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Por Paulo Batistella
Moradores do Parque do Gato relatam que policiais mexeram no corpo da vítima, baleada dentro de um carro, e recolheram cápsulas de disparos antes da chegada da perícia. Repórter da Ponte que cobria o caso teve crachá fotografado por PM
A Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) matou um homem na comunidade do Parque do Gato, no bairro do Bom Retiro, na região central de São Paulo, nesta terça-feira (24/3). A vítima fatal foi baleada com sete tiros por volta de meio-dia, quando estava sentada dentro de um carro estacionado em uma viela nos fundos da favela, ao lado de uma creche em horário de funcionamento.
Moradores afirmaram à Ponte que policiais militares que patrulhavam a comunidade teriam chegado ao local já atirando contra o veículo, sem tempo para que a vítima esboçasse reação. Ou seja, teria se tratado de uma execução, e não de um confronto, como alega a PMESP.
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Vizinhos do local também relataram que, após os disparos, os policiais isolaram a área, proibindo que qualquer pessoa se aproximasse. Os agentes ainda teriam alterado a cena do assassinato, virando o corpo da vítima de bruço e recolhendo cápsulas de munição ao redor do carro.
Um vídeo gravado logo após o ocorrido mostra um policial militar aparentemente de luvas abrindo a porta do passageiro do carro com um objeto nas mãos — moradores suspeitam que se trata de uma arma de fogo, que teria sido colocada no veículo para sustentar a versão policial de um confronto.
Socorristas chegaram ao local cerca de 20 minutos depois dos disparos, ocasião em que o homem baleado, no entanto, já estava morto. A Ponte também esteve na favela pouco depois do ocorrido, quando policiais militares ainda mantinham a área isolada.
Ao menos até as 15h o corpo seguia dentro do veículo, com marcas de disparos, sem que a Polícia Técnico-Científica tivesse periciado a cena do assassinato — a poucos metros dali, crianças brincavam no pátio da creche da comunidade.
Moradores relataram que o homem não vivia na favela, razão pela qual ainda não foi identificado. Ele teria chegado ao local de madrugada e, desde então, estaria fazendo uso de drogas dentro do carro. Os vizinhos suspeitam que o veículo seria roubado, já que o homem teria perguntado sobre a existência de desmanche na região — a Ponte identificou que o carro, um Ford Fiesta, estava com placas adulteradas, que deveriam constar em um outro veículo.
PMESP alega ter reagido a tiros
A reportagem questionou a PMESP sobre as circunstâncias da morte. A assessoria de imprensa da corporação alegou que equipes foram ao local após receberem uma denúncia de que um veículo estaria sendo utilizado para transportar drogas para o Parque do Gato. Ainda segundo a PMESP, os policiais teriam sido recebidos a tiros, ocasião em que reagiram e mataram a vítima fatal.
A corporação também encaminhou duas fotos à reportagem, atribuindo à ocorrência. Uma delas mostra o porta-malas de um carro com dois tabletes, uma bag de entregas e uma mochila. Já a outra imagem mostra uma arma supostamente apreendida na ocasião, além de papelotes. Questionada se havia ali drogas, a PMESP limitou-se a dizer que a ocorrência estava “em andamento”.
O caso deve ser encaminhado para o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), submetido à Polícia Civil, que conduzirá as investigações.
Policial exigiu crachá de repórter para fotografá-lo
No local do crime, um dos repórteres da Ponte que assinam esta reportagem se identificou aos policiais presentes para que pudesse fotografar a cena. Um dos policiais, no entanto, identificado como cabo Guilherme, da Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas (Rocam), exigiu que o repórter apresentasse seu crachá profissional, no qual consta sua foto, nome e número de RG — o agente fotografou o documento.
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A reportagem questionou a necessidade de ter seu crachá fotografado, uma vez que já havia se identificado. O agente alegou então que, devido ao jornalista estar fotografando a cena, aquilo deveria “constar em registro”. Disse ainda que o repórter deveria “tomar cuidado com os moradores”. O PM estava junto de outros três policiais da Força Tática do 13º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M). Moradores do Parque do Gato relataram à Ponte que outros profissionais da imprensa estiveram no local, mas não tiveram crachás ou documentos pessoais fotografados pela PMESP.
A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) se existe orientação para que policiais militares fotografem o crachá de profissionais de imprensa; qual normativa regulamenta essa conduta; em qual registro serão mantidos os dados do repórter; e por qual razão outros jornalistas não foram submetidos à mesma exigência. Ainda não houve esclarecimento.
Parque do Gato e entorno tiveram mortes parecidas
Os moradores do Parque do Gato — que engloba um conjunto habitacional próximo à Avenida do Estado cercado por uma pequena favela, limitada pelo Rio Tamanduateí — afirmaram à Ponte que os policiais envolvidos na recente ocorrência, do 13º BPM/M, também foram responsáveis por outras mortes ocorridas na comunidade e em ocupações no entorno.
Em abril do ano passado, a Polícia Militar matou o morador de uma pequena ocupação na Rua Prates, também na região central de São Paulo e a pouco mais de um quilômetro do Parque do Gato. A vítima foi Amarildo Aparecido da Silva, um homem negro de 36 anos conhecido no local como Kaká. A Ponte esteve no local na ocasião, quando a vizinhança relatou ter se tratado de uma execução.
Naquele mesmo mês, dois homens foram mortos pela PMESP em uma outra ocupação, desta vez na Rua Guaporé, no bairro da Luz, na região central de São Paulo e dois quilômetros do Parque do Gato.
Já em agosto do ano passado, a PMESP matou Luis Carlos de Souza, 39, dentro do Parque do Gato. Apesar de não viver no local, ele o frequentava por ter amigos ali e morar em uma rua próxima, no bairro do Bom Retiro. Na ocasião em que foi morto, Luis estava com outras pessoas nos fundos da favela. Policiais militares teriam chegado ao local já atirando, quando ele correu para debaixo de um viaduto da Marginal Tietê que atravessa o Rio Tamanduateí e acabou atingido.
Em setembro, o policial civil Caio Bruno, integrante do Departamento Estadual de Investigações sobre Entorpecentes (Denarc), foi morto a pauladas e chutes dentro de um dos prédios do Parque do Gato. A Ponte apurou à época que ele teria chegado ao local sozinho e sem identificação, ocasião em que teria tentado invadir um imóvel. Iniciou-se ali uma briga, na qual o agente deu um tiro na perna de um morador. Ele teria sido então agredido até a morte por um grupo de pessoas revoltadas com a investida.
Ainda em setembro do ano passado, um outro homem foi morto na ocupação da Rua Guaporé, identificado como Valter Junior Pereira de Araújo, 26. Ele vivia no local com a companheira e as filhas do casal, duas bebês gêmeas. O morador estava sozinho em um dos pequenos barracos da ocupação quando quatro policiais da Rocam teriam invadido o lugar e matado ele.
Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo

