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Relatório sobre ação no Morro São Bento, em Santos, que deixou dois mortos em novembro de 2024, não identifica a autoria do disparo que matou Ryan da Silva Andrade Santos. Em um intervalo de dez meses, a cozinheira Beatriz da Silva Rosa perdeu o filho e o companheiro em operações policiais

Um relatório final da Polícia Civil sobre a ação policial que terminou com a morte de Ryan da Silva Andrade Santos, de 4 anos, e do adolescente Gregory Ribeiro Vasconcelos, 17, no Morro São Bento, em Santos, em novembro de 2024, sustenta que houve troca de tiros entre policiais militares e os adolescentes ocupantes de uma motocicleta e conclui que o disparo que matou a criança teria sido resultado de um ricochete, afirmando que, segundo o delegado responsável pelo caso, não se tratou de um desfecho previsível para os agentes.
O documento, assinado pelo delegado Thiago Nemi Bonametti, também sustenta que houve troca de tiros na ocorrência e que parte dos disparos partiu de armas que não pertenciam à polícia. O relatório foi entregue nesta segunda-feira (3/2).
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Para o delegado, “o resultado morte de Ryan configura consequência não previsível do revide policial em legítima defesa, não sendo possível imputar responsabilidade criminal aos policiais militares envolvidos”. Além das duas mortes, um outro adolescente foi ferido e apreendido em flagrante durante a ocorrência.
Laudo fala em ricochete, mas autoria fica de fora
Os laudos necroscópicos apontam que Ryan morreu por anemia aguda causada por hemorragia interna traumática, após ser atingido por um disparo que atravessou o fígado. A trajetória descrita é de baixo para cima. Já Gregory morreu em decorrência de traumatismo cranioencefálico provocado por disparo transfixante na base do crânio, em quadro descrito como compatível com morte imediata.
Um laudo complementar analisou o projétil retirado do corpo de Ryan, identificado como munição de calibre 12, e apontou deformações e marcas de atrito compatíveis com impacto em superfície dura antes de atingir a vítima. A partir disso, o delegado sustenta que o tiro que matou Ryan não teria sido direto, mas teria ricocheteado mais abaixo, nas proximidades do ponto de confronto, chegando à criança com menor energia.
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Na conclusão, o relatório afirma que Ryan estava a vários metros acima do local do confronto e que, diante das características do projétil, a hipótese mais provável é a de ricochete. O delegado escreve que o resultado seria “não previsível” aos policiais que atiravam no contexto de legítima defesa e, por essa razão, afasta a responsabilização criminal dos agentes pela morte da criança.
Apesar de constar no boletim de ocorrência que o cabo Clóvis Damasceno de Carvalho Junior portava uma espingarda calibre 12, o relatório final não indica quem efetuou o disparo que atingiu Ryan nem de qual arma partiu o projétil, tampouco aponta autoria dos tiros que mataram Gregory. Em depoimento, Clóvis afirmou que efetuou sete disparos com sua arma.
PMs narraram confronto
Os policiais ouvidos afirmaram que a ocorrência começou após uma ida ao local para averiguar denúncia de tráfico. Em depoimento, o sargento Jorge Luiz Tilly Filho disse que, ao chegarem, os agentes viram cerca de dez pessoas, quatro delas em motocicletas. Segundo ele, ao notarem as viaturas, essas pessoas teriam retornado em direção ao ponto de tráfico e, quando a equipe se aproximou, os PMs teriam sido alvejados, iniciando o revide.
O cabo Marcelo Oliveira Silva corroborou essa narrativa e afirmou que houve “intensa troca de tiros”, a ponto de ter sido necessário acionar reforço. Já os policiais da Força Tática, sargento Alex Ferreira Alvino, soldado Mauro Gomes de Moraes Junior e cabo Clóvis, disseram que foram acionados para apoiar uma equipe da Rocam que estaria sob disparos. Eles afirmam que, ao chegarem ao local, se depararam com cerca de sete pessoas armadas e que houve confronto com os agentes.
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Segundo os três, Gregory e o adolescente que sobreviveu tentaram fugir em uma motocicleta enquanto continuavam atirando e acabaram atingidos após percorrer alguns metros. Eles afirmaram que os dois portavam armas de fogo e rádios comunicadores, que a motocicleta tinha placa falsa e seria produto de furto, e que os policiais revidaram em legítima defesa.
Nos depoimentos, Alex relatou ter efetuado cinco disparos de fuzil, Mauro três disparos com pistola calibre .40 e Clóvis sete disparos com espingarda calibre 12. Eles também sustentaram ser improvável que um disparo policial tenha atingido Ryan, pela distância, pelo ângulo e pelas condições de visibilidade.

Testemunhas disseram que só os policiais atiraram
A versão policial é contestada por testemunhas ouvidas no inquérito. A cozinheira escolar Beatriz da Silva Rosa, mãe de Ryan, afirmou à Polícia Civil que o filho brincava em frente de casa com primos e vizinhos, enquanto ela o acompanhava. Segundo ela, ao ouvir os disparos, viu policiais com armas apontadas para cima da rua. Ryan foi atingido na barriga, socorrido por familiares e levado à Santa Casa de Santos, onde passou por cirurgia, mas morreu.
Ela também relatou que em um intervalo de 10 meses, além do filho pequeno, ela perdeu o companheiro Leonel Andrade Santos, 36, foi fuzilado junto com o amigo de infância Jefferson Ramos Miranda, 37, em fevereiro, durante a Operação Verão — que deixou mais de 56 mortos pelas forças policiais na Baixada Santista.
Beatriz entregou à Polícia Civil cinco cápsulas que, segundo ela, teriam sido recolhidas por moradores da rua. Outra testemunha afirmou que viu policiais na parte baixa da via e uma motocicleta passar pelo local, sendo alvo de disparos por parte dos agentes. Ela disse não ter visto revide e relatou que avisou aos policiais sobre a criança ferida, mas que eles teriam dito desconhecer a situação.
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Uma terceira testemunha afirmou que apenas os policiais atiraram e que os disparos continuaram mesmo após os ocupantes da motocicleta caírem.
O adolescente que sobreviveu afirmou que estava na motocicleta com Gregory e que, apesar de estarem com rádios comunicadores, não estavam armados. Disse que Gregory fazia entregas para o tráfico. Segundo ele, ao subirem a rua, pararam ao ouvir ordem policial, levantaram as mãos e, ainda assim, os disparos começaram. Ele foi atingido e perdeu a consciência.
Perícias indicam armas de múltiplos calibres
As perícias reunidas no inquérito apontaram a presença de cápsulas e cartuchos de diversos calibres em ruas diferentes. Na Rua Nove, foram encontrados estojos de fuzil 5,56, calibre 12 e .40.
Na Rua Três, estojos e cartuchos de 9mm, além de munições .40 e .38. Também foram registrados vestígios de sangue, um par de chinelos e dois veículos — uma Honda PCX e uma Honda Twister — com perfurações por disparos. O perito concluiu que os vestígios são compatíveis com tiros disparados em direções opostas.
O exame residuográfico deu negativo para cinco policiais militares e para Gregory; o relatório ressalta que resultado negativo não exclui disparo. O adolescente sobrevivente não passou pelo exame porque estava hospitalizado.
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Os laudos das armas apontaram que todas estavam em condições de funcionamento, apresentavam sinais de uso recente e tinham calibres compatíveis com as munições encontradas. Foram apreendidas pistolas .40 da PM e, atribuídas aos adolescentes, uma pistola 9mm e um revólver .38 com numeração raspada. Um laudo de comparação balística de 2025 concluiu que alguns estojos encontrados no local são compatíveis com a pistola 9mm e com o revólver .38 atribuídos aos ocupantes da motocicleta. Segundo o delegado, isso indicaria que parte dos disparos não partiu de armas policiais.
O que dizem as autoridades
A Ponte procurou a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) para questionar se foi instaurado Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar a conduta dos policiais envolvidos, qual é a situação funcional dos agentes e se houve afastamento ou adoção de medidas administrativas. A reportagem também perguntou se a Polícia Militar abriu procedimento interno sobre o caso e se os policiais permanecem em serviço operacional. Até a publicação deste texto, não houve resposta. Caso haja, a matéria será atualizada.

