Episódio reconstrói os dias de medo em São Paulo e mostra como centenas de mortes de civis foram apagadas da memória sobre maio de 2006

‘Memórias de Maio’: primeiro episódio do podcast da Ponte e do BdF revisita início do massacre de 2006
Mãs de Maio em protesto no centro de SP em 2015, marcando 9 anos dos Crimes de Maio | Foto: Rafael Bonifácio

“Foi só no ano passado, em 2025, que eu ouvi pela primeira vez a expressão ‘Crimes de Maio’.” É assim que começa “Memórias de Maio”, o primeiro episódio do podcast Crimes de Maio: o massacre que o Brasil ignora produzido pela Ponte Jornalismo em parceria com o Brasil de Fato.

Você talvez se lembre de maio de 2006 como a época do toque de recolher atribuído ao Primeiro Comando da Capital, o PCC, facção que surgiu nos presídios de São Paulo. Foram dias de medo. Os jornais mostravam ruas vazias, houve a imagem histórica da Avenida 23 de Maio deserta, pessoas correndo para casa e o aeroporto de Congonhas passando por varreduras para investigar suspeitas de bomba. Tudo isso faz parte do imaginário popular sobre os Crimes de Maio.

Mas o que talvez muita gente não saiba — ou não tenha na memória — é que, naquele mesmo período, mais de 500 pessoas foram mortas em São Paulo. Jovens, negros e moradores das periferias em sua maioria. Mortos em uma onda de violência que se espalhou pelo estado.

Entre 12 e 21 de maio de 2006, ataques atribuídos ao PCC deixaram 59 agentes públicos mortos no estado. No mesmo intervalo, ao menos 564 civis foram assassinados a tiros.

‘Memórias de Maio’: primeiro episódio do podcast da Ponte e do BdF revisita início do massacre de 2006
Avenida 23 de Maio vazia em meio aos Crimes de Maio | Foto: André Porto

Ao longo do episódio, os repórteres Paulo Batistella e Mariana Rosetti mostram como a memória daqueles dias ficou marcada principalmente pelos ataques da facção criminosa, enquanto centenas de mortes de civis receberam menos atenção e seguem, em grande parte, sem esclarecimento e responsabilização.

O ponto de partida do podcast é o encontro de Paulo Batistella com Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Independente Mães de Maio. Mãe de Edson Rogério Silva dos Santos, o Rogério, ela transformou o luto em mobilização política depois que o filho foi assassinado em Santos, em 15 de maio de 2006.

O episódio recupera reportagens de televisão, arquivos de jornais da época e entrevistas históricas produzidas pela Ponte para mostrar como a violência mudou de perfil ao longo daqueles dias. Enquanto os ataques do PCC dominavam a cobertura jornalística e o medo tomava as ruas, chacinas e execuções passaram a atingir principalmente homens jovens, negros e moradores das periferias.

“Memórias de Maio” também relembra casos emblemáticos daquele período, como a chacina do Parque Bristol, na zona sul da capital, e o assassinato de Ana Paula Gonzaga dos Santos, grávida de nove meses, de Eddie Joey Oliveira e da bebê Bianca, ainda no útero, em Santos. A mãe de Ana Paula, Vera Lúcia dos Santos, também é lembrada no episódio. Co-fundadora das Mães de Maio, ela morreu em maio de 2018 sem ver justiça pela filha, pela neta e pelo genro.

As histórias das famílias de Débora e Vera ajudam a entender como mães e familiares das vítimas passaram a disputar memória e justiça diante da ausência de respostas do Estado.

O episódio ainda traz entrevistas com o jornalista André Caramante, um dos fundadores da Ponte e repórter que cobriu os ataques de maio de 2006 na época, além de declarações públicas de autoridades do período, como o ex-governador Cláudio Lembo, o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos e o então comandante da Polícia Militar de São Paulo, coronel Eliseu Eclair Teixeira Borges.

Produzido com apoio do Instituto Procomum e da Open Society Foundation, o podcast Crimes de Maio: o massacre que o Brasil ignora será publicado semanalmente, sempre às terças-feiras. Ao longo de cinco episódios, a produção discute os antecedentes dos Crimes de Maio, a atuação de grupos de extermínio, o impacto da violência de Estado nas periferias e a luta das Mães de Maio por memória, justiça e reparação duas décadas depois do massacre.

Ouça o episódio

Referências deste episódio

Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo