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Pesquisa “Sonhos da Favela 2026”, do Instituto Data Favela, revela que moradores querem direito de ir e vir com tranquilidade, não mais operações

Quando percebe que aos 46 anos seus medicamentos diários ultrapassam dez comprimidos — muitos deles relacionados a tratamentos psicológicos —, Renata tem a certeza de que o abalo psíquico não vem da falta, mas do excesso de lucidez diante das reiteradas formas de violência que vivenciou e segue vivenciando.
“Sou uma mulher preta, filha de uma mulher preta e mãe de uma jovem de 26 anos. Sou avó de um menino de 5 anos. Sou moradora do Alemão há 32 anos. Sou cofundadora do Instituto Papo Reto. Sou defensora de direitos humanos. Sou redutora de danos, sou humana”, define Renata Trajano. Como toda humana, sente. Como toda mulher preta e favelada, carrega “dores e traumas”.
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Renata atribui parte desses remédios não ao ativismo, mas ao que o torna necessário: a violência de Estado. Teve ainda mais certeza disso quando, em outubro de 2025, durante um afastamento para cuidar da saúde mental, acordou em meio ao massacre promovido pela polícia de Cláudio Castro (PL) nos Complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, que resultou em 121 mortos — 117 civis e quatro policiais —, apontada como a operação mais letal já registrada no país.
Impedida pelos companheiros de luta de sair às ruas para identificar e carregar os corpos, ajudou de casa ligando para familiares de outras regiões e estados para comunicar as mortes.
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Como alguém que enfrenta tudo isso e acumula traumas no corpo pode confiar em um braço armado do Estado que nunca a acolheu ou protegeu? A pergunta de Renata ecoa em favelas de todo o Brasil e encontra resposta em números que confirmam o que moradores já sabem na pele: polícia não é sinônimo de segurança.
Seis em cada dez não confiam na polícia
É o que revela a pesquisa Sonhos da Favela 2026, realizada pelo Data Favela, que ouviu 4.471 pessoas acima de 18 anos em favelas e comunidades urbanas de todo o Brasil. A maioria dos entrevistados tinha entre 30 e 49 anos (58%). Mulheres (62%) e pessoas negras (82%) são predominantes, e 35% concluíram o ensino médio. A vulnerabilidade econômica marca esse perfil: seis em cada dez pessoas ganham até R$ 1.520 por mês.
No tema da segurança pública, os números em âmbito nacional são contundentes: seis em cada dez entrevistados afirmaram não confiar nas polícias Militar e Civil para protegê-los de eventuais violências, e mais de um terço não confia em nenhuma instituição. Enquanto São Paulo acompanha a média brasileira, o Rio de Janeiro apresenta um índice de desconfiança ainda mais elevado — sete em cada dez.
Para Cléo Santana, copresidente do Data Favela, esse sentimento é resultado de um contexto histórico e cotidiano em que a presença do Estado nos territórios se dá, muitas vezes, de forma armada, com alvos escolhidos a partir da cor da pele, do modo de vestir e de falar. O resultado é a marginalização de moradores de regiões que já enfrentam faltas estruturais.
Quando perguntados sobre como se sentem com a presença da polícia dentro da favela, 24% dos entrevistados optaram por não responder. Outros 25% afirmaram que a presença policial não altera a sensação de segurança, enquanto 13% disseram sentir medo e insegurança. Apenas 22% se sentem mais seguros com o policiamento no território.
“Podemos inferir que esse silêncio é sim um indicador de medo, uma percepção de risco que se eleva sobretudo em território que vivem sob maior pressão”, analisa Cléo Santana. Quando se olha para o recorte do Rio de Janeiro, esse dado sobe para 30%. “Olhando para os últimos acontecimentos violentos no Rio, que ainda estão frescos na memória dos cariocas, dá para entender porque esse número se apresenta maior em relação à média nacional”, explica.
Para Renata, “se não tiver a operação policial, a favela tá maravilhosa”. Isso não significa que ela seja favorável ao tráfico de drogas — o que chama de varejo. Reconhece que ele também comete violências e viola direitos, mas afirma que “quando tem a polícia, a gente tem uma sobrevivência de ter que correr, de ter que deitar no chão, muito maior do que quando tem uma guerra de facções”.
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Para ilustrar, cita o exemplo do próprio neto, uma criança branca de 5 anos. “Ele não pode ver a polícia porque acha que a polícia é ruim, vai dar tiro e vai matar. Então, assim, como você educar uma criança que a polícia é uma agente do Estado que diz servir e proteger?”, questiona.
“A polícia não era amiga”
Assim como o neto de Renata, Vinnyer Souza, um homem negro de 28 anos desmistificou, desde cedo, o lugar do policial como herói. Na primeira infância, tinha os agentes como referência de proteção. Quando começou a ir ao mercadinho, ou fazer pequenos trajetos para a avó e a mãe, ouviu o primeiro alerta: “Cuidado que tá cheio de polícia na rua”. Um contrassenso: “Eu ficava pensando: ‘Mas a polícia não tá para me proteger? Por que eu tenho que ter cuidado com a polícia?’”, lembra.
Só entendeu a orientação ao presenciar abordagens violentas sem motivo aparente, vizinhos tratados como suspeitos apenas por morarem no mesmo território. Foi quando entendeu que “a polícia tava ali, mas ela não era amiga. Ela podia não ser inimiga, mas não era amiga”.
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Vinnyer nasceu e foi criado no Fabril, bairro periférico de Cubatão, na Baixada Santista, em São Paulo. Mudou-se para a Zona Norte de Santos quando casou, depois dos 20 anos. É formado em produção cultural e cinema, trabalha como fotógrafo e documentarista, sempre com um pé fincado nas causas sociais — inspiração que veio da mãe, conselheira tutelar que participou do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) de Cubatão.

Participando de seminários e palestras sobre segurança pública ainda na adolescência, Vinnyer consolidou sua leitura: a polícia estava ali para proteger a elite e as pessoas de poder aquisitivo maior, fazendo com que moradores de áreas periféricas não tivessem acesso aos espaços privilegiados da cidade.
Essa percepção de Vinnyer não surge no vazio. Na Baixada Santista, operações policiais recentes deixaram um rastro de mortes e denúncias que ajudam a entender por que, ali, a polícia é percebida menos como proteção e mais como ameaça.
Na Baixada Santista, operações deixaram dezenas de mortos
Entre 2023 e o início de 2024, a Baixada Santista viveu algumas das operações policiais mais letais do estado de São Paulo. Até 18 de março de 2024, a segunda fase da Operação Escudo havia deixado 48 mortos. Somadas às mortes dessa operação e às ações da Operação Verão, foram 84 vidas perdidas apenas na região.
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Os dados constam do II Relatório de Monitoramento de Violação de Direitos Humanos na Baixada Santista durante a segunda fase da Operação Escudo. O documento, elaborado pela Ouvidoria da Polícia de São Paulo em parceria com organizações da sociedade civil e movimentos de defesa dos direitos humanos, não pretende esgotar o período, mas registrar casos emblemáticos ocorridos durante as ações policiais.
O relatório reúne oito casos envolvendo 12 mortes e duas pessoas feridas em Santos, São Vicente e Cubatão. Entre as vítimas fatais, 11 eram homens negros — um deles uma pessoa negra com deficiência. Em um dos casos, a raça não foi identificada.
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Os episódios descritos ajudam a dimensionar o padrão de violência denunciado por moradores da região. Há registros de execuções, alterações de cenas de crime, ausência de socorro e falsos socorros atribuídos à Polícia Militar, além da inviabilização de perícias técnico-científicas. O documento também aponta tiros de fuzil, a curta e a longa distância, em regiões letais como rosto e tórax, além de ameaças e intimidações a testemunhas.
O falso progresso que aprisiona
Mesmo com todo esse ambiente hostil vivenciado nas periferias, 6 em cada 10 entrevistados concordam ou concordam totalmente que se sentem mais seguros e respeitados na favela em que moram do que em outros bairros da cidade — evidenciando que, para essa população, a ameaça muitas vezes vem de fora, e não de dentro.
E essa percepção também é política pública. Vinnyer ilustra de maneira didática a violência e o racismo que a segregação entre a cidade e a periferia — como se fossem territórios distintos — carrega. Nos últimos anos, conta, a prefeitura reformou a avenida principal do bairro, que virou um centro comercial com lojas, mercados e farmácias.
“As pessoas não precisam sair dali para comprar nada”, conta. O que muitos enxergam como avanço e desenvolvimento, ele avalia como uma política de exclusão deliberada, de cerceamento de acesso, de fazer com que as pessoas da área periférica tenham tudo dentro do seu território para não transitarem pelos bairros elitizados da cidade.
“O que um pobre, favelado, uma pessoa da periferia vai fazer no Gonzaga [um dos bairros mais nobres da cidade], vai fazer na Ponta da Praia, vai fazer nos Canais, sendo que na Zona Norte ele tem tudo?”, questiona. Dentro do território, sofrem a repressão policial; fora dele, a exclusão e a inadequação social.
“Quando a polícia entra na Zona Norte, ela vem para exterminar, para matar, para marginalizar mais ainda, trancar mais ainda a periferia no território marginalizado para que não tenha acesso”, afirma. Uma consequência disso é, também, o apagamento. Foi tentando lutar contra ele que Vinnyer criou o projeto Santos Invisível, fotografando locais da cidade “que as pessoas fingiam que não existia”.
“Andar tranquilamente na favela que nasci”
Não é à toa que o direito de ir e vir com tranquilidade é o principal anseio para 2026, apontado por 47% dos entrevistados. Na sequência, 29% afirmam que a expectativa é por menos violência, acompanhada de um policiamento mais respeitoso (17%). Para Cléo, copresidente do Data Favela, estes “são dados que indicam desejos contrários a novas operações”.
Essa percepção é essencial e só possível porque dados foram construídos a partir de vivências reais. “Não dá para produzir dados sobre segurança pública na favela sem a favela”, afirma Cléo. Para ela, a favela não é só violência e criminalidade — o território é formado sobretudo por cidadãos de bem que pensam e avaliam políticas, instituições e direitos.
Renata, moradora do Alemão, reforça: “Ninguém pode falar da favela tão bem quanto você que tá nela, né? O cara pode estudar 10.000 anos na favela, mas ele nunca vai ser um de nós. Ele nunca vai poder falar como nós. Ele nunca vai poder viver o que nós vivemos”, defende.
E é por entender tão bem o dia a dia do seu território, que mesmo em tratamento psicológico para ansiedade e depressão, não consegue parar. “Porque se eu parar, amanhã eu vou carregar mais um corpo. Se eu parar, amanhã eu vou carregar dois. Se eu parar, amanhã eu vou carregar três”.
Eles seguem sonhando e no corre
A pesquisa deixa nítido que a negligência não é um acidente, mas um projeto. “A dificuldade de ascensão social não é falta de ‘corre’, mas o peso de uma história que insiste em manter certos corpos em espaços de subalternidade”, aponta o relatório.
“O desejo de ter o próprio negócio continua sendo o maior sonho profissional de quem vive na favela, compartilhado por 38% dos entrevistados. Somam-se a ele 24% que almejam, acima de tudo, trabalhar com o que amam e 16% que sonham em passar num concurso público, demonstrando um desejo contundente por estabilidade”, diz o relatório.
Histórias como as de Vinnyer e Renata, que encontraram no trabalho não apenas fonte de renda, mas também uma possibilidade de enaltecer, proteger e evitar o apagamento de seus territórios, ecoam no dia a dia das favelas brasileiras.
Além do trabalho com a fotografia, Vinnyer participou da criação do FITS — Fórum Infantojuvenil do Território de Santos, uma iniciativa desenvolvida no âmbito do projeto Salve!. A proposta era ouvir crianças e adolescentes das comunidades da Baixada Santista para compreender como elas vivenciam o território no cotidiano e quais são suas percepções sobre segurança, cuidado e direitos.
O projeto, conduzido pelo Instituto Procomum e noticiado pela Ponte no ano passado, buscou fortalecer iniciativas criadas por moradores de favelas e periferias da região que propunham soluções e inovações em segurança pública a partir do próprio território. A lógica era inverter a chave tradicional: em vez de políticas impostas de fora para dentro, moradores construindo respostas para problemas que conhecem na pele — favelado criando para favelado.
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Há mais de 10 anos, o Instituto Papo Reto, que Renata ajudou a fundar, contribui para “a produção de conhecimento e a construção de redes locais de ação que unem escuta, denúncia e proposição política a partir do território”, no Complexo do Alemão. Ambos mostram que “o ‘corre’ continua sendo a tecnologia social que mantém o território vivo”, como define o Data Favela.
“A favela tem o direito de prosperar, e isso não deveria ser uma exceção, mas a regra”, diz o documento. “O desejo de transitar com segurança dentro do território não é um pedido de repressão, mas um clamor pelo direito fundamental de ir e vir sem medo”, conclui Cléo.

