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Entre banheiros ausentes e cacetetes de sobra, governantes terceirizam a gestão do Carnaval à força policial e transformam a folia em laboratório da militarização da vida
Quando a equipe da Ponte voltou do feriado de Carnaval, recebeu uma enxurrada de imagens de agressões de policiais militares e guardas civis contra foliões em diferentes cidades brasileiras durante a maior festa de rua do planeta. Foi o segundo final de semana em que nos deparamos com vídeos que mostram a mesma situação.
Enquanto o poder público agia com seu braço armado, questões básicas como banheiros químicos e planejamento foram deixadas de lado, demonstrando, mais uma vez, a falta da mais simples gestão de um evento anual e previsível em termos de público, sobretudo em cidades como São Paulo.
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Na capital paulista, o comerciante Matheus Conceição, que ouvimos aqui na Ponte, foi agredido pela GCM paulistana por tentar garantir o próprio sustento. Ele tinha autorização e documentos em ordem para vender produtos alcoólicos. A resposta da prefeitura ao caso foi reveladora: disse apenas que Matheus tem 30 dias para recuperar o que foi apreendido, comparecendo com os documentos solicitados. Os bens talvez voltem, mas quem arcará com os transtornos físicos, emocionais e financeiros de Matheus?
Há quase um ano, três textos que escrevi para essa newsletter tratavam de algo que chamei de militarização da vida, que ocorre quando a administração pública coloca forças de segurança para agir no lugar dos aparatos de habitação (como na Favela do Moinho), saúde (como nos casos de mortes durante surtos psicóticos) e educação (como nas escolas cívico-militares).
No âmbito da cultura, fica claro que a mesma aplicação foi feita ao longo do Carnaval de 2026 por diferentes governos. A solução é o uso da força pura e simples, ainda que se destaque na imprensa tradicional a atuação de policiais civis disfarçados de foliões que vão às ruas fazer um trabalho de inteligência para combater roubos e furtos no meio da festa.
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Pedir os documentos de Matheus era muito mais simples do que agredi-lo e danificar seus instrumentos de trabalho. Um fiscal poderia fazer isso, pois são contratados para isso, não?
O que difere a atuação violenta no Carnaval da atuação policial do Massacre de Paraisópolis é que, por enquanto, não houve feridos graves ou mortos. Mas queremos mesmo pagar para ver que é uma questão de tempo?
Há quem vá dizer que o problema são os humanos na instituição. O velho argumento de descontrole emocional ou das tais “maçãs podres” sempre é suscitado quando cenas como as que vimos durante o reinado de Momo são expostas. Talvez as pessoas que pensam assim sejam de uma inocência que chocaria Pollyana ou apenas queiram dar validação com um verniz lógico.
A violência policial não é uma exceção. É a regra. E seu uso é deliberado. Agentes de segurança que têm como canto a frase “espanca até matar” durante sua formatura não parecem ser treinados para desescalar conflitos, mas para serem a gasolina que os inflama. A regra não precisa estar escrita para ser uma regra. E, diante da violência policial crescente em todas as esferas da vida, falar de casos isolados é ignorar as milhares de vítimas deles.
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