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Balkan Insight — Jornalismo Investigativo sobre os Bálcãs e Leste Europeu

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Após o fim da guerra em 1999, ele empreendeu um ato raro e corajoso: reuniões diretas com pessoas que participaram na sua prisão, tortura, investigação, julgamento e condenação durante a década de 1980.
“O objetivo dessas reuniões não era a vingança, mas a busca pela verdade”, explica. Queria informá-los pessoalmente de que o Kosovo é livre e dizer-lhes o que ele sabia e eles não, ao mesmo tempo que ouvia o que eles sabiam e ele não.
Este foi um processo genuíno de justiça transicional pessoal, baseado não na punição, mas no confronto e na iluminação do passado, e na transmissão da mensagem de que a sociedade do Kosovo não deve ser construída sobre o ódio, mas sobre a verdade e o respeito pelo sofrimento. “A reconciliação deve ocorrer primeiro entre os albaneses, seguida de discussões sobre a reconciliação albanesa-sérvia”, argumenta.
Cetta não realizou nenhuma reunião sem informar, antes e depois, os membros da Associação de Presos Políticos, bem como os seus amigos e companheiros de sofrimento.
Ele diz que tal processo deveria ter sido liderado por instituições estatais. No entanto, como ele afirma, “na realidade, os indivíduos que ocupam cargos nas instituições estatais do Kosovo reuniram-se com pessoas do antigo sistema, não para fazer justiça, mas para processá-las de acordo com as suas próprias necessidades e integrá-las no seu sistema”.
O fim da guerra não pôs fim à violência. Em Agosto de 2000, quase duas décadas depois de ter sido ferido por balas da polícia sérvia numa manifestação estudantil em Pristina, Cetta foi gravemente ferido na cidade de Bajram Curri, na Albânia, quando entrava no Kosovo.
Segundo Cetta, apresentava um projecto que visava garantir que o poder local no Kosovo fosse exercido por indivíduos honestos e profissionalmente competentes, independentemente da orientação política. Ele afirma que o atentado contra a sua vida foi o resultado da cooperação entre as estruturas estatais albanesas e grupos parapolíticos no Kosovo com o objetivo de tomar o poder sem legitimidade popular. “Em 1981 fui ferido pela Sérvia; em 2000, fui ferido pela máfia”, diz ele.
A história de Cetta não é apenas a história de um prisioneiro político, mas a história de uma postura ética que desafia tanto a violência do sistema opressivo como o oportunismo da sociedade pós-guerra do Kosovo.
Ele não procurou vingança, não se tornou parte de narrativas simplificadas de vítimas, nem explorou o seu sofrimento para obter capital político. Em vez disso, procurou a verdade, o confronto e a responsabilidade moral, mesmo quando estas exigências eram inconvenientes para quem estava no poder e desconfortáveis para a sociedade.
O seu percurso desde a resistência estudantil, as lesões, a longa prisão política, a libertação antecipada, a actividade política no exílio, a contribuição para a libertação do Kosovo, até ao confronto com representantes do sistema repressivo, demonstra que a justiça transicional não é apenas uma questão de instituições, mas acima de tudo uma questão de consciência. Na ausência de vontade do Estado para iluminar o passado e separar claramente a responsabilidade da vitimização, ele optou por fazê-lo pessoalmente, aberta e publicamente.
Por esta razão, ele continua a ser um tipo diferente de preso político – não porque tenha sofrido mais ou menos que os outros, mas porque se recusou a construir a sua identidade sobre o ódio e o silêncio.
A sua história ainda hoje nos desafia com uma questão fundamental: queremos uma sociedade construída no esquecimento e no compromisso com a injustiça, ou na verdade, na responsabilidade e no respeito pelo sofrimento humano?
Shkelzen Gashi escreveu vários livros sobre a história recente do Kosovo, incluindo ‘Adem Demaci: Biografia Não Autorizada’ e ‘Massacres no Kosovo 1998-1999’.
As opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as opiniões do BIRN.
📌 Fonte original: Visão dos Balcãs
Este conteúdo foi produzido e publicado originalmente pelo Visão dos Balcãs — veículo de jornalismo investigativo especializado em reportagens sobre os Bálcãs e o Leste Europeu, integrante da Rede de Jornalismo de Crime Organizado e Corrupção (OCCRP). Todo o conteúdo é propriedade da Balkan Insight e reproduzido aqui com fins jornalísticos e informativos. Para acessar o material original em inglês, acesse balkaninsight. com.



