Mães de Maio, movimentos sociais e coletivos culturais ocuparam a Avenida Paulista no 14º Cordão da Mentira para denunciar a impunidade dos Crimes de Maio e a violência do Estado

No caminhão de som, uma voz feminina evoca: “podem me prender, podem me bater que eu não mudo de opinião, daqui do morro eu não saio não”. A música é “Opinião”, de Zé Keti (1964). A bateria, então, toma a frente. Primeiro, saúdam Exu, o guardião das ruas. Depois, ao som de samba, o 14º Desfile do Cordão da Mentira começa.
O cortejo tomou a Avenida Paulista neste sábado (16/05) para marcar os 20 anos dos Crimes de Maio de 2006, o maior massacre urbano da história do país, quando mais de 500 jovens foram assassinados pela polícia em um intervalo de duas semanas.
A concentração foi no Parque Trianon, às 16h, e reuniu movimentos sociais, militantes, mães de vítimas da violência do Estado brasileiro, presos políticos da ditadura, sobreviventes do cárcere, representantes de povos indígenas, musicistas, grupos de teatro e coletivos culturais e artísticos.
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Mesmo após reiteradas tentativas do Estado brasileiro de apagar suas falhas da memória coletiva, as centenas de pessoas que ali estavam — dentre elas e sempre elas, as mães que evocavam a memória dos seus — mostram que a estratégia segue em vão.
Os Crimes de Maio
Neste ano, o tema central é a herança de dor e resistência deixada por maio de 2006 — um episódio que começou com uma demonstração de força das facções e terminou em um banho de sangue promovido pelo próprio Estado.
A crise estourou após o anúncio da transferência de 765 detentos, incluindo lideranças do Primeiro Comando da Capital (PCC), para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no extremo oeste paulista.
Em resposta, a cúpula da facção ordenou megarebeliões em 74 dos 105 presídios do estado e uma onda de atentados do lado de fora. Delegacias foram metralhadas, havia um toque de recolher informal nas ruas, e 59 agentes públicos foram assassinados, entre policiais, guardas civis e policiais penais.
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A contraofensiva do Estado, contudo, operou na lógica da barbárie. Entre 12 e 21 de maio daquele ano, policiais e grupos de extermínio paramilitares saíram às ruas em uma caçada que resultou no assassinato de centenas de pessoas e no desaparecimento forçado de outras quatro.
A narrativa oficial de que a polícia agia em “confronto” contra o crime organizado é desmentida pelos dados. Um estudo do Condepe (Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana) revelou que mais da metade das vítimas eram jovens negros, 80% delas tinham até 35 anos e apenas 6% possuíam algum antecedente criminal.
Você pode ouvir mais sobre os contornos dessa história em “Crimes de Maio: o massacre que o Brasil ignora”, podcast original da Ponte, em parceria com o Brasil de Fato, disponível nas principais plataformas de áudio.

As madrinhas do cordão conduzem o ato
A caminhada também é uma homenagem às madrinhas do cordão: o Movimento Independente Mães de Maio, composto por mulheres que há duas décadas transformam o trauma da perda de seus filhos em uma busca incessante por justiça e contra a impunidade.
Como sempre, as Mães de Maio não estão só. Com elas, mães de todo Brasil caminham juntas pelo coração de São Paulo. Veem de Acari, da Baixada Santista, do Curió, do Nordeste, de Minas. São as mães do Brasil que empunham espadas-de-são-jorge que iluminam o caminho até a justiça.
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“Nós estamos falando de mães que nós recebemos da Bahia, do Ceará, de Rio de Janeiro e Minas Gerais. Essas mulheres são rebeldia”, afirma Débora Maria da Silva, cofundadora e coordenadora do Movimento Independente Mães de Maio.
Aos 67 anos, Débora é quem conduz o Cordão. Mãe de Edson Rogério, assassinado durante o massacre na Baixada Santista, ela carrega uma cronologia cruel na memória: Débora faz aniversário no dia 10 de maio. Naquele 2006, o Dia das Mães caiu no dia 14. Edson foi morto no dia 15. Uma coincidência ingrata que ela revive há 20 anos.
Sua voz potente rasga o som dos tambores, se ergue na Paulista. “O que eu tenho aqui é a continuação de uma impunidade que poderia ter parado em maio de 2006 quando eu perdi meu filho e quando perdemos mais de 500 jovens no espaço de uma semana”.
“Se tivesse justiça para os Crimes de Maio, não teríamos a Chacina do Curió, quando perdi meu filho com 17 anos”, afirma Edna Carla Souza Cavalcante, mãe de Álef Sousa Cavalcante, morto no ocorrido em 2015 quando policiais atuaram em uma ação de vingança pela morte de um colega na periferia de Fortaleza (CE). Quando as lágrimas vem, depois do discurso, é Débora que a acolhe.
Longe de ser uma história de “superação” ou um enredo com final feliz, a presença delas ali é um erro sistêmico: ninguém deveria ter o filho assassinado. Mas o problema vai além: ninguém deveria ter o filho assassinado a mando do Estado. Ponto. Diante da atrocidade, elas escolheram o grito estratégico. O grito de luta.

Os nossos mortos têm voz
Camiseta roxa e shorts feminino brancos. Um pijama infantil. Uma camiseta preta. Outra vermelha. Um uniforme escolar pequenino. Ao lado de cada uma das peças, uma vela para homenagear quem se foi.
Para cada vela, o nome. E para cada nome, uma mãe lutando pela memória daquele que lhe foi arrancado: Leonel. Mc Careca. Hildebrando, PCD, 24 anos. Davizinho, 17 anos. Edson Rogério. Davi Fiuza. Gueguê, pai de 2, assassinado em frente a família. Ryan, 4 anos. Nicole, 10 anos.
Na intervenção “Nossos mortos têm voz”, centenas de peças de roupas foram estendidas em frente ao Parque Trianon Masp. Cada uma delas representa uma pessoa morta pela violência de Estado.
Ao lado de cada vida que ali existia, as mães se posicionaram. E, de novo, se abraçaram. Se deram força. Choraram novamente a ferida que nunca cura.
O cordão seguiu caminhando e, à sua maneira, parecia dizer: nós sentimos muito. Palavras que, em 20 anos, o Estado nunca foi capaz de enunciar, seja por meio de representantes ou na Justiça. Era uma batida de dor, de canto, de samba, de resistência.
Do rio ao mar, Palestina livre já!
Ainda na concentração, Aiuni Sofia, integrante da Frente Palestina, quebrou o protocolo. Confidenciou que havia preparado um discurso, mas que não o usaria. Mudou os planos ao se dar conta de um episódio envolvendo o tio, que morreu há cerca de 4 dias, em meio a efeméride de 78 anos do Nakba.
O homem veio para o Brasil ainda na adolescência, no leito de morte, perguntou à esposa: “esse hospital é em Belém? nós voltamos?”. Mesmo após tanto tempo, finalizou Aiuni, essas foram suas últimas palavras. Ressaltando como o território é parte fundamental da história de um povo.
O conglomerado de pessoas à margem — que nesta noite ocupou o centro das ruas — iniciou a descida pela Brigadeiro Luís Antônio.
Diferente de edições anteriores, o desfile de 2026 somou-se ao ato pelos 78 anos da Nakba Palestina, organizado pela Frente Palestina.
Nakba, em árabe, significa “catástrofe” e se refere à expulsão violenta, desapropriação e deslocamento forçado de mais de 700.000 palestinos de suas terras entre 1947 e 1949, coincidindo com a fundação do Estado de Israel. 15 de maio foi o dia escolhido para relembrar a Nakba, uma ponte entre maio de 1948 e maio de 2006.
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Retirados de seu território, perderam o título de moradores e se transformaram em refugiados. Buscaram e fizeram casa em países vizinhos ou na Faixa de Gaza e Cisjordânia.
A unificação das pautas busca evidenciar que a lógica militarista que opera no Oriente Médio guarda semelhanças com a repressão nas periferias brasileiras. Mas não só.
“A gente não aceita também o genocídio na Palestina. A bala que mata lá é a mesma que mata aqui. Nossas periferias e favelas são um pouco de Gaza. Na Favela do Moinho, a gente viu escombros iguais aos de Gaza”, lembrou Débora, das Mães de Maio.
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O samba como escracho
Fundado em 2012, o Cordão da Mentira utiliza a estética carnavalesca para realizar “escrachos”, que são atos de denúncia pública. Entre as canções inéditas compostas para este desfile, os versos ecoam a crítica à militarização da vida e ao fascismo.
Até o fechamento desta reportagem, o desfile seguia em direção à Rua Rui Barbosa, até o restaurante palestino Al Janiah, onde também funciona um centro cultural. A Polícia Militar acompanhava o trajeto.
Para as mães, o Cordão é uma forma de reunir forças para seguir adiante. “O cordão da mentira é o alimento da nossa luta ao longo do ano”, afirma Débora.
Rute Fiúza teve seu filho, Davi, de 16 anos, morto por 17 PMs em 2014 na Bahia. Desde então, ela faz parte das Mães de Maio do Nordeste. “Deem a mão às mães, não larguem a mão das mães. Nós só vamos parar quando esse Estado nos der paz”, conclama.
Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo
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