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Tutora do Alemão diz que policiais chegaram atirando a esmo em incursão na favela. PMSC alega “iminente agressão” de suposto suspeito que teria mandado de prisão em aberto e estaria armado, mas que conseguiu fugir sem deixar rastros

Uma guarnição da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) matou um cachorro com um tiro de fuzil na favela do Siri, em Florianópolis, na noite da última quarta-feira (11/2). Os agentes atribuíram a agressão a um iminente confronto com um suposto suspeito armado que teria fugido. Já a tutora do animal, o Alemão, relata que, na verdade, policiais surgiram no local atirando a esmo, em uma incursão com os rostos cobertos por balaclavas quando diversos moradores circulavam pela comunidade.
O caso ocorreu por volta das 22h30, em um trecho da Rua Floresta, nos fundos da favela, onde ela se junta às dunas dos Ingleses — uma longa extensão de areia e vegetação nativa que atravessa o Norte da capital catarinense. A tutora afirma que havia acabado de pegar um mototaxi para deixar o local e ir ao trabalho. Alemão, de dois anos, ficou brincando na rua, como se fosse mais um dos meninos do Siri.
Ainda antes de sair da favela, que tem uma única via de acesso, a tutora recebeu a ligação de uma vizinha: Alemão havia sido morto por policiais. “Ela disse que chegaram e já desceram da viatura metendo bala em todo mundo. Eles queriam acertar os meninos, e nisso mataram o meu cachorro”, diz, à Ponte, a dona do animal, que terá o nome preservado por temer retaliações dos policiais militares.
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Naquela hora da noite, vários moradores ainda estavam nas ruas, para tentar aproveitar um pouco da brisa noturna e aliviar o calor exalado pelas dunas ao longo do dia sobre a favela de casas de madeira. Os policiais saíram sem dar satisfação sobre Alemão. “Ele era uma mistura de vira-lata com pit bull. O pessoal fala que pitbull é bravo, mas eu deixava ele solto, porque as crianças adoravam ele. Tenho quatro cachorros e seis gatos. Ele era tão bonzinho que convivia com os gatos. Era querido por todo mundo.”
Jovem foi preso com flagrante forjado, diz moradora
A tutora de Alemão afirma ainda que um jovem tentou correr dos tiros e acabou alcançado pelos policiais dentro de casa. A mãe dele tentou intervir, mas foi ameaçada. Ainda de acordo com a moradora, ele apanhou e foi preso mediante um flagrante forjado de drogas. A PMSC alega que ele tinha pequenas porções de cocaína e maconha e que, após receber voz de prisão, foi levado para uma delegacia sem apresentar lesões no corpo.
Ainda segundo a Polícia Militar, a incursão a tiros na favela se deu porque o jovem preso e um segundo suposto suspeito teriam corrido de uma abordagem. Essa outra pessoa envolvida estaria portando um pistola e seria conhecida por policiais por ter um mandado de prisão em aberto pelo crime de roubo.
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“Diante da iminente agressão, os militares reagiram de forma proporcional para cessar a ameaça”, alegou a PMSC, segundo a qual o suposto suspeito armado teria fugido por uma área de mata — ao final da Rua Floresta, há apenas as dunas. Não foi apreendida arma alguma. Também não houve policial ferido.
Além da PMSC, a Ponte procurou o Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC), que tem o dever constitucional de exercer o controle externo da atividade policial no estado. Não houve retorno.
PM tem feito ameaças a moradores que participaram de protesto
Moradores do Siri também relataram à Ponte que a PMSC tem feito ameaças a pessoas que participaram de um protesto no último dia 29 de janeiro contra a violência policial na comunidade. Na manhã daquela mesma data, a Polícia Militar havia sitiado a favela para que a prefeitura de Florianópolis, sob gestão Topázio Neto (PSD), fizesse a demolição de casas consideradas em situação irregular.
Conforme também mostrou a Ponte, a comunidade do Siri tem sido alvo crescente de abusos da PMSC, sob as ordens do governador Jorginho Mello (PL). Entre 2022 e 2025, quatro jovens foram mortos por policiais na favela, em episódios que os moradores afirmam terem se tratado de execuções — em parte desses casos, as vítimas também foram mortas em incursões de policiais encapuzados atirando a esmo.
São comuns batidas policiais abusivas na favela do Siri, com agressões em revistas e invasões a casas sem mandados judiciais. Aos mais jovens, conforme moradores já relataram à Ponte, a PM costuma ordenar que desbloqueiem o próprio celular para que seja vasculhado. Quem é mãe na comunidade relata ter medo de que os filhos saiam à noite ou até mesmo corram no meio da rua, pelo risco de serem vistos como suspeitos pela PM e acabarem mortos. Durante as incursões policiais a tiros, mesmo quem está abrigado fica em pânico, já que várias das casas do local são de madeira.
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A favela do Siri ainda convive com restrições de serviços básicos, como fornecimento de água e energia elétrica, por ser considerada uma ocupação irregular — a realidade ali destoa da vizinhança da região Norte de Florianópolis, que também abriga bairros de classe alta e média alta entremeados em áreas de preservação e vários pontos turísticos, como as praias de Jurerê Internacional e de Canasvieiras.
Leia a íntegra do que diz a PMSC
Na noite do dia 11 de fevereiro de 2026, a Polícia Militar realizou uma operação na comunidade do Siri com o objetivo de combater o tráfico de drogas na região.
Durante a incursão na localidade, dois suspeitos empreenderam fuga ao perceberem a aproximação das equipes. Um deles, já conhecido no meio policial e com mandado de prisão em aberto pelo crime de roubo, portava uma pistola. Diante da iminente agressão, os militares reagiram de forma proporcional para cessar a ameaça. O suspeito conseguiu fugir em meio à área de mata e não foi localizado até o momento.
O segundo envolvido foi acompanhado e abordado após tentar entrar no interior de uma residência, onde procurou se desfazer de entorpecentes e de um rádio comunicador que estavam em sua posse. Com ele foram apreendidas porções de maconha e cocaína, além de um radio comunicador.
Diante do flagrante, foi dada voz de prisão pelo crime de tráfico de drogas. O suspeito foi conduzido à delegacia para os procedimentos legais cabíveis, sem apresentar lesões.
Demais desdobramentos da ocorrência não foram levados a conhecimento do Batalhão.

