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Por Catarina Duarte
Jhonnatan Silva Barbosa espancou e asfixiou Gabriel da Silva Nascimento ao acusá-lo injustamente de ter furtado o próprio carro em Açailândia, no interior do Maranhão. Julgamento havia sido adiado diversas vezes. Réu está agora foragido
O empresário Jhonnatan Silva Barbosa, de 36 anos, foi condenado por tentativa de homicídio qualificado na última segunda-feira (16/3) por ter espancado Gabriel da Silva Nascimento, jovem negro de 27 anos, ao acusá-lo injustamente de ter furtado o próprio carro em 18 de dezembro de 2021, em Açailândia, no interior do Maranhão. O réu conseguiu, no entanto, fugir do fórum onde foi sentenciado e segue foragido.
Jhonnatan foi julgado por um tribunal do júri montado pela Justiça do Maranhão no fórum de Açailândia. O corpo de jurados entendeu, por maioria, que ele tentou matar Gabriel, com o agravante de ter asfixiado a vítima e usado recursos que dificultaram a defesa dela.
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O agressor ainda era acusado de ter agido por motivo torpe, qualificadora com a qual os jurados, no entanto, não concordaram. A acusação entendia que essa qualificadora era caracterizada por uma conduta racista de Jhonnatan, que teria atacado Gabriel justamente por ele ser negro e, em função disso, vê-lo como um criminoso. “Lamentamos esse entendimento [do júri], porque não temos dúvida de que o puro preconceito racial foi a motivação do crime”, disse à Ponte o advogado Marlon dos Reis, que auxiliou a vítima ao atuar como assistente da acusação. Apesar da discordância pontual, a acusação não pretende recorrer da decisão.
Após a condenação pelo júri, o juiz Euclides dos Santos Ribeiro Arruda fixou a pena em nove anos, quatro meses e 15 dias de reclusão, a ser cumprida em regime inicial fechado. Antes de ser dada a sentença, no entanto, Jhonnatan fugiu do fórum e tem o paradeiro desconhecido desde então. Há agora um mandado de prisão aberto contra ele.
A Ponte questionou o Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA) sobre em qual circunstância Jhonnatan deixou a sala em que ocorria o julgamento e se ele era acompanhado por algum agente público. Em resposta, a corte comunicou que, naquela altura, ainda sem haver condenação, não poderia restringir a liberdade do réu. “A ordem de prisão só pode ocorrer após a decisão dos jurados, por meio de mandado de prisão, cuja execução cabe então às autoridades policiais.”
Conforme mostrou a Ponte, Jhonnatan deveria ter sido julgado em abril de 2025. Ele conseguiu, no entanto, adiar o julgamento para junho após pedir maior tempo hábil para elaborar sua defesa. Já às vésperas da nova data, houve uma nova suspensão, desta vez em função da ausência de defesa técnica do réu e da tramitação de um pedido de desaforamento — ou seja, de transferência do julgamento para um outro município.

Relembre o caso
Na manhã em que quase foi morto por Jhonnatan, Gabriel se preparava para uma curta viagem, na qual participaria de uma confraternização do banco onde trabalhava como recepcionista. Por volta das 6h20 daquele dia, ele desceu à rua com ferramentas em mãos para fazer uma última checagem da refrigeração do carro, um Chevrolet Agile que havia adquirido dois meses antes.
Chegaram então à rua Jhonnatan, um empresário local, e a esposa, a dentista Ana Paula Costa Vidal, a bordo de uma BMW, ocasião em que desembarcaram e foram a pé logo em direção ao jovem negro.
Questionado pelo casal sobre o que fazia ali, Gabriel disse que vistoriava o próprio carro para viajar.
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O agressor contestou a resposta e ordenou que descesse, já o acusando de furto. O dono do veículo negou a acusação por mais de uma vez, mas atendeu ao pedido, saindo com as mãos para cima, com a preocupação de deixar evidente que não oferecia risco algum. Foi então que começaram as agressões por parte de Jhonnatan e também de Ana Paula, sem que a vítima revidasse.
Em contato anterior com a Ponte , Gabriel relatou ter ficado evidente a dimensão racista do caso — a mãe da agressora chegou a pedir a ele, disse a vítima, que não atribuísse à filha o crime de racismo. “Eles fizeram uma avaliação por conta própria e um julgamento, foram um juiz naquela hora. Fizeram uma avaliação pelas minhas vestes, pela minha cor”, contou. “Aliás, não foi nem um julgamento, porque em um julgamento você pode se explicar, que foi a primeira coisa que tentei fazer. A chave estava na ignição, eu estava com os documentos do carro.”
Agressões e tentativas de asfixia
Gabriel foi jogado no chão por mais de uma vez e encurralado contra um muro. Ele levou socos, tapas, chutes e pisões. Jhonnatan pisou três vezes no pescoço da vítima para asfixiá-la e também lhe aplicou um mata-leão na tentativa de matá-la, segundo descreveu a denúncia oferecida pelo Ministério Público do Maranhão (MP-MA).
A mulher de Jhonnatan, Ana Paula, também pressionou o pescoço do jovem negro com as mãos e atiçava o marido: “Não deixa ele escapar.” As agressões só cessaram após um vizinho, Marcos Wessley Vieira de Oliveira, correr ao local e interceder pelo homem agredido, repetindo por várias vezes que ele era morador de um prédio naquela rua e dono do Chevrolet Agile.
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À Justiça, Jhonnatan e Ana Paula negaram os crimes imputados a si e alegaram que tentaram conter Gabriel enquanto buscavam a polícia. Uma câmera de segurança registrou, no entanto, toda a dinâmica das agressões. Além disso, o caso chegou à Polícia Civil apenas por iniciativa da vítima, que foi quem registrou um boletim de ocorrência — ele só conseguiu fazer isso e também realizar o exame de corpo de delito no dia seguinte ao ocorrido, já que, no sábado em que houve a tentativa de assassinato, uma “falha no sistema” da delegacia impedia o registro, segundo afirmaram os policiais.
Os agressores não foram presos em flagrante. Jhonnatan respondia até então em liberdade. Já Ana Paula, que a princípio poderia ser levada a júri também por tentativa de homicídio, teve sua conduta desclassificada pela juíza Selecina Henrique Locatelli, com anuência do MP-MA. Ou seja, a Justiça deixou de considerar a eventual ocorrência de crime contra a vida, o que colocaria a ré diante de um Tribunal do Júri, e a agressora responde agora apenas por lesão corporal.
Agressor já tinha condenação
Jhonnatan já havia sido condenado por um outro caso em 2019, por ter matado uma pessoa ao atropelá-la em 2013. Na ocasião, ele dirigia mesmo sem ter carteira de habilitação, após voltar de um aniversário.
Ele não prestou socorro à vítima, sob a alegação de ter tido medo de sofrer retaliações de pessoas que se aglomeravam no local do acidente. Testemunhas relataram, no entanto, que poucos moradores se aproximaram do local, sem que ninguém estivesse com os ânimos exaltados.
A sentença no caso impunha uma multa e uma pena restritiva de direitos na modalidade prestação pecuniária, uma alternativa à prisão. O caso transitou em julgado em 2023.
Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo



