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Por Gil Luiz Mendes
Depoimento foi dado durante acareação com a mãe da vítima; mais de um ano após a morte de Reginaldo Júnior, o África Menor, investigação segue sem conclusão
A principal testemunha da morte do artista de rua Reginaldo Antônio Ferreira Júnior, conhecido na cena de pichação como África Menor, de 33 anos, afirmou à Polícia Civil que mentiu em seu primeiro depoimento após sofrer pressão de policiais militares envolvidos na ocorrência. O caso ocorreu em janeiro de 2025, em Sorocaba, no interior de São Paulo.
A declaração foi feita durante uma acareação realizada em outubro de 2025 na Delegacia de Homicídios da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) de Sorocaba. O procedimento reuniu o motorista do carro em que Reginaldo estava e Cássia Cristina Oliveira de Rezende Ferreira, mãe do artista, e ocorreu após solicitação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) para esclarecer divergências entre os depoimentos.
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Na ocasião, o motorista afirmou que, logo após a ocorrência, policiais teriam indicado qual versão deveria apresentar em seu depoimento inicial.
A primeira oitiva da testemunha ocorreu no plantão policial, no dia seguinte à morte de Reginaldo. Na ocasião, ele declarou que havia encontrado o artista por acaso perto de uma pista de skate e que teria apenas dado uma carona até outro ponto da cidade.
Segundo esse depoimento, durante uma tentativa de abordagem policial, Reginaldo desceu do carro ainda em movimento e correu em direção a uma área de mata. A testemunha afirmou que não sabia que ele estaria armado e disse que não presenciou a troca de tiros, relatando apenas ter ouvido disparos enquanto era abordada pelos policiais.
Meses depois, na acareação, o motorista afirmou que essa versão havia sido apresentada após orientação dos próprios policiais que participaram da ocorrência.
Motorista relata perseguição e pressão de policiais
Durante o procedimento, a testemunha afirmou que conhecia Reginaldo e que os dois haviam combinado de se encontrar no dia da ocorrência. Segundo ele, o encontro foi marcado pelo WhatsApp para que pudessem sair juntos para fazer pichações. “Eu tinha um conhecimento dele na amizade já há um tempo e a gente combinou de se encontrar pra gente fazer uns desenhos que a gente sempre fez”, declarou.
O motorista afirmou que buscou Reginaldo de carro na casa da sogra dele e que os dois passaram a circular pela cidade em busca de locais abandonados para pintar. “A gente procura fazer nos lugar mais demolido assim e ele fazendo eu falei os homens tá vindo do outro lado. Mas finge que você tá mijando”, relatou.
Segundo a testemunha, ao perceberem a aproximação da polícia, os dois entraram no carro para deixar o local. As viaturas então teriam iniciado uma perseguição. Durante a fuga, Reginaldo teria demonstrado medo de ser abordado. “Ele falou não mano, não faça isso e tal, né? Eu tô na casa da minha sogra, não posso rodar mano”, contou.
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De acordo com o relato, Reginaldo decidiu descer do carro para tentar fugir correndo. A testemunha afirmou que, após parar o veículo, foi retirada do carro por um policial e imobilizada. “O policial já abriu a porta do meu carro já grudou eu né? Deu um soco daí ele tirou do carro jogou no chão. Daí eu fiquei imóvel ali”, disse.
Pouco depois, afirmou ter ouvido os tiros.“Deu uns 10 segundos. Eu só ouvi os estalos daí entendeu? Tá tá vários, eu não sei ao certo o número, mas eu ouvi vários disparos aí.”
Ainda segundo a testemunha, policiais teriam pressionado para que ele apresentasse uma versão diferente em seu primeiro depoimento. “A versão que a polícia implantou na hora ali, entendeu? Isso aí com a coação policial, os caras tudo pra cima de mim ali”, afirmou.
Ele relatou que um policial teria orientado qual narrativa deveria apresentar. “O negócio é o seguinte irmão, pra nós terminar logo isso aí não dá nada pra ninguém. Você achou ele ali na rua certo, pegou ele deu uma carona aí aconteceu tudo que aconteceu aí e você não sabia que ele tava armado e já era”, disse a testemunha, reproduzindo o que teria ouvido.
Segundo ele, a orientação foi repetida durante a abordagem. “Os caras falavam pra mim assim: então você não sabia que ele tava armado? Então você não sabia que ele tava armado.”
O motorista afirmou que acabou repetindo essa versão porque estava sem assistência jurídica naquele momento. “Eu tipo sem advogado, sem ninguém ali por mim”, disse.

PMs usavam fuzil e pistolas na ocorrência
A versão apresentada pelos policiais militares sustenta que Reginaldo teria reagido à abordagem e efetuado disparos contra a equipe durante a fuga. Participaram da ocorrência os cabos Alessandro de Souza Ferreira e Gioliano Tomazini Viana e o tenente Rafael Cheles Gonçalves, todos integrantes do 14º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep). Nenhum deles usava câmera corporal.
Segundo o boletim de ocorrência, a perseguição começou após outra equipe policial tentar abordar um Toyota Fielder conduzido pela testemunha. O veículo teria desobedecido à ordem de parada, dando início ao acompanhamento policial.
Ainda de acordo com o registro, após o carro parar, a testemunha foi abordada enquanto Reginaldo teria desembarcado pelo lado do passageiro e corrido em direção a uma área de mata.
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O documento afirma que os três policiais entraram na mata para persegui-lo. Na sequência, “foram ouvidos disparos” e, segundo o relato registrado no boletim, Reginaldo teria tentado atirar contra os agentes, momento em que foi baleado. Ele foi socorrido à Unidade Pré-Hospitalar da Zona Norte de Sorocaba, mas chegou ao local já em óbito.
O boletim também registra a apreensão das armas utilizadas pelos policiais — um fuzil calibre 7.62 e duas pistolas calibre .40 — e de uma pistola calibre .380 atribuída a Reginaldo. As armas foram encaminhadas para perícia, e foram solicitados exames residuográficos nos três policiais envolvidos na perseguição e na testemunha que dirigia o carro.
Relatório policial acolhe versão dos PMs
A Polícia Civil apresentou um relatório final do inquérito em março de 2025, pouco mais de dois meses após a morte de Reginaldo. No documento, assinado pelo delegado Camilo Pastor Veiga, a investigação acolheu a versão apresentada pelos policiais militares de que teria havido confronto durante a fuga.
Segundo o relatório, após perseguição ao carro em que Reginaldo estava, ele teria descido do veículo e corrido em direção a uma área de mata, onde, de acordo com os agentes, teria efetuado disparos contra a equipe. Em depoimento durante a investigação, o cabo Alessandro de Souza Ferreira afirmou ter feito seis disparos. Os outros dois policiais que entraram na mata — o cabo Gioliano Tomazini Viana e o tenente Rafael Cheles Gonçalves — também disseram ter atirado. Participou ainda da ocorrência o policial Wesley Christian de Almeida, apontado no boletim como o motorista da viatura. Os PMs envolvidos não usavam câmeras corporais.
O relatório também registra a apreensão de uma pistola Taurus calibre .380 atribuída a Reginaldo. Segundo a versão policial, a arma tinha numeração raspada, seis cartuchos intactos e um outro picotado, que teria permanecido na pistola após uma falha no disparo. Ainda de acordo com os autos, foram encontrados no carro uma lata de tinta vazia, uma garrafa pet com tinta, corante, dois pincéis e um spray, itens que reforçavam a hipótese de que Reginaldo e o amigo haviam saído para pichar naquela noite.
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Às 22h22 da noite da ocorrência, Reginaldo chegou a enviar um áudio à esposa dizendo: “Ô, vida, eu estava no rolê com o moleque, e deu ruim aqui. Nóis tá dando fuga, vida”. Minutos depois, segundo a investigação, ele foi alcançado na Rua Dúlce Augusto de Almeida Faria, em um trecho onde a via atravessa um córrego e uma área de mata.
Baleado na cabeça, pescoço, tórax, nádega e perna, foi levado à Unidade Pré-Hospitalar da Zona Norte de Sorocaba, mas chegou ao local já morto.
Apesar da conclusão do inquérito, o Ministério Público solicitou novas diligências antes de qualquer definição sobre o caso. Em manifestação enviada à Justiça, o promotor Antônio Domingues Farto Neto, da 14ª Promotoria de Justiça de Sorocaba, apontou a necessidade de aprofundar a investigação para esclarecer a dinâmica da ocorrência.
Entre as medidas solicitadas estavam a busca por imagens de câmeras de segurança que pudessem ter registrado a perseguição, a obtenção das gravações das chamadas feitas ao telefone 190, a realização de perícia complementar na arma atribuída à vítima e a apresentação de documentos relacionados ao celular de Reginaldo. A família afirma que o aparelho desapareceu após a morte do artista.
Também foi solicitada a elaboração de um croqui indicando o trajeto percorrido pelas viaturas e pelo carro em que Reginaldo estava durante a perseguição.

Perícia não encontra vestígios de disparo na vítima
O croqui foi produzido posteriormente pelo Instituto de Criminalística. Segundo o laudo pericial, o desenho foi elaborado com base nas declarações prestadas pelos próprios policiais em vídeos anexados ao inquérito, que indicam os pontos da cidade por onde teria ocorrido a perseguição.
No documento também consta o registro de um vestígio encontrado no local. De acordo com o laudo, “sobre uma área de mata, próximo ao curso d’água, nas proximidades do local dos fatos, foi observado um cartucho de projétil de arma de fogo”.
A informação coincide com o que já havia sido registrado pela perícia realizada na cena da ocorrência, que também apontou a presença de apenas um cartucho de munição no local.
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Outra diligência solicitada pelo Ministério Público foi a realização de uma perícia complementar na pistola Taurus calibre .380 que os policiais afirmaram ter sido utilizada por Reginaldo durante a fuga.
O exame buscava identificar impressões papilares — as marcas deixadas pelos dedos — na superfície da arma. Nenhuma impressão digital foi encontrada na pistola.
Também foram realizados exames residuográficos para detectar vestígios de disparo de arma de fogo, mas não foram identificados resíduos compatíveis nas mãos ou nas roupas da vítima. Parte dessas diligências, no entanto, foi criticada por especialistas ouvidos pela Ponte.
Um perito criminal independente afirmou que a busca por impressões digitais em armas de fogo costuma ter baixa eficácia. “Normalmente a arma está suja de óleo. É muito difícil pegar impressões papilares ali. O normal é ir direto para o exame balístico”, afirmou.
Segundo ele, quando a arma é apreendida durante uma ocorrência policial, o próprio manuseio feito pelos agentes para desarmá-la pode comprometer a preservação de vestígios.
MP aponta diligências pendentes na investigação
Apesar de parte das medidas já ter sido realizada, o Ministério Público informou à Justiça que a Polícia Civil ainda não havia cumprido todas as diligências consideradas necessárias para esclarecer a morte de Reginaldo. Entre os procedimentos pendentes estavam a obtenção e transcrição das chamadas feitas ao telefone 190 relacionadas à ocorrência, a apresentação de documentos ligados ao celular da vítima — que desapareceu após o episódio, segundo a família — e a conclusão de laudos periciais ainda em elaboração.
Diante da manifestação do promotor Antônio Domingues Farto Neto, da 14ª Promotoria de Justiça de Sorocaba, o juiz Emerson Tadeu Pires de Camargo determinou que o inquérito retornasse à Polícia Civil para continuidade das investigações e concedeu novo prazo de 60 dias para o cumprimento das diligências.
A determinação ocorre após meses de atrasos na condução do caso. Como mostrou a Ponte, a Polícia Civil chegou a ignorar por meses pedidos de novas apurações feitos pelo Ministério Público e determinados pela Justiça.
Na prática, a nova prorrogação empurra a possível conclusão da investigação para maio deste ano, caso as medidas sejam finalmente cumpridas dentro do prazo estabelecido.
Para a família de Reginaldo, a demora prolonga a espera por respostas. “Eu só quero entender o que aconteceu com o meu filho”, disse à Ponte a mãe do artista de rua, Cássia Cristina Oliveira de Rezende Ferreira.
O que dizem as autoridades
Procuradas pela Ponte, as autoridades responsáveis pela investigação afirmaram que o caso segue em apuração. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) informou que solicitou diligências consideradas necessárias para esclarecer os fatos, pedido que foi acolhido pela Justiça, e que não há prazo definido para a conclusão das medidas pela Polícia Civil.
Já a Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP) afirmou que o inquérito está em andamento na Delegacia de Homicídios da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) de Sorocaba e que as equipes seguem realizando diligências complementares para esclarecer o caso.
Leia a íntegra das notas
Ministério Público de São Paulo
“O MPSP requereu o desenvolvimento de diligências imprescindíveis para elucidação dos fatos tratados, tendo sido acolhidos os requerimentos pelo judiciário. Não há prazo pré-estabelecido para conclusão das diligências pela Polícia Civil.”
Secretaria de Segurança Pública
“O caso é investigado pela Delegacia de Homicídios da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) de Sorocaba. O inquérito policial retornou à especializada, a pedido do Ministério Público, para a realização de diligências complementares. As equipes seguem empenhadas no cumprimento das diligências visando o total esclarecimento dos fatos.”
Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo



