembro de 2024, cinco anos após ter anunciado a tecnologia, por decisão do governador bolsonarista Jorginho Mello (PL).
Policiais são conhecidos no bairro por abordagens violentas
Os policiais agressores são do Pelotão de Patrulhamento Tático do 22º Batalhão de Polícia Militar (BPM). Essa é uma unidade especializada e normalmente mobilizada para ocorrências de alto risco. Ao final da ocorrência, eles apreenderam um equipamento de som e levaram a uma delegacia o casal agredido. Eles foram liberados posteriormente. Não havia arma de fogo ou qualquer outro material ilícito em posse das pessoas na confraternização.
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Segundo Graziela, os agentes já são conhecidos no bairro por outras abordagens violentas. O temor dos moradores agora é de sofrerem retaliação em função da repercussão do caso. “Eles agridem mulheres, jogam viatura para cima da gente, fazem o que querem. Eles acham que estão acima da lei.”
A Ponte questionou a PMSC sobre quais condutas ilícitas foram atribuídas aos detidos, mas não houve esclarecimento. A reportagem também perguntou se o uso de spray em um ambiente fechado e a agressão a uma mulher rendida são condutas alinhadas aos protocolos da corporação.
Em resposta, a Polícia Militar alegou que “todas as ações adotadas tiveram como objetivo a preservação da segurança da guarnição, dos frequentadores do local e da comunidade, diante de um cenário de risco elevado”. Comunicou também que a Corregedoria vai apurar o uso da força pelos policiais.
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A Ponte também procurou o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), que tem o dever constitucional de exercer o controle externo da atividade policial no estado. O órgão afirmou que irá oficiar uma promotoria militar para a averiguação do eventual cometimento de crime militar.
Leia a íntegra do que diz a PMSC
A Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC), por meio do 22º Batalhão de Polícia Militar (BPM), informa sobre uma ocorrência registrada na tarde deste sábado, 07 de fevereiro, no bairro Monte Cristo, área continental de Florianópolis.
- A guarnição do Tático foi acionada para atender uma ocorrência de perturbação do trabalho e do sossego alheios, motivada por som excessivamente alto em um estabelecimento localizado no bairro. O Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) registrou, ao longo da tarde, diversas ligações da comunidade relatando o barulho excessivo, sendo que em uma das solicitações foi mencionada a possibilidade da presença de pessoas armadas no local.
- No local, foi constatado som em volume elevado e a presença de aproximadamente 20 pessoas. Durante a tentativa de orientar os presentes e realizar a averiguação preventiva, a guarnição passou a ser hostilizada, havendo resistência às ordens policiais, xingamentos e aproximações intimidatórias. Em determinado momento, copos de vidro foram arremessados contra os policiais, colocando em risco a integridade física da guarnição.
- Diante da injusta agressão e da reação ativa de alguns indivíduos, foi necessário o uso progressivo da força, com emprego de munição não letal e espargidor de pimenta, a fim de conter a situação e restabelecer a ordem. Como resultado da ocorrência, duas pessoas foram presas, o equipamento de som foi apreendido e os envolvidos conduzidos à Central de Polícia para os procedimentos legais cabíveis.
A Polícia Militar ressalta que todas as ações adotadas tiveram como objetivo a preservação da segurança da guarnição, dos frequentadores do local e da comunidade, diante de um cenário de risco elevado. Informa ainda que, conforme os protocolos institucionais, as circunstâncias relacionadas ao uso da força serão devidamente apuradas pela Corregedoria da Polícia Militar.
A PMSC reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência e a manutenção da ordem pública, atuando sempre dentro dos princípios técnicos e legais que regem a atividade policial.
Leia a íntegra do que diz o MPSC
A 40ª Promotoria de Justiça, que atua no controle externo da atividade policial na Capital, vai instaurar procedimento de ofício e uma das providências será enviar o caso para uma das Promotorias Militares para verificar a ocorrência de crime militar. A 40ª PJ também vai requisitar abertura de procedimento pela Corregedoria Geral da PM.


